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#43

July 13, 2012
Q

Meu nome é Thomas. Atualmente, estou lendo seu livro Time and the Metaphysics of Relativity [O tempo e a metafísica da relatividade] e tenho algumas perguntas a respeito. Antes de tudo, obrigado por ter escrito esse excelente estudo, de leitura agradável e fascinante. Minha pergunta gira em torno da diferença entre a interpretação original de Einstein sobre o RC [Realismo Científico] e a abordagem realista ao formalismo espaçotemporal de Minkowski.

1) O senhor menciona que, na análise realista do formalismo de Minkowski, todos os eventos existem estaticamente num espaço-tempo de quatro dimensões. Como podemos deduzir que a variedade espaço-tempo é temporalmente estática? Conforme o senhor diz nas páginas 74-77, a resposta seria porque, para um observador S que estabelece uma linha de simultaneidade com um dado evento P, algum evento A e outro evento A' serão passado e futuro respectivamente; mas para outro observador que se move relativo a S, o qual estabelece um linha de simultaneidade com P, A e A' serão futuro e passado respectivamente? Se for essa a maneira de deduzirmos que a variedade espaço-tempo é estática, então não deveríamos considerar também o tempo como estático, a interpretação original de Einstein acerca do RC, porque, para um dado sistema de referência, dois eventos A e A' terão localizações temporais diferentes em outro sistema de referência?

2) Em sua argumentação às páginas 30-38 sobre o aspecto convencional da simultaneidade, o senhor afirma que o sistema de sincronização da luz é ad hoc na interpretação original de Einstein, mas é perfeitamente natural no formalismo de Minkowski. Entendo por que tal procedimento é ad hoc na interpretação original de Einstein (temos de assumir que a velocidade unidirecional da luz é constante, mas só conseguimos medir a velocidade de ida e volta), mas não consegui acompanhar seu argumento sobre o porquê de esse procedimento ser perfeitamente natural no formalismo de Minkowski. Seria possível o senhor explicar aqui o seu raciocínio?

Paz,

Thomas

United States

Dr. Craig responde


A

Fico feliz por estar interessado em questões concernentes à filosofia do tempo, Thomas. Como você sabe, entendo que essas questões são relevantes para o modo de entendermos a eternidade divina e a relação de Deus com o tempo.

Para os leitores que não têm o seu conhecimento, permita-me explicar que há três interpretações físicas radicalmente diferentes para as equações matemáticas da Teoria da Relatividade Especial de Einstein, que andam quase sempre juntas, até mesmo nas discussões da teoria em livros didáticos. A interpretação original de Einstein em 1905 era uma teoria de objetos físicos tridimensionais familiares duradouros através do tempo. Einstein sustentava que, para cada sistema de referência do observador em movimento uniforme, está associado um único tempo e espaço, cada um com suas próprias relações de simultaneidade, de sorte que [1] não há como o mundo ser mais abrangente. A interpretação de Lorentz também envolve um mundo de objetos espaciais tridimensionais que continuam existindo ao longo do tempo. Entretanto, ele sustentava que há um tempo e espaço absoluto e abrangente com relações de simultaneidade privilegiadas. O movimento, porém, afeta nossos relógios e padrões de medida de modo que tempo e espaço absolutos estão ocultos para nós. Minkowski propôs uma ontologia diferente: seu mundo é um mundo de objetos quadridimensionais desdobrados não apenas no espaço, mas também no tempo. Na sua visão [2] há como o mundo ser mais abrangente, a saber, a [3] descrição quadridimensional munw a coisa de coordenadas no espaço-tempo.

Portanto, com relação à pergunta (1), a interpretação de Minkowski é temporalmente estática, apenas porque é descrita nos termos de um objeto geométrico quadridimensional denominado de espaço-tempo. Todos os pontos definidos no espaço-tempo existem. As entidades estão situadas no tempo assim como também no espaço. Por essa razão, não há transformação temporal. Tentar reintroduzir a transformação temporal é abandonar o enfoque geométrico e reverter à abordagem de espaço e tempo de Einstein. Logo, não é a relatividade da simultaneidade que leva à interpretação de Minkowski, pois, como você mesmo nota, na interpretação de Einstein a simultaneidade também é relativa. Antes, a diferença diz respeito aos objetos fundamentais da teoria.

Com respeito a (2), você entende minha posição de uma forma um tanto equivocada. A questão, a princípio, é que, dado que o espaço-tempo é minkowskiano, as relações de simultaneidade relativas ao sistema de coordenadas de um observador não são convencionais nem arbitrarias. Uma vez que a interpretação de Einstein é equivalente à de Minkowski, quando expressa na linguagem quadridimensional, o mesmo se aplica à interpretação de Einstein. Mas isso não define que o espaço-tempo é minkowskiano. Se Lorentz estiver certo, então, o espaço-tempo apenas parece ser minkowskiano. Na verdade, porém, a luz não viaja a uma velocidade uniforme relativa a cada observador movendo-se uniformemente. Visto que, do ponto de vista da observação, a interpretação de Lorentz era indistinta da interpretação de Einstein, a alegação deste de que a velocidade unidirecional da luz é constante, era desnecessária.

Logo, a verdadeira disputa aqui é entre Lorentz e Einstein, de um lado, e Minkowski, de outro. Meu argumento é que a interpretação de Einstein, que ele mesmo abandonou logo que teve ciência da formulação quadridimensional de Minkowski, é realmente maluca, portanto a escolha recai mesmo entre Lorentz e Minkowski. Como podemos decidir entre os dois? Bem, se você acreditar, como eu acredito, que o tempo é dinâmico e não estático, então deve optar por Lorentz.

Assim, é uma escolha entre a teoria estática e a teoria dinâmica do tempo. Você acha que a diferença entre passado e futuro é real (na visão dinâmica do tempo) ou é apenas uma ilusão da consciência humana (na visão estática do tempo)? Há questões profundas com consequências de longuíssimo alcance, não apenas para a ciência, mas também para a teologia.

Portanto, defendo que, uma vez que há um mundo temporal, a existência atemporal de Deus só é possível se a visão estática do tempo estiver correta; ao passo que, se a visão dinâmica do tempo estiver certa, Deus existe de modo temporal no tempo absoluto. Por estar plenamente convicto de que a visão dinâmica do tempo está certa, acho que Lorentz de fato estava certo, e, por consequência, Deus existe no tempo.

- William Lane Craig