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#730

September 7, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

O senhor costuma dizer que o calcanhar de Aquiles do Islam está na sua negação “daquele que é o fato mais indisputável sobre Jesus”: a sua crucificação. Esta negação islâmica procede do verso alcorânico: “Eles (os judeus) não o mataram (a Jesus), nem o crucificaram, mas assim lhes pareceu”. Parece que o seu argumento é o seguinte:

1) Se o Islam é verdade, Jesus não foi crucificado.

2) Jesus foi crucificado.

3) Logo, o Islam não é verdade.

 

Para defender a segunda premissa crucial, o senhor cita biblistas que obtêm as suas informações sobre Jesus a partir de materiais extra-alcorânicos. No entanto, a conclusão de que Jesus foi crucificado segundo a memória histórica é exatamente o que o Alcorão afirma ao dizer: “mas assim lhes pareceu”. Por isso, a minha pergunta é esta: se traçarmos a distinção entre a memória histórica da crucificação de Jesus (historiadores e muçulmanos concordam) e o que, de fato, aconteceu ontologicamente ou por trás das cenas (os muçulmanos acreditam que Jesus foi substituído por razões teológicas, enquanto historiadores acreditam que Jesus deveras morreu, com base na memória histórica à primeira vista), será que isso ajudaria de algum modo a aliviar ou mesmo diminuir a tensão da cena da crucificação entre o Jesus histórico e o islâmico?

Só um comentário marginal: sou muçulmano e admiro profundamente o seu respeito pela tradição kalam na defesa que faz do argumento cosmológico.

Samiullah

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Parece-me que esta resposta muçulmana, Samiullah, basicamente já entrega os pontos. Isto porque, na prática, ela é só a admissão de que as provas históricas dão apoio avassalador à premissa (2) do argumento acima. Dizer que só nos parece que Jesus foi crucificado é admitir que as provas indicam Jesus ter sido crucificado. Assim, o muçulmano tem de crer, ao arrepio das provas, que Jesus não foi crucificado, apesar de todas as aparências contrárias. Não vejo como isso lhe dê nenhuma vantagem.

Pois bem, obviamente, se o muçulmano tivesse alguma razão para pensar que as provas históricas são equivocadas, seria outra história. Porém, ele não tem nenhuma, até onde eu saiba. O simples fato de apelar para uma espécie de ilusionismo histórico em relação à morte de Jesus é jogada forçada, sem justificação. Dizer que o próprio Deus é responsável por impor tal ilusão é, novamente, admissão tácita de que as provas históricas amparam o fato de que Jesus foi crucificado e, além disso, torna Alá responsável por impingir a ilusão do cristianismo sobre a humanidade. Assim, o apelo a simples aparência não é, penso eu, nada útil para o muçulmano.

Antes, o que o muçulmano precisa fazer é apresentar argumentos históricos visando a solapar, de algum modo, a confiabilidade do testemunho do fato da crucificação de Jesus (por exemplo, a tradicional afirmação muçulmana de que os evangelhos foram irremediavelmente corrompidos no decorrer da sua transmissão), tarefa que é, na opinião de quase todos os estudiosos não-muçulmanos, quer sejam cristãos ou não, praticamente impossível.[1]

Agradeço por seus gentis comentários pessoais, Samiullah! Gosto de ler estudiosos islâmicos medievais e aprendo muito com eles. Tenho a convicção de que é possível reter o que há de melhor no Islam e ser fiel seguidor de Jesus conforme descrito no Novo Testamento.

 

[1] Veja os meus artigos postados em /writings/popular-writings/jesus-of-nazareth/

- William Lane Craig