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Conselhos a apologistas cristãos europeus

Summary

Conselhos a apologistas cristãos europeus iniciantes.

Em 1983, quando Alvin Plantinga proferiu sua aula inaugural na cátedra John O'Brien de filosofia, na Universidade de Notre Dame, ele escolheu como tema "Conselhos aos filósofos cristãos". Hoje escolhi como meu assunto o tema relacionado, mas um pouco mais limitado: "Conselhos a apologistas cristãos", mais especificamente apologistas cristãos europeus.

Pois bem, alguns de vocês podem estar pensando: “Quem é você, um americano, para nos dar conselhos?”. Plantinga deparou com uma pergunta semelhante e forneceu a melhor forma de lidar com ela. Ele respondeu: “Boa pergunta. Pretendo enfrentá-la como alguém corretamente deveria enfrentar boas perguntas para as quais não se sabe a resposta: eu vou ignorá-la”. E eu também o farei. Só quero lhes assegurar que os conselhos que pretendo dar, embora direcionados, brotam de um profundo senso de responsabilidade pela Europa e que estou unido com vocês na nossa tarefa em comum.

É parte do objetivo deste congresso despertar um movimento de apologética cristã na Europa, tendo em vista recuperar território intelectual perdido para Cristo, para remodelar a vida intelectual europeia de forma a tornar a Weltanschauung cristã uma alternativa intelectual viável para os homens e mulheres europeus educados de hoje. A tarefa é difícil — na verdade, assustadora; alguns podem até dizer que ela é impossível. Mas já que servimos a um Deus para quem nada é impossível (Mt 19.26) e já que esta é a visão que nos inspira e esta é a tarefa colocada diante de nós, qual é a melhor maneira de abordá-la?

Antes de conseguirmos responder a esta pergunta, precisamos ter alguma noção do desafio que enfrentamos. Em geral, a cultura europeia é profundamente pós-cristã. É o produto do iluminismo, que introduziu na cultura europeia o fermento do secularismo que agora a tudo permeia. A principal característica do iluminismo era "livre pensamento", ou seja, a busca do conhecimento apenas por meio da razão humana, livre de quaisquer impedimentos. Embora não seja de nenhuma maneira inevitável que tal busca leve a conclusões não-cristãs e embora a maioria dos pensadores iluministas originais até fosse teísta, o impacto avassalador da mentalidade iluminista é que os intelectuais europeus não consideram possível o conhecimento teológico. A teologia não é uma fonte de conhecimento genuíno e, portanto, não é Wissenschaft ou ciência. Razão e religião estão em desacordo uma com a outra. A imagem do mundo que emerge das ciências genuínas é uma imagem completamente naturalista. A pessoa que segue a busca pela razão com firmeza em direção ao seu fim será ateísta ou, na melhor das hipóteses, agnóstica.

Na Europa oriental, o secularismo do iluminismo foi reforçado pela crítica marxista da religião. Embora os europeus orientais tenham se mantido céticos em relação à descrição marxista positiva do homem e da sociedade (é difícil de acreditar nas virtudes da ditadura do proletariado quando você tem de esperar 17 anos para comprar um Trabant miserável), eles ainda aceitaram em grande parte a crítica marxista negativa da crença religiosa, que foi inculcada em gerações de alunos por doutrinadores do estado. Àqueles que se recusaram a aceitá-la era simplesmente negado o ensino superior, o que teve o efeito de aprisionar cristãos na classe inferior, sem instrução formal.

Há muitas correntes contrárias ao racionalismo iluminista no pensamento europeu —pode-se pensar no romantismo, por exemplo—, mas elas não são mais amigáveis com o cristianismo do que com o projeto do iluminismo. Na verdade, elas têm, por vezes, servido para proporcionar uma religião mística, panteísta e natural como alternativa ao teísmo tradicional, no intuito de que os anseios religiosos individuais, que o racionalismo iluminista tendia a tratar com desdém, não ficassem sem resposta.

