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August 3, 2013Caro Dr. Craig,
Obrigado por todo o seu trabalho! Eu, como muitos outros, tenho me beneficiado muito do tempo e do esforço que você coloca em suas áreas de estudo. Minha pergunta é sobre a classificação de objetos imateriais. Eu sempre me interessei por isso, mas nunca vi muita coisa escrita a esse respeito, seja em apologética cristã, seja em escritos seculares tradicionais. Eu sei que uma de suas áreas de pesquisa atuais é objetos abstratos, que você define como sendo entidades que não têm uma localização no tempo ou no espaço, mas que ainda assim são coisas reais que não participam de relações causais.
O que eu realmente quero saber é como devemos classificar algumas entidades imateriais que não se encaixam nessa definição. Por exemplo, o que você diz dos objetos imateriais que não são causalmente impotentes? Estou pensando especificamente nas leis científicas aqui. Lembro-me de desde cedo ouvir dizer que a ciência não pode explicar as leis da ciência e de pensar o quão engraçado isso era. Ou uma quantidade como a informação, com a qual nós interagimos o tempo todo. A mesma informação pode ser transmitida por muitos meios diferentes, e ainda assim não ser afetada pelo próprio meio, de modo que ela parece ser imaterial, mas seria ela causalmente estéril?
Você classificaria algo como a beleza como sendo um objeto abstrato, apesar do fato de que ela parece ser algo ao mesmo tempo objetivo e subjetivo?
Percebi que você não define valores morais como objetos abstratos, mas como parte do caráter de Deus. Na questão 66 você diz:
“No caso do argumento moral, o conceito de Deus envolvido no argumento é o de um ser pessoal, uma vez que os valores morais, se existirem, residem em pessoas, não em coisas inanimadas, e uma vez que só um ser pessoal pode ser fonte do dever moral através da emissão de comandos para nós".
Parece-me claro que os valores morais possuem uma qualidade pessoal que outros objetos imateriais não possuem. Mas o mesmo poderia ser dito de outras entidades, como o amor, a lealdade e a justiça, então você descreveria esses objetos como abstratos ou não?
Como você faria para explicar a sua afirmação na questão 66 para uma pessoa que não acredita em Deus, mas que concorda que os valores morais são objetivos, acreditando que eles existem apenas como objetos abstratos, como as leis da matemática ou da lógica?
Agradeço pela sua resposta,
Jon
United States
Dr. Craig responde
A
Obrigado por suas perguntas instigantes, Jon! Como a realidade dos objetos abstratos e a asseidade divina são as minhas áreas de pesquisa atuais, fico feliz em responder à sua pergunta.
Primeiro, eu preciso corrigir o que você disse sobre como eu defino objetos abstratos em distinção aos objetos concretos. Eu não acho que os objetos abstratos, se existem, são “entidades que não têm uma localização no tempo e no espaço.” No capítulo que escrevi sobre creatio ex nihilo e objetos abstratos em Creation Out of Nothing (Baker: 2004), argumento que, ao contrário, alguns objetos abstratos, se eles existem, existem em ambos ou em qualquer tempo e/ou espaço. Essa conclusão de certa forma chocante parece evidente a partir de uma avaliação de certos tipos de objetos abstratos.
Por exemplo, considere as proposições (o conteúdo das informações expressas por frases). Proposições expressas por muitas frases declarativas têm propriedades contingentes, como ser verdadeira ou ser falsa. Muitos filósofos dizem que as proposições, ao contrário de frases, não têm tempo e por isso têm seus valores de verdade de maneira imutável, mesmo se contingentes. Assim, existem proposições para além do espaço e do tempo. Mas outros filósofos discordam, argumentando que as proposições expressas por frases no tempo pretérito podem mudar os seus valores de verdade. Por exemplo, a proposição expressa pela frase "George W. Bush é o presidente dos Estados Unidos" era verdadeira no mês de dezembro de 2008, mas tornou-se falsa em janeiro de 2009 com a posse de Obama. Tais proposições não são, portanto, imutáveis e devem existir no tempo, se não no espaço.
