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#786

July 17, 2022
Q

Olá, Dr. Craig.

Percebi, no seu vídeo no YouTube intitulado “Doutrina da Salvação”, parte 15, que o senhor afirma que a Bíblia diz, na sua opinião, que um cristão salvo que se envolve em apostasia contra Deus perde a sua salvação e não pode jamais obtê-la de volta. Quer dizer que, se a pessoa rejeita a Cristo ao meio-dia e, ao meio-dia e quinze, percebe o erro, ela está condenada ao inferno, não importa quanto amor e devoção tenha por Deus pelo resto da vida? O que dizer de tantos jovens salvos que entram na faculdade e são influenciados por professores e alunos ateus, decidem rejeitar a Cristo e, então, talvez dias, horas ou mesmo minutos depois percebem o erro e querem ser cristãos ainda mais devotos do que antes? O senhor quis dizer que estão condenados ao inferno para sempre, porque, como disse, perderam e não podem obter a salvação de novo? Isto parece ir bem de encontro ao que a Bíblia, como um todo, diz sobre o amor e a devoção de Deus por seu rebanho.

O pastor Charles Stanley é um dos muitos teólogos de destaque que rejeitam a noção de que se pode perder a salvação. No seu livro Eternal Security [Segurança eterna], ele dedica vários capítulos a Hebreus 6. Ali, ele toca na questão que gostaria que o senhor respondesse. Ele diz: se é possível perder permanentemente a salvação, “será que estamos fazendo um desserviço às crianças ao incentivá-las a nascer de novo? Será que não deveríamos esperar até que fiquem bem mais velhas, a fim de diminuir a probabilidade de que apostatem durante a adolescência e, assim, percam a sua salvação para sempre?”.

Sei um pouco sobre apostasia e salvação. Fui salvo aos 40 anos de idade, mais ou menos. Em seguida, rejeitei a ideia de ser cristão e vivi uma vida de pecado abjeto por muitos anos. Até onde sei, envolvi-me na pura apostaria naqueles anos. Depois de um tempo, sofri algumas dificuldades muito sérias nos meus negócios, finanças e vida social. Consequentemente, e por ter lutado com a depressão a maior parte da minha vida, comecei a pensar muito em suicídio. Tentei sete vezes em seis meses, e fui internado num hospital psiquiátrico três vezes. Nenhum dos tratamentos me ajudou. Cada vez que tinha alta, pensava em suicídio mais do que antes. Numa madrugada, enquanto sofria em incrível angústia mental, eu, como o ateu nas anedotas que se volta a Deus na trincheira quando as bombas começam a cair, dobrei meus joelhos em total desespero e implorei a Deus com fervor que eu não podia continuar a vida, não podia me matar e não podia lidar com meus problemas; o que fazer, então? Deus, então, falou comigo. Não quero dizer que tive alguma obscura sensação emocional ou impulso, mas Deus, de fato, falou comigo na minha cabeça. Eu o ouvi de forma tão clara quanto consigo ouvir algo com os ouvidos. Ele proferiu apenas duas palavras. Ele disse: “Adora-me”. E foi o que fiz. Dediquei-me a viver uma vida cristã devota e genuína a partir de então.

Encurtando uma história bem comprida, a minha vida mudou por completo, milagrosa e incrivelmente. Os meus problemas sérios desapareceram num passe de mágica, num período de tempo relativamente curto. Imediatamente, desenvolvi uma sede avassaladora de aprender a Palavra de Deus. Comecei a participar de três diferentes estudos bíblicos cinco vezes por semana. Mas isso não bastava para saciar a minha sede e, por isso, comecei a frequentar um instituto bíblico. Afiliei-me a uma igreja e, em resposta à direção de Deus, encabecei um ministério ali com uma grande mulher à qual Deus me conduziu e que, depois, veio a se tornar minha querida esposa. Para mim, fica claro que não perdi a minha salvação, apesar da minha apostasia! Deus, em seu grande e incrível amor, ainda me considerava um dos seus filhos e sabia que eu precisava de forte disciplina espiritual para me ajudar a tornar-me como Jesus. Igualmente, ele trouxe esses temporais na minha vida, para que eu me voltasse a Ele. Fico tão, mas tão feliz que Ele agiu assim. Até hoje, doze anos depois da minha terrível, mas tão necessária, aflição, olho diariamente as cicatrizes nos meus pulsos das feridas que provoquei e sorrio. O destacado apologista Frank Turek diz que, quando vamos a Cristo de maneira realmente genuína, Ele pode começar a nos dar o nosso galardão da vida eterna enquanto estamos ainda aqui na terra. Creio que Ele assim o fez comigo, apesar da minha apostasia e do fato de que não mereço nada. Por isso eu sei, sem sombra de dúvida alguma, que a pessoa NÃO PODE perder a salvação genuína e jamais recuperá-la.