No cenário atual, o autoproclamado “pós-modernismo” é um movimento desses. O iluminismo é associado à idade moderna, dominada pela ciência e tecnologia, e portanto também é chamado de “modernidade”. O pós-modernismo rejeita a suficiência da razão humana defendida pelo livre pensamento. Isso pode parecer à primeira vista uma evolução bem-vinda para os cristãos, cansados de séculos de ataques por racionalistas iluministas. Mas, neste caso, a cura é pior do que a doença. Os pós-modernistas negam que existam normas de lógica universal, racionalidade e verdade. Esta declaração é incompatível com a ideia cristã de Deus, que, enquanto Criador e Sustentador de todas as coisas, é uma realidade objetiva existente, e que, enquanto ser onisciente, tem uma perspectiva privilegiada sobre o mundo, compreendendo o mundo como ele é na unidade do seu intelecto. Existe, portanto, uma unidade e objetividade na verdade que é incompatível com o pós-modernismo.

Pós-modernistas, assim, muitas vezes veem sua tarefa como implicitamente antiteológica. Por exemplo, o crítico literário Roland Barthes escreveu,

Atribuir um autor a um texto é impor um limite àquele texto, fornecer-lhe um significado final, fechar a escrita... Precisamente desta forma a literatura, por se recusar a conferir... um sentido último ao texto (e ao mundo como texto) libera o que pode ser chamado de atividade antiteológica, uma atividade verdadeiramente revolucionária, pois recursar-se a fixar significado é, enfim, recusar a Deus e suas hipóstases - razão, ciência, lei.

Assim, o pós-modernismo não é mais amigável às afirmações de verdade cristã do que o racionalismo iluminista. O cristianismo é reduzido a apenas uma voz na cacofonia de afirmações conflitantes, nenhuma das quais é objetivamente verdadeira.

Em todo caso, o racionalismo iluminista está tão arraigado na vida intelectual europeia que essas correntes antirracionalistas como o romantismo e o pós-Modernismo estão condenados, penso eu, a ser meras modas passageiras. E, afinal de contas, ninguém adota a visão pós-modernista de textos literários ao ler textos como rótulos de remédio ou a caixa de veneno de rato! Evidentemente, só ignoramos o significado de tais textos objetivos colocando em perigo as nossas vidas. No final, as pessoas acabam sendo subjetivistas apenas quanto a ética e religião, e não quanto a assuntos demonstráveis ​​pela ciência. Mas isso não é o pós-Modernismo, mas nada mais do que o racionalismo iluminista clássico — é o velho modernismo com uma nova roupagem.

Assim, o secularismo originário do iluminismo molda a vida europeia, e especialmente a academia europeia. Embora a esmagadora maioria dos europeus mantenha a afiliação nominal com o cristianismo, apenas cerca de 10% são crentes praticantes e menos da metade desses é evangélica em sua teologia. A tendência mais marcante na filiação religiosa europeia é o crescimento dos considerados "arreligiosos" de efetivamente 0% da população em 1900 para mais de 22% hoje. Sem dúvida, o percentual de pessoas arreligiosas seria ainda maior entre aqueles na vida acadêmica.

Menciono a vida acadêmica porque a instituição mais importante a moldar a cultura ocidental é a universidade. É na universidade que nossos futuros líderes políticos, nossos jornalistas, nossos advogados, nossos professores, nossos executivos de empresas, nossos artistas serão formados. É na universidade que eles formularão ou, mais provavelmente, simplesmente absorverão a visão de mundo que moldará sua vida. E, uma vez que esses são os líderes e formadores de opinião que moldam nossa cultura, a visão de mundo que eles absorverem na universidade será aquela que moldará nossa cultura. Se mudarmos a universidade, nós mudamos nossa cultura através daqueles que moldam a cultura. Se a cosmovisão cristã pode ser restaurada para um lugar de destaque e respeito na universidade, ela terá um efeito levedante em toda a sociedade.

