#640
October 30, 2019Caro Dr. Craig,
Acabei de assistir no YouTube a um debate com o título “Jesus é humano, e não divino” [Jesus is human and not divine] entre o filósofo unitário Dale Tuggy e o escritor cristão Chris Date. Este indica que, segundo o unitarismo, Deus seleciona um terceiro, não-divino (um Jesus puramente humano), a fim de expiar os pecados dos homens. Em contraste, segundo o trinitarismo, o próprio Deus (na pessoa de Cristo) adota a condição humana e absorve a pena que merecemos por nossos pecados. A posição unitária parece implicar que uma pessoa não-divina e puramente humana foi selecionada arbitrariamente para sofrer a pena por nossos pecados, o que parece extremamente injusto. Embora Tuggy tenha escrito com relutância que Jesus poderia ser “divino em certo sentido” (o que, se for verdade, implicaria politeísmo, uma vez que haveria ao menos duas divindades, Deus e Jesus), fica claro que sua posição unitária está mais inclinada a uma perspectiva puramente humana de Jesus, como se viu no debate. Minha pergunta é: dada a teologia do ser perfeito, será que o trinitarismo é mais correto do que o unitarismo, no quesito de explicar a expiação? Teríamos aí um novo argumento a favor do trinitarismo com base na justiça da expiação que não está disponível pela alternativa unitária?
Obrigado.
Marco
Itália
Italy
Dr. Craig responde
A
Você está fazendo uma ótima pergunta, Marco, quanto à hipótese de que alguém inferior a uma pessoa divina pudesse expiar pecados. No caso, a questão mais profunda é o que seria necessário para satisfazer à justiça divina. Temas de justiça divina permeiam o Novo Testamento, especialmente os escritos de Paulo. Com base nisto, defendo, em oposição a alguns pensadores cristãos, que, por necessidade ou pela livre escolha divina, a satisfação da justiça retributiva de Deus é precondição para que ele legalmente nos perdoe os pecados.[1] Portanto, o que servirá para satisfazer as demandas da justiça retributiva divina? O teólogo medieval João Duns Escoto sugeriu que Deus poderia ter aceito qualquer sacrifício que lhe fosse satisfatório com relação às demandas de sua justiça retributiva. Tal perspectiva é denominada de aceitação (uma vez que Deus pode aceitar como satisfatório o que ele bem escolher). A maioria dos teóricos tradicionais da expiação não é simpática a explicações que sigam o modelo da aceitação. Pois, no caso, Deus poderia ter aceito como satisfatória a morte de qualquer ser humano comum, ou até mesmo de um animal. Porém, não é verdade, conforme afirmam as Escrituras que “é impossível que o sangue de touros e de bodes apague pecados” (Hebreus 10.4)? Deveras, a partir dessa visão, cada um de nós poderia, sem Cristo, prover satisfação para seus próprios pecados, o que é inconcebível.
Teorias retributivas de justiça exigem não simplesmente que o culpado mereça a pena, mas também que a pena seja proporcional ao crime, a fim de que a justiça seja satisfeita. O objetor a teorias de aceitação pode manter, plausivelmente, que a justiça retributiva, conforme a conhecemos e entendemos, é essencial à natureza de Deus e, portanto, não poderia ser satisfeita por meros sacrifícios animais e muito menos por mim, pecador.
Dada a magnitude do pecado humano — passado, presente e futuro —, o que a humanidade merece justamente diante da corte da justiça de Deus é incompreensivelmente grande, se não infinito. Se o inferno envolve o encarceramento infinito para os condenados, cada um de nós deve, plausivelmente, uma dívida de pena a Deus que é infinita. O problema em Deus selecionar algum pecador para pagar a pena por nossos pecados não é simplesmente porque parece injusto, mas, mais fundamentalmente ainda, penso eu, porque é insatisfatório. Quem é indicado para pagar tal pena?
Conforme entendeu Santo Anselmo, a resposta é: somente o próprio Deus. Portanto, a encarnação da segunda pessoa da trindade é necessária para que alguém seja salvo. “Portanto, para que o reino celestial se constitua de homens — e isto não se pode efetuar a menos que a dita satisfação seja feita, a qual ninguém, senão Deus, pode fazer e ninguém, senão o homem, deve fazer —, é necessário que o Deus-homem a faça” (Cur Deus homo? 11.6). Assim, penso que você tem razão em dizer que a expiação nos dá bons motivos para preferir o trinitarismo ao unitarismo.
[1] The Atonement (Cambridge University Press, 2018), pp. 77-81.
- William Lane Craig