Obrigado.

Louis

Dr. Craig responde


A

Fico muito feliz em ler o seu testemunho do modo como Deus trabalhou tão maravilhosamente na sua vida, Louis! Mas tome cuidado ao afirmar com tanta confiança: “eu sei, sem sombra de dúvida alguma, que a pessoa NÃO PODE perder a salvação genuína e jamais recuperá-la”. A sua experiência pessoal, por mais real, por mais vibrante que seja, não pode suplantar o ensinamento da Palavra inspirada de Deus. Se a Bíblia ensina, sim, como creio, que um cristão regenerado pode perder a sua salvação de forma irreversível, você interpretou mal a própria experiência. Devemos julgar a nossa experiência à luz do ensinamento das Escrituras, e não o contrário.

O que é que pode ter acontecido? Devemos diferenciar fundamentalmente a apostasia e o “desvio”. O cristão desviado é alguém genuinamente regenerado, mas controlado pela carne, o princípio maligno dentro do homem. Quando o apóstolo Pedro, por exemplo, negou a Jesus, ele continuou, no seu coração, um crente genuíno, embora tomado pelo medo. Ele se arrependeu e fielmente seguiu ao Senhor até à morte. Em comparação, um apóstata rejeita a Jesus Cristo de modo irreversível e o expulsa da própria vida. Judas seria um exemplo, na minha opinião. O livro de Hebreus tem muito a dizer sobre aqueles que cometem apostasia.

Os cristãos desviados podem arrepender-se e, com frequência, o fazem, mudando de vida e voltando para o Senhor para viver vidas cristãs triunfantes. Aqui em Reasonable Faith, constantemente recebemos testemunhos de pessoas que voltaram para o Senhor depois de serem tomadas pela dúvida e o pecado, às vezes por muitos anos. A centelha da fé verdadeira, talvez reprimida e subconsciente, não fora extinta dentro delas. Tais pessoas podem até renunciar a Cristo verbalmente, como o fez Pedro, e, ainda assim, continuar crentes, no fundo do coração.

Por outro lado, algumas pessoas fazem profissões de fé, às vezes enquanto crianças, com bases emocionais inadequadas, sem entendimento suficiente. Talvez tenham sido levadas pela pressão do grupo num acampamento de jovens ou tenham ido até a frente durante uma campanha evangelística. Porém, de fato, eles não eram cristãos regenerados, de fato. É fácil imaginar como tais pessoas poderiam apostatar da fé. O que dá a impressão de que estejam retornando à fé pode, na realidade, ser o seu encontro inicial com o Espírito Santo e a regeneração.

É impossível que diga qual cenário melhor se encaixa com você. Porém, com base no ensinamento das Escrituras, creio, sim, que um genuíno cristão regenerado pode apostatar e, se o fizer, ele pode voltar e jamais o fará. Se você discorda desse ensinamento, você deve contestá-lo, não com base na sua experiência pessoal, mas, sim, com a exegese correta das Escrituras, conforme discuto na aula do curso Defenders que você menciona.

Assim, em relação às pessoas que você mencionou no seu parágrafo de abertura, eles não são mais apóstatas do que o apóstolo Pedro quando ele negou a Cristo. Um apóstata genuíno não quererá retornar à fé. Não é que ele deseja, mas se vê incapaz; antes, ele não tem nenhum desejo de retornar a Cristo. Ele repudiou a Cristo irrevogavelmente.

O argumento que você citou de Charles Stanley é bastante estúpido (sinto muito, mas é assim). Dados os efeitos endurecedores do pecado no coração da pessoa e as chances vertiginosamente reduzidas de alguém vir a Cristo mais ao fim da vida, seria a coisa mais desamorosa a fazer a uma criança mantendo-a em estado irregenerado, alienado de Deus e sob o poder da carne, fora da vontade de Deus, sem conhecer e obedecer à vontade de Deus para a vida dela. A melhor forma de lhe assegurar a salvação é ajudando-a a conhecer e amar o Salvador no começo da vida e, então, a viver como discípulo dele no poder do Espírito Santo, e não rejeitando a Cristo até que apareça uma nova oportunidade depois!

Cristãos desviados são bastante comuns, mas apóstatas genuínos parecem raros. A dificuldade é que é difícil dizer se alguém que largou a fé é apóstata ou meramente desviado. Portanto, creio que devemos sempre assumir que não repudiaram a Cristo irrevogavelmente e que, assim, há a oportunidade de que retornem. Devemos ser encorajados com as palavras de Tiago:

Meus irmãos, se algum de vós se desviar da verdade e alguém o reconduzir a ela, sabei que aquele que fizer um pecador retornar do erro do seu caminho salvará da morte uma vida e cobrirá uma multidão de pecados. (Tiago 5.19-20)

- William Lane Craig