Por que isso é importante? Simplesmente porque o evangelho não é ouvido isoladamente. Ele é sempre ouvido dentro do contexto do meio cultural em que se vive. Uma pessoa criada em um ambiente cultural em que o cristianismo ainda é visto como uma opção intelectualmente viável, demonstrará abertura ao evangelho que a pessoa secularizada não fará. Pedir à pessoa secular para acreditar em fadas ou duendes talvez seja a mesma coisa que pedir para acreditar em Jesus Cristo! Ou, para dar uma ilustração mais realista, é como um devoto do movimento Hare Krishna indo até você na rua e o convidando a acreditar em Krishna. Tal convite nos parece estranho, bizarro, até mesmo engraçado. Mas para as pessoas nas ruas de Bombaim, o convite, segundo suponho, pareceria bastante razoável e motivo de reflexão. Receio que evangélicos pareçam quase tão estranhos para as pessoas nas ruas de Bonn, Estocolmo ou Paris quanto os devotos de Krishna.

É por esta razão que os cristãos que depreciam o valor da apologética porque "ninguém vem a Cristo através de argumentos intelectuais" são tão míopes. O valor da apologética vai muito além do contato evangelístico imediato. A tarefa mais ampla da apologética cristã é ajudar a criar e sustentar um meio cultural em que o evangelho possa ser ouvido como uma opção intelectualmente viável para homens e mulheres pensantes. O grande teólogo de Princeton J. Gresham Machen declarou corretamente,

Ideias falsas são os maiores obstáculos à recepção do evangelho. Podemos pregar com todo o fervor de um reformador e ainda assim só conseguir ganhar uma única pessoa aqui e ali, se nós permitirmos que todo o pensamento coletivo da nação seja controlado por ideias que impeçam o cristianismo de ser considerado algo mais do que uma ilusão inofensiva. Sob tais circunstâncias, o que Deus deseja que façamos é destruir o obstáculo em sua raiz.

A raiz do obstáculo encontra-se na universidade, e é lá que deve ser atacada.

Mas isso implica que a apologética em nível popular, que visa as massas, não dará conta do trabalho. Somente a apologética no nível acadêmico voltada a especialistas nas várias disciplinas acadêmicas será capaz de mudar a universidade e assim garantir mudança cultural duradoura. Machen observou que muitas pessoas “prefeririam que os seminários combatesse o erro conforme ensinado por seus expoentes populares”, em vez de confundir os alunos “com um monte de nomes alemães desconhecidos fora dos muros da universidade”. Porém, insistiu Machen, o método acadêmico de procedimento,

... é baseado simplesmente em uma crença profunda na difusão de ideias. O que é hoje motivo de especulação acadêmica começa amanhã a mover exércitos e derrubar impérios. Neste segundo estágio, já foi longe demais para ser combatido; o momento de parar foi quando ainda era uma questão de debate apaixonado. Então, como cristãos, devemos tentar moldar o pensamento do mundo de tal forma a tornar a aceitação do cristianismo algo mais do que um absurdo lógico.

Assim, paradoxalmente, os livros de apologética mais eficazes não serão livros sobre apologética. Ao contrário, serão obras como The Nature of Necessity [A natureza da necessidade], de Alvin Plantinga, The Logic of God Incarnate [A lógica do Deus encarnado], de Thomas Morris, e The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History [O livro de Atos no ambiente da história helenística], de Colin Hemer.

