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February 25, 2019Olá, Dr. Craig.
Tudo bem? Sou aluno de pós-graduação no Seminário Teológico Batista do Sudeste, na Carolina do Norte, e tenho uma pergunta sobre a(s) diferença(s) essencial(is) entre o neo-apolinarismo e o chamado “princípio de enipostasia (enhypostasia)” do teólogo Leôncio de Bizâncio, do século VI, se é que existe alguma diferença real. Para meu curso de teologia histórica, estou lendo História da teologia cristã, de Roger E. Olson, que, na discussão da resposta da igreja à tensão entre disputas antioquena e alexandrinas quanto a Cristo ter uma ou duas naturezas, registra que Leôncio de Bizâncio foi nomeado “... para convocar e presidir às conferências dos principais teólogos ortodoxos para elaborar uma nova concepção da união hipostática que se mantivesse plenamente coerente com a Definição de Calcedônia, fazendo, ao mesmo tempo, uma ponte entre os monofisistas e diofisistas moderados” (p. 244, ed. inglesa de 1999).
Uma vez que, por um lado, o problema dos monofisistas com a cristologia diofisista era que duas naturezas, de certo modo, exigiam que Cristo possuísse duas “hipóstases” (ou identidades pessoais) — supondo eles que cada “natureza” deva ter sua própria “hipóstase” — e, por outro lado, uma vez que o problema dos diofisistas com a cristologia monofisista era que esta carecia de uma plena descrição da humanidade (sendo que cristãos então pensavam que o corpo humano sem uma “hipóstase” era “anipostático” — ou impessoal — e, portanto, não verdadeiramente humano), Olson escreve que Leôncio, por sua vez, “defendia que, conquanto uma natureza — mesmo uma natureza humana — não possa existir sem uma hipóstase, ela não precisa ter sua própria hipóstase. Pode ser ‘hipostasiada’ em outra. Em outras palavras, para Leôncio, ‘a natureza humana de Cristo não era sem hipóstase, mas se tornou hipostática [personalizada] na Pessoa do Logos’. A natureza humana de Cristo — uma natureza humana plena e completa — não era anipostática (impessoal), nem pessoal por si só, mas enipostática, que significa ‘personalizada na pessoa de outrem’” (p. 245).
Olson continua e observa a interpretação de Leôncio segundo a qual, “no Segundo Concílio de Constantinopla, em 553, a interpretação que Leôncio de Bizâncio deu a Calcedônia foi explicada a todos, e exigiu-se de todos os bispos reafirmarem a Definição de Calcedônia. Em outras palavras, foram ordenados pelo imperador que, ‘se não virdes que esta nova interpretação resolve completamente suas objeções — sejam elas alexandrinas ou antioquenas —, vós sois simplesmente obstinados e indignos de serdes chamados bispos da Grande Igreja’” (p. 247).
Espero que me perdoe por citar Olson tão extensamente, mas, quando li sua explicação do “princípio de enipostasia” de Leôncio (PdE), de imediato reconheci algumas semelhanças marcantes, senão exatas, com seu contemporâneo modelo filosófico neo-apolinarista (NA).
Portanto, minha pergunta é a seguinte: quais diferenças há (se é que existem) entre NA e PdE de Leôncio? Se não há nenhuma diferença essencial entre elas, e uma vez que a interpretação dele foi adotada como a/uma legítima interpretação cristológica de Constantinopla II, será que a ortodoxia histórica de NA fica demonstrada e, consequentemente, põem-se por terra todas as alegações correntes da relativa heterodoxia de NA? Eu me interesso por NA faz um tempo e tenho defendido sua coerência e ortodoxia na internet muitas vezes, mas, se não há nenhuma diferença essencial entre seu modelo cristológico/filosófico e o de Leôncio no que diz respeito à união hipostática, o fato de que este último foi declarado interpretação ortodoxa em concílio ecumênico passado parece (pelo menos a mim) desfazer totalmente a dificuldade. Seja como for, sou grato por todo o seu trabalho, Dr. Craig, e aguardo ansiosamente ouvir do senhor se talvez entendi algo erroneamente!
