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#589 Conhecimento moral e a existência de Deus

February 17, 2019
Q

Olá, Dr. Craig.

Primeiramente, quero agradecer pelo trabalho impactante que tem realizado, tão decisivo em meu desenvolvimento intelectual. Embora considere que seu argumento estritamente ontológico a partir da moralidade seja persuasivo (em relação à existência de valores e deveres morais objetivos), fico consternado em ver que não avança o argumento para o território epistemológico. Estou convencido de que talvez haja um argumento igualmente sólido para a existência de Deus que deveria ser proposto, especialmente para o ateu convicto do realismo moral, da seguinte maneira: supondo, como o faz o ateu, que o realismo é fortuito, nossas crenças morais são acidentes do processo evolutivo. Se houvesse diferentes demandas ambientais no decorrer da evolução humana, crenças morais muito diferentes teriam evoluído sem a mínima mudança em nossa convicção de que tais crenças fossem verdadeiras. Parece que é impossível evitar este cenário cético, a não ser apelando para a direção sobrenatural do processo evolutivo com o objetivo de garantir aos seres humanos acesso epistemológico ao conjunto correto de moralidade.

No caso, não ficaria provado ao realista moral ateu que Deus deve existir, no sentido de um criador e “guia” inteligente de nosso desenvolvimento evolutivo, além de ficar estabelecido Seu atributo de bondade em virtude do fato de que teve interesse especial em ajudar nossa ideação e formação moral? E, se o ateu não é realista quanto a valores e deveres morais objetivos, isto, no mínimo, não mostraria que ele é incapaz de coerência lógica, na medida em que pensa e vive pressupondo, injustificadamente, que temos um meio de dizer quais dos conjuntos infinitos de proposições morais sejam verdadeiros, em vez de estar meramente enganado dentro do cenário cético que descrevi?

Pois então, minha pergunta na verdade, tem duas partes. O senhor acha que este argumento é sólido e, se sim, por que não o utiliza em seus debates e obras de divulgação?

Já agradeço por dedicar seu tempo para tratar desta questão!

Jonah

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Você tem motivo para se alegrar, Jonah, porque fiz exatamente o que sugeriu, no meu debate este ano com Erik Wielenberg sobre “Deus e moralidade: qual é a melhor explicação para valores e deveres morais objetivos?” https://www.youtube.com/watch?v=6iVyVJAMiOY Wielenberg é realista moral ateu que defende o que denomina realismo normativo sem Deus. Ele aborda não apenas questões de ontologia moral, mas também questões de epistemologia moral, dedicando esforço considerável em refutar os supostos argumentos evolutivos destruidores do conhecimento moral. Assim, em meu debate com ele, apresentei objeções tanto contra seu platonismo moral quanto contra sua epistemologia moral. Partindo de um artigo de Adam Johnson, parecia-me que a visão de Wielenberg é vulnerável ao célebre argumento evolutivo de Alvin Plantinga contra o naturalismo (AECN). Plantinga defende que a pessoa que crê na evolução naturalista tem um derrotador [defeater] da confiabilidade de suas faculdades cognitivas para produzir verdadeiras crenças e, portanto, um derrotador de sua crença que o naturalismo seja verdadeiro. Uma vez que nossas crenças morais estão entre as crenças formadas por nossas faculdades cognitivas, sua confiabilidade também passa a ser questionada pela perspectiva naturalista, a qual Wielenberg aceita. Apresentei o argumento assim:

A terceira notável objeção que quero propor é que a visão do Dr. Wielenberg parece impossibilitar o conhecimento moral. A explicação do Dr. Wielenberg para o conhecimento moral parece vulnerável ao argumento evolutivo de Alvin Plantinga contra o naturalismo.[1] Plantinga defende que o naturalismo é contraditório porque, se nossas faculdades cognitivas evoluíram por processos naturalistas, elas almejam não a verdade, mas a sobrevivência e, portanto, não se pode confiar nelas para produzirem crenças verdadeiras. Isto fica muito evidente na visão de Dr. Wielenberg, uma vez que nossos estados mentais não têm absolutamente nenhum efeito em nossos estados cerebrais. Assim, o conteúdo de nossas crenças é irrelevante a nossa sobrevivência. Porém, se não podemos confiar em nossas faculdades cognitivas para produzir crenças verdadeiras, a crença no naturalismo é, em si, solapada, já que foi produzida pelas mesmíssimas faculdades cognitivas.