O que, então, podemos perguntar, evangélicos europeus estão fazendo para ganhar este debate acadêmico e assim mudar a universidade? Bem, francamente, a resposta deve ser: muito pouco, na verdade. Com a notável exceção da Grã-Bretanha e, em menor medida, a Alemanha, a Europa produziu poucos acadêmicos evangélicos distintos. Os acadêmicos evangélicos que existem tendem a ser peixes grandes em lago pequeno. Sua influência se estende muito pouco além da subcultura evangélica. Eles ensinam em sua maior parte em escolas bíblicas e seminários evangélicos, e não em universidades; eles tendem a publicar em editoras evangélicas, de modo que seus trabalhos permanecem em grande parte intocados pelos estudiosos não-evangélicos; e, em vez de participar das sociedades profissionais tradicionais, eles as evitam em favor das conferências evangélicas. Consequentemente, sua luz é colocada debaixo do alqueire, eles têm pouco efeito levedante para a causa do evangelho em seus campos profissionais e o efeito sufocante do secularismo na cultura em geral continua descontrolado.

Precisamos desesperadamente de acadêmicos evangélicos na Europa que possam competir com os acadêmicos seculares no mesmo nível de pesquisa. Charles Malik, ex-embaixador do Líbano nos Estados Unidos, em seu discurso na inauguração do Centro Billy Graham na Faculdade Wheaton, alertou os cristãos americanos do perigo do anti-intelectualismo. Ele perguntou incisivamente,

Quem entre os evangélicos pode estar à altura dos grandes estudiosos seculares no mesmo nível de pesquisa? Quem entre os estudiosos evangélicos é citado como fonte normativa pelas maiores autoridades seculares em história, filosofia, psicologia, sociologia ou política? Será que o modo evangélico de pensar tem a menor chance de se tornar o modo dominante nas grandes universidades da Europa e da América, marcando toda a nossa civilização com o seu espírito e ideias?

Malik continuou dizendo,

Será necessário um espírito completamente diferente para superar este grande risco do anti-intelectualismo. Por exemplo, digo que este “espírito diferente” — pensando apenas em filosofia, o domínio mais importante para o pensamento e o intelecto — deve enxergar o enorme valor de passar um ano inteiro sem fazer nada além de debruçar sobre a República ou o Sofista de Platão, ou dois anos sobre a Metafísica ou a Ética de Aristóteles, ou três anos sobre a Cidade de Deus de Agostinho. Se alguém começar com isto agora num programa intensivo neste e em outros domínios, levará pelo menos um século para alcançar as Harvards, as Tubingas e as Sorbonnes — e, até lá, onde estas universidades estarão? Por uma questão de maior eficácia no testemunho de Jesus Cristo, bem como para seu próprio bem, os evangélicos não podem se dar ao luxo de continuar a viver na periferia da existência intelectual responsável.

Estas palavras são como uma pancada de martelo. Evangélicos europeus, como seus irmãos americanos, têm em sua maior parte vivido na periferia da existência intelectual responsável. Se a universidade e, consequentemente, a cultura europeia é para ser mudada, os evangélicos europeus precisam voltar a se engajar intelectualmente.

Isso pode ser feito! Por exemplo, nos últimos quarenta anos está em curso uma revolução no mundo anglo-americano no campo da filosofia. Desde o final dos anos de 1960, filósofos cristãos têm saído do armário e defendido a verdade da cosmovisão cristã com argumentos filosoficamente sofisticados nas melhores publicações e sociedades seculares. E o rosto da filosofia anglo-americana foi, assim, transformado. Cinquenta anos atrás, filósofos respeitados consideravam que discussões sobre Deus fossem literalmente sem sentido, pura tagarelice, mas hoje nenhum filósofo bem informado seria capaz de adotar tal ponto de vista. Na verdade, muitos dos melhores filósofos da América hoje são cristãos sinceros.

Para lhe dar uma noção do impacto desta revolução, quero citar extensamente um artigo publicado no ano passado na revista Philo, lamentando o que o autor chamou de “a dessecularização da academia que se passa nos departamentos de filosofia desde o final dos anos 1960”. O autor, sendo ele mesmo destacado filósofo ateu, escreve:

Até a segunda metade do século XX, as universidades... tinham se tornado no geral secularizadas. A posição... padrão em cada campo... assumia ou envolvia argumentos a favor de uma visão de mundo naturalista; departamentos de teologia ou religião voltavam-se a compreender o significado e origens de escritos religiosos, e não a desenvolver argumentos contra o naturalismo. Os filósofos analíticos... tratavam o teísmo como uma cosmovisão antirrealista ou não-cognitivista que exigia a realidade não de uma divindade, mas apenas de expressões emotivas ou certos “modos de vida”...