Tudo de bom,
Adam
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Recordo minha surpresa e deleite quando ouvi pela primeira vez, anos atrás, a doutrina da enipostasia (enhypostasia) de Leôncio. Parecia cair como uma luva em minha proposta neo-apolinarista segundo a qual a alma de Jesus Cristo era o Logos divino. Ela deixa claro por que a natureza humana individual de Jesus não pode existir por si só. Segue aqui o que escrevi em meu capítulo sobre a Encarnação em Filosofia e cosmovisão cristã:
“Este segundo ponto de nossa cristologia esclarece uma doutrina implícita na fórmula de Calcedônia, vindo posteriormente a ser chamada de enipostasia. Desenvolvida por Leôncio de Bizâncio (465-543), a doutrina afirma que a natureza humana individual de Cristo, aquela composição de corpo-alma que foi o homem Jesus de Nazaré, não tinha sua própria hipóstase, isto é, não subsistia por si só, mas se tornou hipostática somente em sua união com o Logos. Monofisistas defendiam que, se Cristo tivesse duas naturezas individuais, cada uma teria sua própria hipóstase, destruindo, assim, a unidade da pessoa de Cristo. Leôncio concordava com os monofisistas que uma natureza individual sem uma hipóstase é impossível, mas fugiu à conclusão nestoriana de duas hipóstases ao postular em Cristo uma natureza humana que é enipostática, isto é, uma natureza que recebe subsistência de outra. No caso de Cristo, a hipóstase do Logos divino já existe antes da Encarnação e, então, vem a exemplificar a natureza humana também. Portanto, a natureza humana individual de Cristo sobrevém sobre a natureza humana individual do Logos. As duas naturezas de Cristo não possuem duas hipóstases separadas, mas partilham de uma hipóstase comum. A hipóstase da natureza humana é idêntica à pessoa divina. Assim, nenhuma das duas naturezas individuais é sem uma hipóstase, nem tampouco cada uma delas possui uma hipóstase que lhe é peculiar, mas têm uma única e idêntica hipóstase que pertence propriamente ao Logos divino, a segunda pessoa da trindade.
“Quando a enipostasia é combinada com nossa proposta apolinarista, temos uma explicação esclarecedora da maneira como Cristo pode ter uma natureza plenamente humana e uma natureza plenamente divina e, ainda assim, ser uma pessoa. Isso porque o Logos é tanto a hipóstase que serve como o subsistente portador de propriedade para cada categoria-natureza abstrata quanto a pessoa que é o ego autoconsciente das duas naturezas individuais. A razão pela qual a natureza humana é enipostática é que é incompleta sem sua união com o Logos. Sem esta ideia apolinarista, a doutrina da enipostasia continua misteriosa e, talvez, incoerente. Conforme a presente proposta, o Logos completa a natureza humana individual de Cristo provendo-lhe uma alma racional, que é o Logos em si. A considerável vantagem teológica a ser ganha com isto é abortar a sugestão de que o Logos poderia simplesmente ter assumido qualquer natureza humana, de modo que Ronald Reagan ou mesmo J. P. Moreland poderiam ter sido o Filho de Deus. A natureza humana individual que é o homem Jesus de Nazaré não poderia ter existido sem sua união com o Logos, e, se o Logos viesse a ser unido com o corpo de, digamos, J. P. Moreland, a pessoa resultante não teria sido J. P. Moreland, mas alguém meramente parecido com ele”.
(Não tem como não gostar da parte em que J. P. Moreland é o divino Filho de Deus! Eu me diverti escrevendo-a!)
Pois bem, em relação a sua pergunta — “quais diferenças há (se é que existem) entre NA e PdE de Leôncio?” —, eu diria que a enipostasia de Leôncio não obriga a pessoa a manter que a alma de Jesus é o Logos. Leôncio não oferece, até onde eu saiba, nenhuma explicação de por que a natureza humana de Jesus é enipostática. A grande força de minha proposta é que ela oferece uma explicação para esse fato que, de outro modo, seria misterioso. A razão por que a natureza humana de Jesus se torna hipostática apenas em união com o Logos é que o Logos traz à natureza humana individual de Cristo apenas esse elemento (a saber, uma alma racional) o qual a completa. Minha proposta também evita a implicação muito imprópria de que a natureza humana individual de Jesus pudesse ter sido uma pessoa humana, caso não tivesse sido assumida pelo Logos e que, por sua vez, J. P. Moreland poderia ter sido o divino Filho de Deus, caso a sua natureza tivesse sido assumida.
Assim, infelizmente, enipostasia não serve para demonstrar “a ortodoxia histórica de NA” nem tampouco, “consequentemente, põem-se por terra todas as alegações correntes da relativa heterodoxia de NA”, porque, ao passo que o neo-apolinarismo acarreta a enipostasia, a enipostasia não acarreta o neo-apolinarismo. Porém, eu diria que o defensor da enipostasia que rejeita o neo-apolinarismo é deixado com uma teoria cristológica de força explanatória deficiente, já que se admite ser impossível uma natureza humana anipostática e não se dá nenhuma razão para por que a natureza humana de Cristo ter se tornado hipostática apenas em união com o Logos.
- William Lane Craig