Podemos aplicar o argumento de Plantinga a nossas crenças morais da seguinte maneira:

 

<blockquote>

1. A probabilidade de que nossas faculdades cognitivas sejam confiáveis, dado o naturalismo e a evolução, é baixa.

2. Se alguém crê no naturalismo e na evolução e vê que, portanto, a probabilidade de que suas faculdades cognitivas sejam confiáveis é baixa, ele tem um derrotador da crença de que suas faculdades cognitivas sejam confiáveis.

3. Se alguém tem um derrotador da crença de que suas faculdades cognitivas sejam confiáveis, tem um derrotador para qualquer crença produzida por suas faculdades cognitivas (incluindo suas crenças morais).

4. Logo, se alguém crê no naturalismo e na evolução e vê que, portanto, a probabilidade de que suas faculdades cognitivas sejam confiáveis é baixa, ele tem um derrotador da confiabilidade de suas crenças morais.

Como nossas crenças morais foram produzidas por faculdades voltadas para a sobrevivência, e não para a verdade, não podemos ter nenhuma segurança de que nossas crenças morais sejam verdadeiras.

O Dr. Wielenberg conhece muitíssimo bem esse problema do realismo normativo sem Deus. Sua complexa resposta ao problema, para dizer de forma simples, é que os mesmos processos cognitivos que produzem nossas crenças morais também fazem com que as propriedades morais abstratas sejam instanciadas.[2] Observe que tal explicação depende crucialmente da suposta conexão causal entre propriedades físicas e propriedades morais abstratas, o que talvez seja o ponto mais obscuro na filosofia. O argumento de Plantinga, no entanto, dá-nos razão para duvidar também se nossos processos cognitivos que, supostamente, fazem com que certas propriedades morais sejam instanciadas desencadearão as crenças morais adequadas, em vez de crenças que sejam meramente propícias à sobrevivência. Dr. Wielenberg nos garante que não somos mais afortunados tendo crenças morais verdadeiras do que tendo crenças verdadeiras em geral.[3] Porém, se Plantinga está certo, é uma coincidência incrível, dado o naturalismo, que nossas crenças de qualquer tipo, incluindo nossas crenças morais, venham a ser confiáveis.

A solução para este problema é negar não a evolução, mas o naturalismo. Segundo o ateísmo, Deus pode supervisar o processo evolutivo de tal maneira que se garanta a confiabilidade fundamental de nossas faculdades cognitivas. Uma vez que Dr. Wielenberg, em contraste, está comprometido com o naturalismo bem como com a evolução, ele tem um derrotador da confiabilidade de suas crenças morais. O realismo normativo sem Deus, portanto, impossibilita o conhecimento moral

 

Eu o convide a assistir ao debate e ver como o Dr. Wielenberg responde a esta objeção.

No entanto, em resposta a suas perguntas: (1) sim, a objeção me parece sólida e (2) não usei o argumento antes porque, suponho eu, o AECN não é argumento contra a verdade do naturalismo (ou a favor da verdade do teísmo), mas, sim, um argumento segundo o qual o naturalismo não pode ser racionalmente afirmado. Mostra que, mesmo que verdadeiro, o naturalismo não pode ser adotado racionalmente. Em contraste, o argumento teísta relacionado à ontologia moral, se bem-sucedido, mostra que o teísmo é verdadeiro e o naturalismo, falso. Assim, encaixa-se melhor em meu argumento positivo a favor do teísmo. Nesse debate, porém, o AECN serviu muito bem de objeção à afirmação de Wielenberg segundo a qual o realismo normativo sem Deus pode nos garantir conhecimento moral.

 

 

 

[1] Alvin Plantinga, Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism [Onde está o conflito? Ciência, religião e naturalismo] (Oxford: Oxford University Press, 2011), pp. 344-5 [tradução a ser publicada por Edições Vida Nova].

 

[2] Ele afirma que nossas crenças morais são confiáveis quando certo processo cognitivo não-consciente classifica uma entidade como se ela tivesse certas propriedades não-morais e tal classificação desencadeia uma crença moral consciente de que a entidade tem certa propriedade moral; ademais, o fato de algo ter propriedades não-morais faz com que a coisa tenha tal propriedade moral (Erik J. Wielenberg, Robust Ethics: The Metaphysics and Epistemology of Godless Normative Realism [Ética robusta: a metafísica e a epistemologia do realismo normativo sem Deus] [Oxford: Oxford University Press, 2014], p. 105).

 

[3] Ibid., pp. xii, 169, 172-3, 175.

 

- William Lane Craig