Isso não quer dizer que nenhum dos estudiosos nas várias áreas acadêmicas era teísta realista em suas “vidas privadas”; porém, os teístas realistas, em sua grande maioria, excluíam seu teísmo de suas publicações e ensino, em grande parte porque o teísmo... era geralmente considerado como se tivesse uma posição epistêmica tão baixa que não seguia o padrão de uma posição que se pode adotar de modo “academicamente respeitável”. A secularização da academia convencional começou a se desfazer rapidamente após a publicação do influente livro de Plantinga, God and Other Minds [Deus e outras mentes], em 1967. Tornou-se evidente para a profissão filosófica que o livro exibia que realistas teístas não tinham sido superados pelos naturalistas quanto aos padrões mais valorizados na filosofia analítica: precisão conceitual, rigor argumentativo, erudição técnica e defesa profunda de uma visão de mundo original. Este livro, seguido sete anos depois por obra ainda mais impressionante de Plantinga, The Nature of Necessity [A natureza da necessidade], deixou manifesto que um teísta realista estava escrevendo no nível qualitativo mais alto da filosofia analítica, no mesmo campo de atuação que Carnap, Russell, Moore, Grünbaum e outros naturalistas...

Naturalistas passivamente assistiram à medida que versões realistas do teísmo, na maior parte influenciadas pelos escritos de Plantinga, começaram a entrar na comunidade filosófica, até que hoje talvez um quarto ou um terço dos professores de filosofia são teístas, com a maioria deles sendo cristãos ortodoxos. Embora muitos teístas não trabalhem com filosofia da religião, tantos deles desenvolvem, sim, trabalho nesta área que há agora mais de cinco periódicos de filosofia dedicados ao teísmo ou à filosofia da religião, como Faith and Philosophy, Religious Studies, International Journal of the Philosophy of Religion, Sophia, Philosophia Christi, etc. Philosophia Christi começou no final da década de 1990 e já está transbordando com pedidos de publicação por parte de filósofos de destaque.

... teístas em outros campos tendem a compartimentar suas crenças teístas de seu trabalho acadêmico; raramente assumem e nunca defendem o teísmo em seu trabalho acadêmico. Se o fizessem, estariam cometendo suicídio acadêmico ou, para ser mais exato, os seus artigos seriam rapidamente rejeitados... Na filosofia, porém, tornou-se, quase da noite para o dia, "academicamente respeitável" defender o teísmo, fazendo da filosofia uma área privilegiada para os teístas mais inteligentes e talentosos que entram na academia hoje. Uma contagem mostraria que, no catálogo da editora da Universidade de Oxford de 2000-2001, há 96 livros recentemente publicados sobre filosofia da religião... Por outro lado, existem 28 livros... em filosofia da linguagem, 23 de epistemologia (incluindo epistemologia religiosa, como Warranted Christian Belief [Crença cristã garantida], de Plantinga, 14 sobre metafísica, [etc.]...

Deus não está “morto” na academia; ele retornou à vida no final da década de 1960 e agora está bem vivo em sua última fortaleza acadêmica, os departamentos de filosofia.

