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#24

July 12, 2012
Q

Na sua entrevista com Lee Strobel, publicada no livro The Case for a Creator [Em defesa de um Criador] (Capítulo 5, na subseção “Pathway of Mathematics” [Caminho da Matemática]) escrito por ele, o senhor declarou:

Tempo e espaço são criações de Deus que começaram no big bang. Se você retroagir ao princípio do tempo em si, há simplesmente a eternidade. Com isso quero dizer eternidade com o sentido de atemporalidade. Deus, o Eterno, é atemporal em seu ser. Deus não ficou esperando um período infinito de tempo até o instante da criação; isso seria absurdo. Deus transcende o tempo. Ele está além do tempo. Tendo criado o universo, Deus poderia entrar no tempo, mas esse é um tópico completamente diferente.

Também no seu livro Reasonable Faith [A veracidade da fé cristã] (p. 117), o senhor escreveu:

Por exemplo, um homem sentado desde a eternidade poderia querer ficar de pé; assim, um efeito temporal tem origem num agente eternamente existente. De modo semelhante, em um tempo finito retroativo, um Criador dotado de livre-arbítrio poderia ter querido trazer o mundo à existência naquele instante. Dessa maneira, Deus poderia existir imutavelmente e eternamente, mas quis criar o mundo no tempo. “Quis”, não significa necessariamente que o Criador muda de ideia, mas que, de forma espontânea e eterna, pretende criar um mundo com um começo.

Isso é difícil demais para minha compreensão.

1) Estou com dificuldade para entender a diferença entre um Criador que ficou esperando um período infinito de tempo até o instante da criação e um Criador atemporal que, num tempo finito passado, quis trazer o mundo à existência naquele instante. Poderia explicar mais detalhadamente, por favor?

2) Não falar em antes “do instante da criação” significa que existia tempo antes da criação? Por favor, explique.

3) Não entendo como “um homem sentado desde a eternidade poderia querer ficar de pé”. De novo, isso não implicaria ficar esperando por um período de tempo antes de se levantar? Da mesma forma, se “em um tempo finito retroativo, um Criador dotado de livre-arbítrio pudesse ter querido trazer o mundo à existência naquele instante” não significaria que o Criador esperou durante um período de tempo antes de trazer o mundo à existência?

4) Não compreendo como seria possível fazer algo, uma vez que não existia o tempo?

5) Acho difícil compreender isto: “‘Quis’, não significa necessariamente que o Criador muda de ideia, mas que, de forma espontânea e eterna, pretende criar um mundo com um começo”. Com a palavra “quis”, o senhor quer dizer que tudo o que ela significa é “pretender”? Que Deus sempre quis criar um mundo com um princípio e nunca mudou de ideia a esse respeito? Se é assim, por que o mundo não foi criado desde um tempo infinito no passado? Sei que essa frase tem exatamente a intenção de responder a esse problema (por que o mundo não foi criado em um tempo infinito no passado), mas ainda tenho dificuldade para entender de que modo ela responde a esse problema.

Sinceramente,

Paul

United States

Dr. Craig responde


A

Essas questões são mesmo difíceis de entender, Paul! Abaixo do próprio Deus, não tenho conhecimento de nenhum assunto tão desconcertante, tão alucinante, como o conceito de tempo. Tente colocar Deus e o tempo juntos e terá algo em que poderia passar a vida inteira estudando! Espero que a sua perplexidade se deva simplesmente à dificuldade do tema e não a alguma incoerência da minha parte.

Antes de considerar suas várias perguntas, permita-me apresentar de modo sucinto como eu entendo a relação de Deus com o tempo. Defendo que Deus, por existir imutavelmente só, sem o universo, é atemporal. O tempo passa a existir na criação e, portanto, tem um começo e é finito no passado. Em virtude da sua relação real com o mundo temporal, Deus torna-se temporal no instante da criação. Assim, Deus existe atemporalmente sem a criação e temporalmente desde o momento da criação.

1) Caso eu esteja certo, então não existe nenhum momento anterior à criação. Mais exatamente, o tempo passa a existir na criação. Essa é uma visão cristã clássica, conforme defendida, por exemplo, por Agostinho. Nessa visão, é incoerente do ponto de vista da lógica perguntar “O que Deus estava fazendo antes da criação?”, porque “antes da criação” implica um momento antes da criação, possibilidade que essa visão nega. Logo, a pergunta está indagando: “O que aconteceu num momento do tempo antes do primeiro momento do tempo?”, coisa que não faz sentido. É como perguntar: “Como se chama a esposa daquele solteirão?”.