Ou ainda, considere as propriedades. As propriedades trazem de volta a velha disputa sobre o que os pensadores medievais chamavam de universais. Pois ao contrário dos particulares, as propriedades não parecem estar confinadas a um lugar específico. Por exemplo, se tivermos duas bolas particulares existindo ao mesmo tempo, cada uma delas ocupa uma localização espacial distinta. Se elas ocupassem exatamente os mesmos pontos do espaço-tempo, então teríamos uma bola ao invés de duas. Mas propriedades parecem ser diferentes. Suponhamos que as duas bolas tenham a mesma forma. Nesse caso, cada uma delas tem a mesma propriedade, a saber, ser esférica. Não se pode dizer que elas tenham propriedades diferentes no que diz respeito a isso, ou elas difeririam na forma, o que, ex hypothesi, não ocorre. Assim, a mesma propriedade existe ao mesmo tempo em duas localizações espaciais distintas. Além disso, a propriedade existe totalmente nestes dois locais simultaneamente. É precisamente por isso que as propriedades são chamadas de universais. Se elas realmente existem, elas têm, pelo menos na explicação tradicional, a propriedade bizarra de existir completamente em dois lugares distintos ao mesmo tempo. Mas, neste caso, as propriedades realmente parecem existir no espaço e no tempo.
Mesmo se tentarmos evitar essa conclusão dizendo que as propriedades em si não são espaço-temporais, mas que suas instanciações ou instâncias estão no espaço e no tempo, nós ainda assim estaríamos obrigados a dizer que as propriedades podem adquirir e perder a propriedade de ser exemplificada. Em outras palavras, elas são mutáveis com respeito à exemplificação, do mesmo modo que proposições podem ser mutáveis em relação ao valor de verdade. Assim, as propriedades também parecem ser entidades temporais.
O que eu vim a perceber desde que escrevi esse capítulo é que, ainda mais surpreendentemente, alguns objetos abstratos, se eles existem, existem não apenas no tempo e no espaço, mas também existem contingentemente! Considere, por exemplo, o equador ou o centro de massa do sistema solar. O equador tem propriedades como uma determinada extensão e ainda assim é claramente um objeto não-físico. Se existe tal coisa como o equador, ele é uma entidade abstrata. No entanto, ele existe tanto no tempo como no espaço. Você pode realmente atravessar o equador! Você pode pisar nesse objeto abstrato! O centro de massa do sistema solar é um ponto que se move sobre e no espaço e é, portanto, espaço-temporal. Aqui está um objeto abstrato que você poderia, literalmente, colocar na palma da sua mão, embora apenas momentaneamente, uma vez que ele passaria rapidamente pela sua mão enquanto ele se move! Se nem a terra nem o sistema solar existissem, então nem o equador nem o centro de massa do sistema solar existiriam, de modo que esses objectos abstractos existem de maneira meramente contingente.
Ou considere personagens fictícios ou composições musicais. Como explicado na questão nº 9 no Arquivo Q&A, se eles existem como objetos abstratos e ainda assim são produtos da criação humana, como alguns filósofos acreditam, eles também existem contingentemente e temporalmente, uma vez que eles passaram a existir.
Portanto, não podemos incluir plausivelmente em nossa definição de objetos abstratos o fato deles serem não-espaço-temporais. Ao invés disso, como expliquei em Creation Ou of Nothing, o que diferencia objetos abstratos de objetos concretos é que os objetos abstratos, se existirem, são essencialmente causalmente impotentes, ou seja, eles não podem participar de relações causais. A impotência causal essencial dos objetos abstratos serve para distingui-los de entidades que estão causalmente isoladas em nosso mundo, mas que poderiam ter produzido efeitos, e de Deus, que poderia ter-se abstido de criar e por isso não participar de nenhuma das relações causal, se Ele assim o desejasse.
Assim, em resposta à sua pergunta, objetos imateriais que não são causalmente estéreis são objetos concretos. Deus, anjos, e a alma seriam os exemplos mais óbvios. Mas eu não classificaria as leis científicas como sendo causalmente potentes e, portanto, como concretas. As leis científicas em si não causam nada. Se elas realmente existem, elas são proposições de algum tipo, que, como tais, são objetos abstratos. Elas descrevem as causas do universo, mas não são elas mesmas causas. Da mesma forma, informações parecem ser idênticas a proposições.