Este é o testemunho de destacado filósofo ateu a respeito da mudança que ocorreu diante de seus olhos na filosofia anglo-americana. Acho que ele está provavelmente exagerando quando estima que de um quarto a um terço dos filósofos americanos são teístas, mas o que suas estimativas revelam é o impacto percebido de filósofos cristãos sobre este campo. Como o exército de Gideão, uma minoria de ativistas engajados podem ter um impacto muito desproporcional em relação ao seu número. O principal erro que Smith comete é chamar os departamentos de filosofia de o "último bastião" de Deus na universidade. Pelo contrário, os departamentos de filosofia são a base, a partir da qual as operações podem ser lançadas para impactar por Cristo outras disciplinas na universidade. Na verdade, acho que nós já estamos vendo o efeito transbordante em áreas como ciências naturais, onde um diálogo entre ciência e religião está acontecendo, e os defensores do chamado "Projeto Inteligente" estão causando um alvoroço.

O ponto é que a tarefa de dessecularização não está perdida nem é impossível; tampouco é preciso demorar tanto tempo para que ocorram mudanças, como se poderia pensar. É esse tipo de erudição cristã que representa a melhor esperança para a transformação da cultura que Malik e Machen previram, e seu verdadeiro impacto para a causa de Cristo só será sentidos na próxima geração, ao se infiltrar na cultura popular.

Disse tudo isso sobre o desafio que nos confronta. Que conselho, então, eu poderia dar a quem Deus tem colocado a tarefa incrível de se tornar apologistas cristãos na Europa? Deixe-me ser muito prático.

1. Você deve dominar a língua inglesa. Para melhor ou pior, o simples fato é que a maioria da literatura apologético de importância hoje em dia está em inglês. Além disso, parte dessa literatura é altamente técnica e difícil de ler, até mesmo para um falante nativo. Os escritos de Alvin Plantinga são um recurso de importância especial. Se o seu inglês for fraco, quantidades enormes de obras importantes lhes estarão fechadas.

Provavelmente a melhor coisa que você pode fazer para melhorar o seu inglês é passar vários meses estudando em um país de língua inglesa. Para os europeus, Grã-Bretanha é a escolha óbvia. Procure por oportunidades de estudar, talvez durante um verão, numa universidade ou faculdade britânica.

2. Você precisa tomar uma forte dose de filosofia analítica. O tipo de filosofia que predomina no mundo anglófono é conhecido como filosofia analítica. Este estilo de filosofar contrasta fortemente com o da filosofia continental. Enquanto a filosofia continental tende a ser obscura, imprecisa e emotiva, a filosofia analítica dá grande valor e ênfase à clareza das definições, à delineação cuidadosa de premissas e ao rigor lógico da argumentação. Infelizmente, a teologia tende a seguir o exemplo da filosofia continental, que só resulta em trevas sobre trevas. A experiência dos últimos 40 anos do renascimento da filosofia da religião anglo-americana revelou que as questões apologéticas importantes podem ser brilhantemente iluminadas graças à análise filosófica. Richard Swinburne, que ocupa a cátedra Nolloth de filosofia da religião cristã na Universidade de Oxford, escreveu,

É uma das tragédias intelectuais do nosso tempo que, quando a filosofia em países anglófonos tem desenvolvido elevados padrões de argumentação e raciocínio claro, o estilo de escrita teológica tem sido em grande medida influenciado pela filosofia continental do existencialismo, que, apesar de outros de seus méritos consideráveis, distingue-se por ter um estilo muito solto e malfeito de argumento. Se o argumento tem um lugar na teologia, a teologia em larga escala necessita de argumentação clara e rigorosa. Esse ponto foi muito bem compreendido por Tomás de Aquino e Duns Escoto, por Berkeley, Butler e Paley. É hora de a teologia regressar aos padrões deles.

Ao empregar os elevados padrões de raciocínio característicos da filosofia analítica, podemos formular poderosamente argumentos apologéticos, tanto para elevar quanto para defender a cosmovisão cristã. Nas últimas décadas, os filósofos analíticos da religião têm lançado nova luz sobre a racionalidade e garantia de crença religiosa, sobre argumentos para a existência de Deus, sobre atributos divinos como necessidade, eternidade, onipotência, onisciência e bondade, sobre o problema do sofrimento e mal, sobre a natureza da alma e da imortalidade, sobre o problema dos milagres, e até mesmo sobre doutrinas peculiarmente cristãs como a Trindade, encarnação, expiação, o pecado original, revelação, inferno e oração. Simplesmente não posso lhes descrever a riqueza de materiais por aí afora produzidos por filósofos analíticos da religião.