Todavia alguns teístas têm discordado da visão clássica. Isaque Newton, o fundador da física moderna, por exemplo, acreditava que o tempo era infinito no passado e que jamais teve um princípio. Para Newton, o tempo absoluto é o mesmo que a duração de Deus. Uma vez que Deus sempre existiu, retrocede-se cada vez mais no tempo, e o tempo nunca teve um começo. Portanto, na visão de Newton, faz sentido perfeitamente perguntar: “O que Deus estava fazendo antes da criação?”. Na verdade, o filósofo G. W. Leibniz, adepto da perspectiva agostiniana, atormentava Samuel Clarke, seguidor de Newton, na célebre correspondência entre eles, com a pergunta: “Por que (na visão de Newton) Deus não criou o mundo mais cedo?”. Essa é uma pergunta dificílima de responder a partir do ponto de vista newtoniano (veja minha argumentação em Time and Eternity [Tempo e eternidade] Crossway, 2001).

Seja qual for a perspectiva que se abrace, acho possível perceber a enorme diferença que há entre defender que Deus existe atemporalmente sem a criação e sustentar que ele tem existido ao longo de um tempo passado infinito antes do momento da criação. Veja no livro God and Time [Deus e o tempo] (Inter-Varsity, 2001) uma discussão vívida e interessante que apresenta um intercâmbio entre eu mesmo, Alan Padgett, Nicholas Wolterstorff e Paul Helm acerca de tais questões.

2) Sim, falar de um momento “antes” do momento da criação implica a existência do tempo antes do tempo, o que é incoerente na visão agostiniana defendida por mim. Mas observe que não uso essa palavra na sua citação de minha entrevista com Lee. Em minha primeira obra, eu achava que as pessoas iriam entender, em razão de eu ter explicado a minha visão, que a expressão “antes da criação” é somente uma façon de parler (modo de dizer), que não deve ser considerada literalmente. Entretanto, à luz da confusão produzida por ela, tenho desde então tomado o máximo cuidado de evitá-la, preferindo antes afirmar que Deus existe sem a criação ou que existe além, mas não antes, do big bang. Uma excelente maneira de expressar a precedência de Deus à criação é afirmar que Deus é causalmente, mas não temporalmente, anterior ao princípio do universo.

3) É óbvio que um homem sentado “desde a eternidade” não existe atemporalmente. Mas meu experimento mental pretende ilustrar um aspecto a respeito da liberdade da vontade. O indivíduo existe imutavelmente e realiza determinada intenção porque o livre-arbítrio não exige nenhuma condição determinadora antecedente. A própria natureza do livre-arbítrio é a ausência de determinantes causais. Portanto, a livre escolha tem a aparência de um evento puramente espontâneo. O homem pode de maneira simples e livremente querer ficar de pé. Dessa maneira, é possível obter um efeito temporal a partir de uma causa imutável, se a causa for um agente livre. Ora, no caso de Deus, Deus existe imutavelmente sem o universo. A criação é um ato da livre vontade de Deus que, quando ocorre, traz à existência o tempo com o universo. Assim, afirmar que, “em um tempo finito retroativo, um Criador dotado de livre-arbítrio poderia ter querido trazer o mundo à existência naquele instante” não implica a existência de tempo antes daquele momento.

4) A consequência da atemporalidade é que nada se torna diferente, ou seja, nada muda. Atemporalidade implica um estado imutável do ser. Ora, algumas atividades não requerem mudança e tempo. Por exemplo, saber de algo não exige mudança nem tempo. Deus pode conhecer todas as verdades no estado imutável sem nenhuma mudança. De modo semelhante, pode-se ter intenções imutáveis. Contanto que não mudem, as intenções podem ser preservadas atemporalmente. É por isso que afirmei que Deus pode existir sem o universo com a intenção atemporal de criar o mundo com um começo. Pode-se amar alguém sem mudança. Temos aqui um entendimento penetrante da natureza da relação do amor entre as três pessoas da Trindade naquele estado imutável em que a criação inexistia. Existe um estado perfeito e imutável do conhecimento, do querer e do amor mútuo entre as pessoas da Trindade sem a criação. (A maravilha da criação é que Deus se daria ao trabalho de criar um mundo de criaturas e de convidá-las para entrarem gratuitamente no gozo dessa comunhão como filhos adotivos!)

5) Sim, com “quis” pretendi afirmar que Deus tem a livre intenção da sua vontade. A atemporalidade dessa intenção não nega que ela seja, de fato, uma escolha. Porquanto é possível imaginar mundos possíveis nos quais Deus tenha uma intenção bem diferente, a saber, abster-se totalmente de criar um mundo. De início, pensava que isso era o suficiente para explicar a origem do mundo, mas a reflexão a respeito da causalidade do agente levou-me a considerar que, além dessa intenção atemporal, seria também indispensável que houvesse o exercício do poder causal da parte de Deus. Esse ato é simultâneo ao momento da criação — de fato, é precisamente o ato da criação — e coloca Deus dentro do tempo. Mas se você perguntar “Por que Deus não executou a sua intenção mais cedo?” estará caindo de volta na visão newtoniana de pensar em Deus como existindo temporalmente antes da criação. Na perspectiva agostiniana, a pergunta não faz sentido.

- William Lane Craig