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#639 Profecias da ressurreição de Jesus no Antigo Testamento

October 30, 2019
Q

Olá, Dr. Craig.

Quero começar dizendo que admiro muito seu trabalho. Sua apologética é excelente e tem me ajudado a me sentir mais confiante na fé. Sou cristão e vejo o senhor como uma grande inspiração no mundo da teologia. O senhor já disse que não tem “fãs”, apenas alunos, mas eu provavelmente me consideraria um fã. Minha pergunta diz respeito à origem da crença dos discípulos, que é um dos principais fatos usados em seu argumento para a ressurreição. Sei que os discípulos tinham um conceito judaico da ressurreição, crendo assim numa ressurreição geral dos mortos, e não numa ressurreição individual. No entanto, estive me perguntando por que os discípulos citam os Salmos em seus sermões de Atos, como se cressem que essas passagens falassem da ressurreição.

Especificamente, refiro-me ao salmo 16, onde Davi menciona como o corpo do santo não veria a corrupção. A princípio, pensava que Davi visava a um sentido poético, metafórico, ou talvez estivesse se referindo à ressurreição em geral. Contudo, se fosse assim, por que os discípulos o citariam, traçando um paralelo direto entre o corpo de Davi e o de Cristo? Parece que o ateu pode defender que a passagem inspirou a origem da crença dos discípulos, na medida em que falam de Jesus como “cumprimento” da profecia. Será que esta passagem não poderia ser usada para defender que a ressurreição não era necessária para dar origem à crença dos discípulos, mas foi apenas depois cumprida por Jesus? Sei que os discípulos não tinham expectativas de um Messias que morresse e ressuscitasse, mas a passagem sempre me incomodou, principalmente porque é citada em Atos por Pedro.

Atenciosamente,

Caleb

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Você pergunta: “por que os discípulos o citariam [Salmos 16.10], traçando um paralelo direto entre o corpo de Davi e o de Cristo?” A resposta é que queriam mostrar que a ressurreição de Jesus era, em certo sentido, cumprimento das Escrituras e, como o Antigo Testamento não tem quase nada a dizer acerca da ressurreição, eles tiveram de aplicar novas interpretações a passagens que não tratavam exatamente da ressurreição. Pois bem, se esse tipo de hermenêutica lhe parece desonesta, entenda que, para o exegeta judeu antigo, discernir significados profundos nas Escrituras era procedimento normal, visto como ponto forte na leitura de alguém. Dar interpretação nova a passagens familiares era como lançar mais luz nas Escrituras.

Assim, em Salmos 16.9-10, Davi diz:

Por isso, meu coração se alegra e meu espírito se regozija;

    até mesmo meu corpo habitará seguro.

Pois não deixarás a minha vida no túmulo,

    nem permitirás que teu santo sofra deterioração.

 

Ele não está falando da ressurreição futura; antes, está dizendo que Deus preservará sua vida (“não deixarás a minha vida no túmulo/Seol”). O salmo não trata da ressurreição dentre os mortos, mas do livramento da morte!

O apóstolo Pedro confere ao salmo a interpretação nova que trata da ressurreição do Messias, descobrindo, assim, uma camada mais profunda de sentido (Atos 2.29-32). Judeus daquela época talvez respondessem: “A-ha! Nunca li o texto assim antes. Interessante!”

A própria obscuridade de tais passagens do Antigo Testamento (Oseias 6.2 e a história de Jonas e a baleia são outros exemplos) levou os estudiosos a rejeitar a visão do século XIX segundo a qual os discípulos vieram a crer que Jesus havia ressuscitado ao lerem essas passagens veterotestamentárias. Pelo contrário, ninguém as teria lido assim sem ter crença prévia na ressurreição de Jesus. Como os discípulos tinham passado a crer que Jesus ressuscitara, buscaram no Antigo Testamento textos para fundamentar sua crença. Isto envolvia ler essas passagens de uma nova forma, que não lhes teria ocorrido, caso não tivessem passado a crer que Jesus ressuscitara.

- William Lane Craig