A beleza parece ser uma propriedade e, portanto, um objeto abstrato (se existirem tais objetos).
Na teoria ética que tenho defendido os valores morais não são objetos abstratos, mas o próprio Deus é o paradigma do bom (ver Pergunta nº 59 no Arquivo de Q&A). Analogamente, um metro foi tradicionalmente definido não como uma extensão abstrata, mas como o comprimento da barra de metro na Agência de Pesos e Medidas, em Paris. A barra de metro serviu como paradigma concreto de um metro. Antes que você responda que o comprimento da barra de metro parisiense é uma propriedade e, portanto, um objeto abstrato, devo dizer que eu pressuponho uma explicação nominalista de propriedades, segundo a qual, enquanto Deus é amor, não há nenhum objeto abstrato Amorosidade com o qual Deus esteja em estranha relação de exemplificação. Da mesma forma, enquanto Deus é justo e fiel, não existem os objetos Justiça e Lealdade com os quais Deus estaria em alguma relação de exemplificação.
O que eu diria a “uma pessoa que não acredita em Deus, mas que concorda que os valores morais são objetivos, acreditando que eles existem apenas como objetos abstratos, como as leis da matemática ou da lógica.” No meu livro Apologética Contemporânea (Editora Vida Nova, 2012), eu chamo esse ponto de vista de Platonismo Moral Ateu e apresento três objeções a ele.
Primeiro, é difícil até mesmo de compreender esse ponto de vista. O que significa dizer, por exemplo, que o valor moral Justiça simplesmente existe? É difícil de saber o que fazer com isso. Fica claro que se quer dizer quando se diz que uma pessoa é justa, mas é desconcertante quando se diz que, na ausência de qualquer povo, a própria Justiça existe. Os valores morais parecem existir como propriedades de pessoas, e não como meras abstrações – ou em todo caso, é difícil de compreender o que significa dizer que um valor moral existe enquanto mera abstração. Curiosamente, uma vez que o objeto abstrato Justiça não é, em si mesmo, justo (assim como o objeto Rapidez não é rápido ou o objeto Preguiça não é preguiçoso), parece decorrer disso que, na ausência de quaisquer pessoas, justiça não existe – o que parece contradizer a hipótese! Platônicos morais que são ateus parecem não ter qualquer fundamento adequado na realidade para os valores morais, mas apenas os deixam flutuando de maneira ininteligível.
Em segundo lugar, a natureza do dever moral ou obrigação afigura-se incompatível com o Platonismo Moral Ateu. Suponhamos, a título meramente argumentativo, que valores morais existem independentemente de Deus. Suponhamos que valores como a Misericórdia, a Justiça, o Amor, a Paciência, e assim por diante, simplesmente existem. Como é que isso resulta em quaisquer obrigações morais para mim? Por que eu tenho um dever moral, por exemplo, de ser misericordioso? Quem ou o que estabelece essa obrigação em mim? Nessa visão, vícios morais, como Ganância, Ódio e Egoísmo, presumivelmente também existem como objetos abstratos. Por que eu sou obrigado a alinhar a minha vida com um conjunto desses objetos abstratamente existentes ao invés de qualquer outro? O teísmo, por outro lado, fornece uma base plausível para o dever moral na vontade ou mandamentos divinos.
Em terceiro lugar, é fantasticamente improvável que seria exatamente esse tipo de criaturas que emergiria do processo evolutivo cego que corresponderia ao reino abstratamente existente de valores morais. Essa parece ser uma coincidência absolutamente incrível. É quase como se o reino moral soubesse que estávamos chegando. É muito mais plausível considerar tanto o reino natural quanto o reino moral como estando sob a hegemonia de um Criador e Legislador divino do que pensar que essas duas ordens totalmente independentes de verdade se interconectassem por acaso.
Por essas razões, considero que a teoria da ética do mandamento divino seja uma teoria moral mais adequada.
- William Lane Craig