English Site
back
5 / 06

#275 O Teísmo Incentiva o Ceticismo?

May 13, 2015
Q

Dr. Craig,

Eu estava lendo sobre o argumento de Plantinga contra o naturalismo, e tenho notado um argumento semelhante entre os ateus que defendem que o teísmo também é auto-refutável. Desculpem a minha caricatura grosseira, mas é algo como isto:

Se uma pessoa acredita que um ser onipotente existe, então ele não está justificado em qualquer crença que ele possa ter, devido à possibilidade de que este ser poderia brincar com nossas mentes sem o nosso conhecimento.

Eu realmente não sei como responder a isso, e eu nunca vi isso ser abordado em qualquer obra publicada, então eu estava apenas curioso para ver o que você tem a dizer sobre isso.

Obrigado!

Brian

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Brian, este argumento não tem nada inerentemente a ver com o teísmo ou mesmo com um ser onipotente. O filósofo francês René Descartes em sua luta contra o ceticismo se perguntou se poderia haver um demônio maligno que está manipulando o seu pensamento para fazê-lo acreditar que ele tem um corpo, que há objetos em volta dele, e assim por diante. Teóricos de conhecimento contemporâneos que querem aparecer au courant podem conjecturar, em vez disso, sobre ser um cérebro em uma cuba de produtos químicos send estimulado com eletrodos por algum cientista louco ou um corpo deitado na Matrix enquanto habitando uma realidade virtual. Descartes, na verdade, tentou fugir à hipótese do demônio maligno por meio do argumento ontológico para Deus, que, como um ser perfeitamente bom, não seria um enganador. Para Descartes Deus era parte da solução, não do problema.

Infelizmente, uma vez que você começar a entreter seriamente estas hipóteses de demônio não há como fugir delas. Mesmo o seu argumento a favor da existência de Deus pode ser uma ilusão provocada pelo demônio!

Isso quer dizer que os teóricos de conhecimento contemporâneos todos abraçaram o ceticismo? De modo nenhum! Ao contrário, eles chegaram à conclusão de que todo o projeto de Descartes foi equivocado. Você não começa a partir de um ponto de dúvida total e tenta construir o seu sistema de crenças sobre bases indubitáveis. A lição de Descartes é que tal projeto está fadado ao fracasso. Em vez disso muitas, ou a maioria de nossas crenças são, como diz Plantinga, crenças básicas. Elas não são inferidas a partir de crenças mais básicas, mas constituem crenças fundamentais de uma pessoa. Crenças que são devidamente fundamentadas na experiência são propriamente básicas. Somos perfeitamente racionais em manter essas crenças a menos e até que nos deparemos com alguns derrotadores para essas crenças. Nós não começamos a partir de um ponto de dúvida, mas pelo que estamos confiantes de que nós sabemos.

Por exemplo, parece-me que eu tenho uma cabeça. Será que alguém realmente duvida que ele tem uma cabeça? Note que a mera possibilidade de erro não é o suficiente para derrotar essa crença. Só porque eu poderia ser um cérebro em uma cuba enganado por um cientista louco não me dá qualquer razão para pensar que eu sou. Até que você me dê alguma prova convincente de que eu não tenho um corpo, sou perfeitamente racional em acreditar de uma maneira propriamente básica que eu tenho uma cabeça.

Da mesma forma, o teísta precisaria de alguma razão convincente para pensar que Deus está enganando a fim de abandonar a crença de que ele tem uma cabeça. Brian, vire a mesa sobre o cético pedindo-lhe para lhe dar uma prova de que o teísmo lhe dá um derrotador de suas crenças propriamente básicas. Tudo o que ele pode dizer é: "Deus poderia estar enganando você." Mas isso não fornece nenhuma razão para pensar que Ele está. Nós poderíamos ser enganados por um cientista louco; mas essa possibilidade não é suficiente para derrotar nossas crenças propriamente básicas. No máximo, essa possibilidade mostra que não se pode provar por inferência que as crenças fundamentais de alguém são verdadeiras. Está certo; essa é a lição de Descartes. Mas isso não implica que as nossas crenças propriamente básicas são, portanto, irracionais ou injustificadas.

O não-teísta poderia responder que o teísta ainda está em uma posição pior do que o não-teísta porque o teísta acredita que um Deus onipotente existe enquanto que o não-teísta não acha que ele é um cérebro em uma cuba. Mas o teísta vai ver em Deus, não uma razão para ser cético em relação a nossos sentidos e pensamentos, mas sim uma garantia de confiabilidade das nossas faculdades de formação de crenças. Em contraste, o não-teísta não tem tal garantia. Este é o ponto de Plantinga. O que significa nossas crenças serem garantidas e constituir conhecimento? A resposta de Plantinga é que essas crenças são formadas por faculdades cognitivas funcionando corretamente em um ambiente adequado. O que significa funcionar corretamente? Bem, para funcionar como elas foram projetadas para funcionar. O teísta está em uma posição para explicar o bom funcionamento de nossas faculdades cognitivas, ao passo que o naturalista está em uma posição ruim para dar conta dessa noção crucial. De fato, para o naturalista, uma vez que nossas faculdades cognitivas não são selecionadas para a verdade, mas para a sobrevivência, não há nenhuma base para pensar que as nossas faculdades são confiáveis, pois não há nenhuma probabilidade de que as crenças que promovem a sobrevivência sejam verdadeiras.

Assim, Descartes estava, em certo sentido, certo no final. Deus não é parte do problema, mas parte da solução para o problema do ceticismo.

- William Lane Craig