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#624 Revelação divina e pluralismo religioso

April 23, 2019
Q

Olá, Dr. Craig.

Sou leitor seu da Índia. Amo seu trabalho. Estou no meio-termo entre agnóstico e crente (se é que algo assim existe). Seus argumentos de teologia natural me parecem muito persuasivos. Porém, quando se trata da exclusividade do cristianismo, o que me vem agora à mente é o seguinte: a existência e ressurreição de Cristo são justificadas com base em probabilidade histórica e se as consideramos verdadeiras, mas existem milagres praticados por gurus indianos, deuses em minha terra natal.

Assim, alguém do meu contexto cultural pode aparecer com a seguinte hipótese: “Ninguém conhece Deus de verdade, a ninguém ele se revelou de verdade. Há milagres que nos justificam sua existência ou a existência do sobrenatural, mas Deus revelou diferentes modelos teológicos (que costumam ser contraditórios ou incoerentes) a diferentes pessoas para testar a obediência delas”.

Penso que um modo de saber se a segunda possibilidade é factível se dá ao afirmar que o Deus estabelecido pela teologia natural não pode fazer algo assim. Acho que é o argumento moral que devemos empregar. Mas o senhor pensa que seja imoral Deus revelar diferentes verdades a diferentes pessoas? Afinal, muitas denominações cristãs creem de formas diversas e muitas alegam que isto acontece por causa da revelação da parte de Deus. Ficaria muito agradecido se pudesse dar alguma atenção à minha pergunta. Obrigado.

Moti

India

Dr. Craig responde


A

Inicialmente, pensei que sua pergunta, Moti, era sobre a velha objeção de David Hume segundo a qual todas as religiões têm seus próprios milagres e, portanto, anulam-se umas às outras. (Respondi a esta questão em Reasonable Faith [título em português: Apologética contemporânea], no capítulo sobre milagres.) No entanto, sua pergunta dá uma guinada bem diferente para o pluralismo religioso. No caso, você deveria dar uma olhada no que escrevi sobre o assunto.

A sugestão aqui não é que toda religião tem suas falsas alegações de milagres, mas que Deus realmente operou atos milagrosos em diferentes tradições religiosas, a fim de levar as pessoas a adotarem tais tradições. O que não ficou muito claro é a qual “Deus” se faz referência. O Deus cristão? Será que realizou milagres na Índia a fim de levar as pessoas a crerem falsamente que o hinduísmo é verdade? Parece inconcebível. Uma vez que o perdão de pecados e a vida eterna estão disponíveis apenas por meio da morte expiatória de Cristo, segue daí que Deus está enganando essas pessoas para conduzi-las ao inferno. Isto é incoerente com a natureza do Deus cristão, que deseja que todas as pessoas sejam salvas e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Timóteo 2.3).

Portanto, quem é o Deus do qual estamos falando? O Deus dos pluralistas religiosos? Não deve ser, uma vez que o Deus dos pluralistas religiosos é um Absoluto desprovido de caráter que não é uma pessoa e, portanto, não realiza milagres.

Portanto, de quem estamos falando? O Deus do islam? Alá é louvado como o grande enganador, de modo ele tampouco se encaixaria. Será que devemos pensar, porém, contrariamente ao Alcorão, que Alá ressuscitou Jesus dentre os mortos, levando centenas de milhões de pessoas a seguirem a religião cristã, para a vergonha e desonra do islam? Nenhum bom muçulmano jamais aceitaria uma coisa dessas.

Portanto, quem é esse Deus? Simplesmente não consigo enxergar nenhum motivo para pensar que exista um ser assim, como você descreveu. De fato, como você bem discerniu, um Deus desses é incompatível com os argumentos da teologia natural, não apenas com o argumento moral, mas também com o argumento ontológico. Não é imoral que Deus venha a “revelar diferentes verdades a diferentes pessoas”. Deus revelou diferentes verdades aos judeus no Antigo Testamento e, depois, a cristãos no Novo Testamento. Mas esta é a questão: as duas são verdadeiras! O que Deus não pode fazer é revelar crenças incompatíveis a diferentes pessoas, pois, no caso, o que Deus estaria revelando à maioria das pessoas seriam falsidades, e não verdades, de modo que Deus seria um enganador.

No caso da multiplicidade de denominações cristãs, a situação não se dá porque Deus revelou diferentes verdades a diferentes pessoas, mas, sim, porque as pessoas interpretam diversamente as verdades que Deus revelou nas Escrituras.

- William Lane Craig