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#580 Paulo de Tarso estaria tentando compensar?

December 30, 2018
Q

Oi, Dr. Craig.

Na sua mais recente aula no curso Defenders, o senhor discutiu a hipótese da alucinação segundo Lüdemann. Concordo que ela não chega nem perto de explicar todos os dados, mas, como estou fazendo graduação em psicologia, tenho curiosidade num ponto específico. A hipótese de Lüdemann se baseia na ideia de que Saulo se sentia muito culpado e achava que não podia ficar à altura dos deveres que Deus lhe impusera. O senhor diz que isto é forçado, que não há nenhuma indicação neste sentido e que, na verdade, os indícios sugeririam que ele era um judeu satisfeito e confiante na sua prática judaica (cf. Filipenses 3.6). Fico me indagando por que não houve aí nenhuma discussão sobre compensação, um dos mecanismos de defesa de Freud. Fico surpresa que Lüdemann dependa da alucinação em sua psicanálise — que sequer é um mecanismo de defesa —, mas não fale sobre compensação. Parece que seu argumento poderia até ganhar um reforço com ela. Compensação é a ideia de que, porque a pessoa se sente inadequada em certo sentido, ela dá duro e se empenha demais numa tarefa para ficar se sentindo bem. (P. ex., posso me sentir burra e, por isso, gastar cada minuto estudando para garantir boas notas e me proteger/distrair daquela opinião a respeito de mim mesma). Isso descreve Paulo perfeitamente! Daí todos os indícios no sentido de que ele tenha se esforçado tanto e que fosse judeu tão bom serviriam de apoio à posição de Lüdemann, e não o contrário. Não acho que isso resolva todos os demais problemas com a hipótese; obviamente a teoria de Freud é controversa e não totalmente aceita, e a psicanálise de personagens históricas parece uma prática não muito confiável. No entanto, fico me perguntando por que isso não foi mencionado. É Lüdemann que não toca no assunto em momento algum, ou ele teria sido ignorado por falta de tempo na aula? Ou será que talvez, por Lüdemann não ser psicólogo de formação (e muito menos psicanalista de formação), não faça ideia do que está falando?

Obrigada,
Amanda

Australia

Dr. Craig responde


A

Como você bem observa, Amanda, nem Lüdemann nem eu somos psicólogos de formação; por isso, acho que ele está descrevendo com termos leigos precisamente o que você identifica como “compensação”. A perspectiva que ele sustenta é que o zelo de Paulo de Tarso ao perseguir o nascente movimento cristão era uma compensação por seus sentimentos de inadequação em viver à altura das exigências da lei judaica. Lüdemann acrescenta a esta hipótese a suposição adicional de que Paulo tinha uma atração inconsciente pelo cristianismo. Incapaz de compensar com êxito sua inadequação, nem mesmo ao perseguir a igreja primitiva, a consciência culpada de Saulo enfim teria irrompido numa visão de Cristo, o que o teria levado a adotar a fé cristã e, assim, encontrar alívio.

Pois então, a visão de Lüdemann está sujeita à crítica em, pelo menos, dois pontos. Primeiro, sua hipótese da alucinação. Em meu debate com Lüdemann, publicado como Jesus’ Resurrection: Fact or Figment? (IVP: 2000) [A ressurreição de Jesus: fato ou ficção?], apresento inúmeras razões para pensar que a experiência de Paulo não é mais plausível se tratada como alucinatória.

Em segundo lugar, vem o que podemos denominar hipótese da compensação. Observe que o zelo de Paulo ao promover o cristianismo não é indício a favor de tal hipótese, pois se diz que é o Paulo pré-cristão quem está compensando, e o zelo de Paulo como cristão pode muito bem sem explicado pela conversão que mudou sua vida. O que Lüdemann precisa e tenta dar são provas de que o Paulo pré-cristão — ou Saulo — estava usando o mecanismo de defesa da compensação. Porém, como explico naquele mesmo livro, não há nenhuma indicação de tais sentimentos de inadequação da parte de Paulo. Muito pelo contrário, os indícios que temos sugerem, na verdade, que Paulo estava confiante e satisfeito com sua vida como judeu. Assim, quem quiser defender a hipótese da compensação segundo Lüdemann terá uma tarefa difícil diante de si.

- William Lane Craig