Se você quer fazer apologética de forma eficaz, precisa ser treinado na filosofia analítica. E eu digo isto, mesmo se a sua área de especialização não for apologética filosófica. Suponha que você opte por se especializar em apologética científica ou histórica. O fato é que algumas das questões mais importantes que você enfrentará serão perguntas decorrentes da filosofia da ciência ou epistemologia. Repetidas vezes eu vejo cientistas e estudiosos do Novo Testamento fazendo inferências defeituosas ou provenientes de pressuposições não examinadas por causa de sua ingenuidade filosófica. Seja qual for a sua área de especialização, você estará melhor equipado como apologista, se já tiver formação em filosofia analítica.

Você pode começar fazendo um curso ou ler com cuidado um manual de lógica de primeira ordem. Em seguida, trabalhe em cima de um livro sobre lógica modal, a lógica da possibilidade e necessidade. Há também boas introduções à filosofia analítica que você pode consultar. Por último, comece a ler filosofia da religião analítica. Um bom texto introdutório aplicando as perspectivas da filosofia analítica à apologética é Reason for the Hope Within [Razão para a esperança que há em nós], editado por Michael Murray (Wm. B. Eerdmans, 1999). Uma boa ferramenta de referência é o livro de Philip Quinn e Charles Taliaferro, A Companion to Philosophy of Religion ([Manual de filosofia da religião] Blackwell, 1997); você também pode consultar os artigos na Encyclopedia of Philosophy [Enciclopédia de filosofia] publicada pela Routledge. Há uma abundância de excelentes antologias em filosofia da religião — por exemplo, a cartilha e guia que recentemente editei para a editora da Universidade de Edimburgo com o título Philosophy of Religion [Filosofia da Religião] (2002).

3. Obtenha um doutorado em sua área de especialização. Este conselho pode não ser muito bem acolhido. Mas apologética popular por si só não fará o serviço. Apologética popular pode influenciar quem não tem instrução superior, mas isso não mudará as estruturas de pensamento dominantes da sociedade. A fim de transformar a cultura, temos de mudar a universidade. A fim de mudar a universidade, temos de fazer apologética acadêmica. A fim de fazer apologética acadêmica, temos de conseguir doutorados. É simples assim.

Não será fácil. As estruturas de poder nas universidades europeias são muitas vezes profundamente anticristãs. Os estudantes que são cristãos evangélicos serão eliminados, com títulos ou cátedras lhes sendo negado. Haverá, e já tem havido, vítimas de discriminação anticristã no processo. Esses irmãos humilhados são verdadeiros mártires intelectuais para a causa de Cristo, e meu coração se parte por eles. Mas, com o tempo, mais e mais de nós conseguiremos passar adiante. Nos Estados Unidos, programas de pós-graduação em filosofia são inundados com estudantes cristãos gradualmente passando pelo sistema. À medida que a velha guarda morre e jovens filósofos cristãos são contratados em seus lugares, o rosto da universidade mudará. O que Thomas Kuhn disse das revoluções científicas também se aplica às revoluções cristãs: elas fazem um funeral de cada vez. Isso pode acontecer na Europa também. Seja paciente. Seja persistente. Ore. A mudança virá.

