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#553 Travado no argumento moral

August 26, 2018
Q

Olá, Dr. Craig,

Tenho 16 anos e sou aluno do colegial com uma grande paixão por apologética cristã. Frequentemente tenho discussões e debates com outros estudantes sobre a existência de Deus, mas recentemente fiquei bem travado no argumento moral.

Aqui vai o argumento moral:

1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem.

 

2. Valores e deveres morais objetivos existem.

 

3. Logo, Deus existe.

Estou com problemas com a premissa 2. Valores e deveres morais objetivos existem mesmo. Quando converso com colegas na escola sobre esta premissa, menciono o Holocausto ou abuso infantil, e eles concordam que é errado, mas pensam que a moralidade é relativa, sendo resultado da combinação de 3 coisas:

A moralidade é ensinada/aprendida (pais, sociedade)

 

A moralidade são instintos subliminais de sobrevivência (ajudam a raça humana a sobreviver)

 

A moralidade é questão de opinião e preferência pessoal.

 

Quando tento enfrentar a questão da preferência pessoal, ela é amparada pelos instintos de sobrevivência, e o mesmo se dá com a opinião pessoal.

Assim, na verdade, nunca consigo mostrar que a moralidade é objetiva, uma vez que as pessoas honestamente têm ideias diferentes do que é certo e errado — pense, por exemplo, no casamento homossexual. Já foi legalizado em muitos lugares do mundo, porque honestamente pensam que as pessoas devem amar umas às outras! Se a moralidade é escrita objetivamente em nossos corações, por que isso acontece? Ora, entendo o quanto o senhor enfatiza a importância de separar a epistemologia da ontologia moral. Comecei a ler seu podcast com Kevin sobre “Do animals display morality?” [Os animais exibem moralidade?], e vi o seguinte:

“O teísta pode muito bem admitir que os valores morais em que cremos são condicionados pela instrução dos pais, pela sociedade e por nossas origens evolutivas”.

Por favor, socorro! Preciso de ajuda para entender a diferença entre epistemologia e ontologia moral, como isto se encaixa nos debates que tenho com meus colegas e como posso efetivamente refutar os argumentos deles.

Desculpe se o que falei está um pouco fragmentado, mas agradeço de coração por sua incrível dedicação a toda a comunidade que está em busca de indícios para Deus. O senhor me ajudou grandemente ao dar uma razão objetiva para crer na existência de Deus.

Hugo

Austrália

Australia

Dr. Craig responde


A

Já respondi a este tipo de pergunta tantas vezes, Hugo, que é difícil encontrar algo de interessante e novo a dizer! Sugiro que você procure no arquivo de perguntas da semana por “argumento moral” ou “valores morais” para encontrar mais materiais. Mas, talvez, expor um pouco do raciocínio confuso de seus amigos deva ajudar.

Não sei como alguém, logo depois do massacre em Las Vegas ou do tiroteio na igreja no Texas, pode sinceramente afirmar que não há valores ou deveres morais objetivos — a menos que seja psicopata, o que, com certeza, não é o caso de seus amigos. Ouvi que o atirador no Texas foi pela igreja, de fileira em fileira, atirando em quem quer que estivesse ali, incluindo crianças pequenas. Como é que seus amigos podem pensar que isto não é problemático? Será que realmente pensam que aquelas pessoas não tinham nenhum valor, como se o atirador estivesse simplesmente atirando em bancos de madeira, em vez de pessoas?

“Mas espere”, você dirá, “eles concordam que é errado, mas pensam que a moralidade é relativa”. O que isto quer dizer? Eles concordam que é errado atirar em pessoas inocentes numa igreja ou apresentação musical. Pois bem, entendo que queiram dizer objetivamente errado. Não estão dizendo que valores e deveres morais são puramente subjetivos. Isto seria dizer que um ato assim não é realmente errado, que não há nada de errado em cometer tais atrocidades. Seus amigos não querem dizer isso. Eles só insistem que a moralidade é relativa.

