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March 29, 2013Doutor Craig,
Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer a você por sua liderança, mental e espiritual, na minha vida. Você tem sido de grande ajuda na minha fé cristã. Eu digo isso de coração. Mas eu trago agora perguntas importantes para você. Meu nome é Leander, tenho 20 anos e faço faculdade de Direito na Universidade Federal de Santa Maria, no Brasil.
Eu não sei se você está ciente da situação em Santa Maria, mas aqui um incêndio em uma boate chamada Kiss matou cerca de 235 jovens (todos entre 18 e 24 anos de idade) e deixou em torno de 143 feridos em estado grave nos hospitais. A cidade está passando por um momento sombrio. Há somente tristeza e lágrimas em todos os lugares. Os pais das vítimas estão em desespero e todos os alunos que, como eu, conheciam algumas das vítimas estão totalmente deprimidos.
Isso trouxe algumas indagações à minha mente. De acordo com a minha fé cristã evangélica, a maioria dessas pessoas está agora no inferno. Isso me parece extremamente cruel. Elas eram boas pessoas, jovens, com sonhos e corações cheios de amor para com os seus amigos e para com a vida. Agora, deixe-me ser direto: eu li o último capítulo do seu livro Em Guarda, e tenho acompanhado um pouco do seu trabalho e acho que eu sei o que você vai dizer. Eu sei que, de acordo com as crenças cristãs clássicas, ninguém é bom o suficiente para Deus, e aqueles que vivem sem Cristo, sem Cristo perecerão. Mas, novamente, parece extremamente doloroso. Eu simplesmente não consigo olhar para os pais das vítimas e pensar nisso. Então, esse contexto me faz realmente questionar o significado da salvação no cristianismo. Em teoria, não é tão difícil de aceitar, mas, na realidade, parece cruel e sem sentido.
Antes de começar a frequentar uma igreja evangélica, eu fui criado em uma família católica. Por isso, eu trago comigo algumas das doutrinas católicas como salvação pelas boas obras (mas eu não tenho certeza se eles pregam isso), isto é, os bons irão para o céu e os maus para o inferno. Isso não é compatível com o cristianismo de alguma forma? O padre aqui disse que essas pessoas estão agora com Deus! Mas o pastor diz que eles não estão! Quem está certo?
Eu acho que algumas passagens da Bíblia também ensinam a salvação pelas boas obras: Mateus 5, 1-12; Mateus 25, 31-46; João 5, 28-29.
Pode ser que o padre esteja certo? Será que o sacrifício de Cristo é estendido a todos, deixando a decisão sobre se alguns irão para o céu e outros para o inferno nas mãos de Deus, não nas nossas?
Nessa situação prática é realmente difícil de aceitar a doutrina evangélica da salvação.
Desculpe o meu inglês, e eu não pesquisei mais nos seus escritos porque é difícil de entender inglês perfeitamente.
Obrigado por tudo,
Leander
Brazil
Dr. Craig responde
A
Sim, Leander, aqui nos Estados Unidos estamos acompanhando com horror e tristeza a tragédia na boate em Santa Maria.
Ao lidar com o problema do mal, eu frequentemente digo que é muito importante que seja feita distinção entre o problema emocional do mal e o problema intelectual do mal. Isso se aplica especialmente num caso trágico como esse. Antes de tirar conclusões doutrinárias significativas com base nesse evento, seria provavelmente sábio colocar alguma distância emocional entre você e o evento, para que o seu pensamento não seja guiado ou prejudicado pela intensa dor emocional que você sente.
A sua pergunta não é sobre o problema geralmente colocado pelo mal, ou seja, como conciliar a existência de Deus com o terrível evento em questão. Ao contrário, você dá contornos teológicos incomuns à questão: você quer saber se o evento é incompatível com a doutrina da salvação pela graça e se ele não deveria nos levar a adotar a doutrina da salvação pelas obras.
Eu não acho que deveria. A sua dor decorre da tragédia horrível que é a possibilidade de as pessoas que sofreram tão terrivelmente nesta vida terem de sofrer para sempre na vida após a morte. Não devemos tentar atenuar de forma alguma a enormidade dessa tragédia. É, de fato, monstruoso e perverso. Mas o que devemos insistir, enfaticamente, é que Deus, de maneira alguma, quer que essa tragédia aconteça. Sua vontade é que as pessoas sejam salvas e que sigam para uma eternidade de alegria e consolação que tornará os seus sofrimentos terrenos literalmente infinitesimais em comparação. Deus se entristece ainda mais do que você que essas pessoas, que sofreram dessa maneira nesta vida, sejam separadas de Deus para sempre. É por isso que Deus dá graça suficiente para a salvação de cada pessoa que ele cria. Deus deseja e trabalha para a salvação de todo ser humano. Mas, tragicamente, as pessoas ignoram a Deus e desprezam a Sua graça e separam-se irrevogavelmente d’Ele. O que torna essa tragédia tão perversa é que, desse modo, algumas dessas pessoas agravam o sofrimento que elas já experimentaram nesta vida. É feio, monstruoso e horrível, mas não é culpa de Deus.
Na verdade, eu estou propenso a acreditar que Deus não permitiria que nenhuma dessas pessoas perecesse no fogo da boate e fossem para a eternidade separados de Deus se Ele soubesse que, permitindo-lhes viver por mais tempo, elas teriam chegado ao conhecimento da salvação de Cristo. Se Deus tem conhecimento médio, como eu acho que Ele tem, então Ele pode ordenar o mundo providencialmente para que as pessoas não morram se a concessão de uma vida mais longa resultasse na salvação delas.
Quanto à sua proposta, eu acho que você não percebe que a salvação pelas obras é uma maldição terrível. Totalmente à parte do fato de que nenhum de nós conseguiria ser bom o suficiente para obter o nosso lugar no céu, a salvação pelas obras nos coloca no processo de tentar ganhar o favor de Deus, ao invés de receber com gratidão o Seu amor e graça imerecidas. De fato, ironicamente, a salvação pelas obras provavelmente levaria à condenação de muitos dos que pereceram no fogo da boate. Pois muitos deles poderiam não ter levado vidas particularmente boas até o momento de suas mortes. A única esperança deles era a salvação pela graça. Nos últimos minutos, eles poderiam ter se voltado para Deus em arrependimento genuíno e fé e recebido a Sua graça salvadora. À parte da graça de Deus, eles não teriam esperança de escapar, pois não há mais tempo para levar uma vida de boas obras suficientes para compensar o que foi feito até esse ponto. Quando você olha para os pais dos que morreram, o que você deve fazer é assegurar-lhes que os seus entes queridos possam estar no céu hoje, pois nenhum de nós sabe o que pode ter acontecido entre eles e Deus em seus momentos finais. Nenhum de nós – nem o sacerdote, nem o pastor – pode pronunciar-se sobre quais ou quantas dessas pessoas estão agora com Deus. Tal conhecimento pertence a Deus somente.
Nem é útil sugerir que "o sacrifício de Cristo é estendido a todos, deixando a decisão sobre se alguns irão para o céu e outros para o inferno nas mãos de Deus, não nas nossas." Isso é calvinismo: Deus unilateralmente escolhe quem salvar e quem danar. Como poderia a retirada da salvação de nossas mãos contribuir para resolver o problema? Seria melhor dizer que o sacrifício de Cristo é estendido a todos e que todos os que o recebem livremente serão salvos. Nós, assim, temos ao nosso alcance a capacidade de reverter totalmente e para sempre qualquer tragédia que sofremos nesta vida.
- William Lane Craig