Pois bem, sei que, para alguns de vocês, a oportunidade para o estudo de doutorado já passou. No seu caso, eu o encorajo a ficar atento a estudantes mais jovens que você pode orientar a entrar em programas de doutorado. Porém, se você estiver abaixo dos 35 anos, essa oportunidade ainda é uma opção realista que o encorajo a explorar. As chaves para o sucesso serão, em primeiro lugar, escolher um tema de tese de doutorado pelo qual você esteja apaixonado, e, em segundo lugar, encontrar um mentor em uma universidade secular que seja, pelo menos, simpático com o seu tema de tese. Você pode ter de escrever sobre um tema mais neutro do que você gostaria para não despertar a oposição à sua candidatura. Por exemplo, a minha tese de doutorado sobre a ressurreição de Jesus foi essencialmente uma história da apologética histórica para a ressurreição. Já com o diploma em mãos, publiquei como um segundo volume as centenas de páginas que eu tinha escrito com a minha própria apologética histórica para a ressurreição.

Espero que muitos de vocês venham a considerar seriamente o trabalho de doutorado em algum campo especializado como parte integrante de sua vocação apologética.

4. Esteja atento a sua formação espiritual pessoal. Nem sempre fico entusiasmado quando eu encontro um aluno que me diz que quer se tornar apologista cristão. Às vezes, detecta-se que o que o aluno realmente quer são os holofotes e a glória. Ou pode ser que ele tenha um espírito questionador ou arrogante. Ou talvez um desejo de afirmação dos outros, para compensar um sentimento pessoal de inferioridade. Claro, todos nós somos pessoas quebradas, e nenhum de nós tem motivos que sejam totalmente puros. Mas é muito importante que, como representante público de Cristo, o apologista cristão seja uma pessoa que frequentemente se ponha de joelhos para passar tempo com Deus, que dependa diariamente do preenchimento do Espírito Santo para viver uma vida agradável e aceitável a Deus. Ele deve buscar a glória de Cristo, e não a sua própria. Ele deve estar aberto à crítica e disposto a ver suas próprias deficiências. Se ele é casado, ele não deve colocar seu ministério ou estudos à frente de sua família, mas, sim, estar preparado para desistir de seus estudos e ministério, se necessário, para o bem daqueles que ele ama. Ele deve se proteger contra o pecado, especialmente o pecado sexual, em pensamento, bem como em ação, de modo a não desonrar a Cristo. Ele deve aprender o que significa não apenas fazer coisas para Deus, mas ser a pessoa que Deus quer que ele seja.

Se não aprendermos a ser quem Deus quer que sejamos, todas as nossas realizações serão como madeira, feno e palha. A nossa formação espiritual é, portanto, de importância tão vital quanto a nossa formação acadêmica como apologistas cristãos.

Revisando o que disse, o meu conselho a vocês como apologistas cristãos europeus é: (1) domine a língua inglesa; (2) tome uma forte dose de filosofia analítica; (3) obtenha um doutorado em sua área de especialização; e (4) esteja atento a sua formação espiritual pessoal. Também gostaria de encorajá-lo a fazer parte de uma comunidade de acadêmicos que pensam parecido. Nos últimos três anos, servi como presidente da Sociedade Filosófica Evangélica [Evangelical Philosophical Society], uma sociedade recentemente revitalizada de filósofos evangélicos. Nossa lista de membros conta com mais de 1.100 pessoas. Nosso periódico Philosophia Christi é a única revista evangélica de filosofia no mundo e está emergindo como um dos principais periódicos em filosofia da religião. É um tremendo recurso para aqueles envolvidos na apologética cristã. Estamos ansiosos para estabelecer grupos em vários países europeus e gostaria de convidá-lo a se tornar parte.

Penso que a Europa possa ser transformada. Estou animado com o despertar de um novo movimento que tenho visto na Europa, do qual esta conferência é apenas uma indicação. Que Deus levante uma força poderosa de homens e mulheres empenhados em transformar a universidade europeia e, consequentemente, a cultura europeia de tal forma que o evangelho possa ser novamente escutado em todo o seu poder, capaz de transformar vidas.

Notas

Quentin Smith, “The Metaphilosophy of Naturalism”, Philo 4/2 (2001)