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#554 Deus tem propriedades necessárias e contingentes?

September 02, 2018
Q

Dr. Craig,

Uau, estou amando o novo site! É muito bem organizado e bonito. Foi muito bem elaborado. Gosto de como encontro tudo com tanta facilidade. O senhor tem mostrado grande diligência, dedicação e compaixão pela humanidade em seu trabalho. Em nome de todos os que buscam sinceramente a verdade, em todos os lugares, gostaria de agradecer por tudo que tem feito. Quem dera eu conseguisse agradecer o suficiente.

Minha pergunta é: como é que o Deus cristão pode ser corretamente entendido como ser necessário? O argumento ontológico e o argumento da contingência claramente inferem a existência de um ser necessário que é compatível com o Deus de Israel. Parece haver uma dificuldade em aplicar argumentos para Deus como ser necessário no cristianismo. Segundo a perspectiva cristã, Deus é um ser tripessoal. Como é que ele também pode ser necessário? Parece possível a Deus ter existido em sentido monoteísta estrito, como creem muçulmanos e judeus. Isto parece sugerir que a natureza trina de Deus não é propriedade necessária. Como é que um ser necessário possui propriedade desnecessária? Talvez o Deus já existente possa adquirir propriedades contingentes como um corpo na encarnação de Jesus. A incapacidade de Deus de contradizer sua própria natureza e sua asseidade divina não o impediriam de adquirir novas propriedades e de mudar seu ser? Por último, não seria mais fácil ainda que Deus fosse bipessoal, tornando desnecessário um Deus tripessoal ou unipessoal? Em resumo, parece necessário que um ser seja (n)pessoal, mas, se n não é necessariamente igual a um, vale qualquer valor arbitrário de um número inteiro positivo. Uma vez que n igual a um não é opção para o teísta cristão, como é que o Deus cristão pode ser um ser necessário? Isto parece transformar argumentos comuns a favor de Deus como ser necessário em argumentos contra o cristianismo e a favor do monoteísmo estrito. Isto me fez considerar seriamente o judaísmo. Não sou tão presunçoso a ponto de desistir de Cristo na minha incapacidade de reconhecer minhas próprias limitações intelectuais. Com base em minha relação pessoal com Cristo, tenho certeza de que não se trata de uma questão fatal, sendo mais provavelmente apenas mais um obstáculo temporário maior do que eu; como busco honestamente a verdade, devo seguir o rumo das provas e perseguir mais a fundo as questões até entender todos os dados.

Dr. Craig, mais uma vez obrigado por tudo. Agradeço de antemão por responder à minha pergunta.

Marc
Trindade e Tobago

Trinidad and Tobago

Dr. Craig responde


A

Muito obrigado por suas palavras encorajadoras sobre o novo site! Levou anos de trabalho e dezenas de milhares de dólares para terminar. O tráfego para nosso site antigo estava sendo significativamente impedido, porque mais de 50% das pessoas usam dispositivos móveis para acessar a internet, e o site antigo não era adequado a esses aparelhos. O site novo é apropriado, além de ter sido reorganizado para facilitar a navegação para quem o visita pela primeira vez. Nossa esperança é que essas mudanças aumentem consideravelmente o alcance e impacto de Reasonable Faith.

Basicamente, o que você pergunta é se Deus pode ter algumas de suas propriedades necessariamente e algumas contingentemente. Parece-me que ele pode e o faz. Quem nega isto normalmente apela para a doutrina da simplicidade divina, que, em sua forma mais forte, afirma a identidade de Deus com suas propriedades. Porém, uma versão tão forte da doutrina não tem nenhum fundamento bíblico, é ininteligível e não tem nenhum argumento convincente a seu favor. Uma vez que Deus não é, nesse sentido radical, um ser simples, ele pode ter uma pluralidade de propriedades, algumas das quais ele tem necessariamente, enquanto outras, contingentemente.

Por exemplo, Deus é essencialmente existente, onipotente, onisciente, eterno, bom, e assim por diante, e, assim, possui tais propriedades em todo mundo possível. Mas Deus tem apenas contingentemente as propriedades de ser o criador do universo, de saber que horas são agora, de ser encarnado em Jesus Cristo, de ser meu redentor, e assim por diante, uma vez que ele tem tais propriedades em mundos possíveis nos quais ele deseja criar um universo, que é a escolha livre e contingente de sua vontade: judeus, bem como cristãos, reconhecerão que Deus pode ter os dois tipos de propriedades.

Isto não quer dizer, porém, que o número de pessoas na divindade seja propriedade contingente de Deus. O fato de que podemos imaginar um Deus bipessoal não basta para mostrar que algo assim seja metafisicamente possível. Como viu o grande filósofo Saul Kripke, existem verdades metafisicamente necessárias a posteriori, assim como verdades metafisicamente necessárias a priori. Algumas verdades metafisicamente necessárias podem ser conhecidas a priori (antes da experiência), como “todos os celibatários são solteiros” ou “tudo que é vermelho tem cor”. Existem, porém, verdades metafisicamente necessárias que só podem ser conhecidas a posteriori (com base na experiência), como “o número atômico do ouro é 79”.

Nunca vi nenhum argumento que nos desse conhecimento a priori de que o número de pessoas na divindade seja três. No entanto, dada a revelação divina, sabemos que há três pessoas na divindade, e parece razoável pensar que isto é essencial a Deus. Parece bizarro pensar que, em alguns mundos possíveis, uma das pessoas da trindade desapareça! No caso, é verdade metafisicamente necessária a posteriori que “o número de pessoas na divindade é três”.

Portanto, Deus tem necessariamente a propriedade de ser tripessoal, embora este fato nos seja conhecido apenas por meio da revelação divina.

- William Lane Craig