Mas aí está a confusão. A distinção relevante, no que diz respeito ao argumento moral, é objetivo vs. subjetivo, e não absoluto vs. relativo. Obviamente, o certo e errado morais são, muitas vezes, relativos às pessoas envolvidas. Eu, por exemplo, tenho o direito moral de entrar na minha casa sem ser convidado, sem tocar a campainha, e comer a comida da geladeira. Mas meu vizinho aqui da rua não tem esse direito! Se ele tentasse fazer coisa parecida, estaria agindo erradamente e poderia até ser preso por arrombamento e invasão. Quando entro em minha casa sem ser convidado, faço algo que, objetivamente, é moralmente permissível, mas, quando meu vizinho tenta fazer o mesmo, ele faz algo que, objetivamente, é moralmente errado. Relativo a mim, é objetivamente certo, mas, relativo a ele, é objetivamente errado. Assim, o fato de que a moralidade é relativa é simplesmente irrelevante; o que está em jogo é se, relativa a alguma pessoa em específico, determinada ação é objetivamente certa ou errada.

Pois bem, pensamos no atirador do Texas. Objetivamente, era-lhe moralmente permissível matar aquelas pessoas inocentes na igreja, mesmo que, para algum de seus amigos, fosse errado agir assim? Por que cargas d’água alguém pensaria isso? Por que não pensaria, pelo contrário, que ele era mau ou desequilibrado e, portanto, não tinha nenhum direito moral de agir como fez? “Bem”, podem dizer seus amigos, “foi tudo bem ele assassinar aquelas pessoas, porque a moralidade é questão de opinião e preferência pessoal”, e, na opinião dele, era certo e preferível.

Espere aí um minuto! Admitamos, por mera questão argumentativa, que, na opinião do atirador, era certo para ele assassinar aquelas pessoas. Como é que, daí, segue que, relativo a ele, assassinar aquelas pessoas estava certo? Talvez ele apenas pensasse que estava certo; talvez ele tenha cometido um engano em seus juízos morais. Talvez ele, na verdade, não seja uma daquelas pessoas relativas às quais seja certo matar inocentes. Talvez, de fato, a pessoa relativa à qual matar os outros, objetivamente, é certo seja um de seus amigos! Seu amigo apenas não o percebe. Tanto ele quanto o atirador podem estar cometendo erros de juízo: um ao pensar que, relativo a si mesmo, é certo (quando, na verdade, não é), e o outro ao pensar que, relativo a si mesmo, não é certo (quando, na verdade, é).

Pois então, talvez seus amigos venham a dizer: “É impossível! Já que valores morais são determinados pela opinião e preferência pessoal, não se pode estar enganado sobre os juízos morais pessoas”. Assim, segundo esta perspectiva, somos todos moralmente infalíveis, certo? Certo! Segundo esta perspectiva, se o atirador, antes de entrar na igreja, tivesse crises de consciência e dissesse para si: “o que estou prestes a fazer está errado”, então, de súbito, não seria mais objetivamente errado, relativo a si mesmo, matar aquelas pessoas; de súbito, seria objetivamente errado, relativo a si mesmo. O que é objetivamente certo ou errado, relativo a alguém, simplesmente muda dependendo do que a pessoa pensa. Isto não apenas é implausível, uma vez que cometer enganos morais é comum, mas parece não haver mais nenhuma diferença entre dizer que valores e deveres morais são relativos à pessoa e dizer que são apenas subjetivos. Dizer que valores e deveres morais são apenas questão de opinião pessoal é simplesmente dizer que são subjetivos, o que contradiz a afirmação de seus amigos de que eventos como o Holocausto sejam errados.

Seus amigos, então, não podem reter as duas coisas: ou admitem que valores e deveres morais objetivos (ainda que relativos) existem ou, senão, afirmam que o Holocausto e abuso infantil não são errados.

Pois bem, a esta altura, seus amigos sem dúvida dirão: “Mas como podemos saber se alguma ação é objetivamente certa ou errada para eu fazer?” É questão de epistemologia moral, de como chegamos a discernir nossos valores morais. Não tem nada a ver com ontologia moral, ou seja, se são valores e deveres morais objetivos. Embora importante, a questão epistemológica é irrelevante ao argumento moral, que tem tudo a ver com ontologia moral. Basta dizer que a objetividade de valores e deveres morais não implica que sejam sempre fáceis de discernir. Existem casos evidentes (como atirar em pessoas inocentes por prazer), mas existem também muitas áreas obscuras, como o casamento de pessoas do mesmo sexo, em que, sem a revelação divina, nossos deveres morais talvez não sejam tão claros. Assim, discordâncias morais genuínas e erros de juízo são comuns. Obviamente, o que “está escrito em nossos corações” são princípios morais muitos gerais, de modo que a aplicação específica demanda, com frequência, muita reflexão e debate.

- William Lane Craig