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November 6, 2022Tenho uma pergunta sobre simplicidade divina e como ela se relaciona com anjos e demônios. Enquanto humanos, não somos “simples”, por sermos criaturas compostas, feitas de corpo e alma (e espírito, se assim preferir), e os nossos corpos podem ser subdivididos em órgãos, células, moléculas etc. Deus, em comparação, é espírito puro e não pode ser subdividido. Em certo sentido, a menos que eu não esteja entendendo bem algo sobre a simplicidade divina, a simplicidade e incorporeidade dele parecem quase sinônimas.
Ainda assim, os anjos, no entendimento tradicional, são também incorpóreos. Embora possam tomar forma humana, a visão comum é que tal incorporação seja temporária e que o seu estado “natural” seja de um ser espiritual incorpóreo. Se for verdade, e a menos que haja distinção significativa entre simplicidade e incorporeidade (e não são sinônimas no aspecto funcional), não significaria que os anjos também retêm o atributo de simplicidade, algo que se vê tipicamente como atributo divino incomunicável?
Enxergo três opções:
1) A simplicidade divina é distinta da incorporeidade, de modo que Deus pode ter as duas, ao passo que os anjos só podem ter uma.
2) A simplicidade não é atributo incomunicável, mas meramente atributo que não é partilhado conosco, mas com outros seres criados.
3) Os anjos são, de algum modo (que não é elaborado na Bíblia), corpóreos e compostos.
Fico curioso em saber o que pensa a este respeito. Não me lembro de que o assunto tenha sido abordado em nenhuma teologia sistemática que li nem em nenhuma palestra que ouvi, uma vez que os atributos de Deus costumam ser comparados com os nossos, e não com os de outras criaturas.
Ty
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
A sua pergunta, Ty, compele-nos a encarar o fato, frequentemente acobertado, de que não há algo como A doutrina da simplicidade divina. Antes, esta doutrina começou em formulações bastante modestas e, sob a influência do filósofo neoplatônico Plotino (204/5—270/1), gradualmente transformou-se em versão extremamente robusta na teologia medieval muçulmana e cristã. Devemos resistir com firmeza à tentação de forçar a leitura de simplicidade divina de doutrinas medievais em escritores patrísticos, simplesmente por causa de vocabulário comum. Declarações feitas por Pais da Igreja acerca da simplicidade divina são ambíguas, em razão do fato de escritores patrísticos empregarem termos como “simples” e “composto” com significados diferentes e sem nenhum reconhecimento de tal equivocação. Por exemplo, Ireneu (130—202) afirmou que Deus é simples, meramente no sentido de que Ele não é composto por partes separáveis (Contra as heresias 2.13.3-5). A concepção de Atanásio (296/8—373) era ainda mais fraca: “Pois, se ele se uniu a partir de partes, ele pareceria completamente distinto de si mesmo e teria sua plenitude a partir de coisas distintas” (Oração contra os gentios 1.28). A afirmação de Hilário (310—367) é igualmente débil: “Deus é simples... E ele não é tão diverso, com partes de uma divindade composta, que devesse haver nele, quer a vontade após o torpor, quer o trabalho após o ócio” (Da Trindade 9.72). Até mesmo Orígenes, a despeito da sua formação neoplatônica, afirma que Deus é simples no sentido de ser incorpóreo e indivisível, como a mente humana (Dos primeiros princípios 1.1.6). Basílio (330—379) e Gregório de Nissa (335—395), na sua batalha com o teólogo ariano Eunômio de Cízico (m. 393), confrontaram com ímpeto um defensor da simplicidade divina neoplatônica, repudiando-a em favor de uma concepção muito mais modesta.
Assim, doutrinas muito modestas da simplicidade divina podem sustentar uma ou mais das afirmações seguintes:
(SD1) Deus não é construído a partir de partes.
(SD2) Deus não tem partes mais fundamentais do que ele mesmo.
(SD3) Deus não tem partes separáveis.
Segundo tais concepções débeis, Deus poderia ainda ser complexo de diversas maneiras, como ao exemplificar uma diversidade de propriedades, o que é contrário à intenção de tantos defensores posteriores da simplicidade divina.
Tomás de Aquino, o proeminente defensor medieval da simplicidade divina, mantinha uma versão especialmente robusta da simplicidade divina, que, de acordo com Christopher Hughes, incluía as seguintes teses:
(SDCD) Nem Deus nem seu gênero, nem Deus nem suas differentia, nem Deus nem Suas formas acidentais são duas coisas distintas.
(UUC) Deus e as Suas perfeições, Deus e a Sua essência e Deus e a Sua existência são uma única coisa.
“SDCD” é abreviação para “sem duas coisas distintas” e “UUC” equivale a “uma única coisa”. Já que Deus transcende a distinção entre forma e matéria, gênero e espécie, substância e acidentes e, poderíamos acrescentar, realidade e potencialidade, os itens elencados em (SDCD) não podem ser tidos como idênticos a Deus, porque coisas tais como a matéria, gênero, espécie, acidentes e potencialidade de Deus absolutamente não existem. Antes, eles e Deus não são duas coisas distintas. Porém, os itens elencados em (UUC) existem, sim, e, portanto, devem ser idênticos a Deus, para que Deus seja complexo no Seu ser. Estudiosos contemporâneos precisam de cautela ao forçar a leitura de versões robustas de simplicidade divina em afirmações e confissões de autores mais antigos, em particular declarações feitas pelos Pais da Igreja ou em credos, sem nelas haver definição dos termos.
Assim, em relação à sua pergunta, embora, para muitos Pais da Igreja, a simplicidade de Deus equivalesse à Sua incorporeidade, penso que se pode ver que, para pensadores posteriores, isto estava longe de ser verdade. Considere os anjos, por exemplo. Embora eles sejam, de fato, simples no sentido de (SD1-3), eles não são simples no sentido de (SDCD) e (UUC). De importância especial é que são metafisicamente compostos por essência e existência. Somente em Deus essência e existência são a mesma coisa.
Assim, quanto às suas três opções, defensores da doutrina robusta da simplicidade divina afirmariam:
1) A simplicidade divina é distinta da incorporeidade, de modo que Deus pode ter as duas, ao passo que os anjos só podem ter uma.
2) A simplicidade não é atributo incomunicável (por não ser atributo! Um Deus simples não tem atributos; antes, a simplicidade é condição formal para a existência de Deus, a saber: Deus não é complexo, conforme exposto em [SDCD] e [UUC]. Pode-se dizer que a simplicidade é incomunicável porque apenas Deus pode ser simples).
3) Os anjos são, de certo modo (que não é elaborado na Bíblia) compostos (por exemplo, compostos por substância e acidentes, essência e existência).
A sua pergunta nos ajuda a enxergar o quão extrema é a doutrina robusta da simplicidade divina, algo que, sem dúvida, não é ensinado na Bíblia. Fico, francamente, chocado que você jamais tenha visto a sua pergunta “abordad[a] em nenhuma teologia sistemática que li nem em nenhuma palestra que ouvi, uma vez que os atributos de Deus costumam ser comparados com os nossos, e não com os de outras criaturas”. Se não se trata de reflexo da sua leitura limitada, é verdadeira condenação dos nossos teólogos evangélicos contemporâneos.
- William Lane Craig