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#476

February 10, 2017
Q

Primeiro, eu gostaria de agradecer pelo grande trabalho que você está fazendo, e pela grande influência que você tem na vida das pessoas, tanto espiritual quanto intelectualmente.

A minha pergunta não é bem minha; na verdade, eu a encontrei em um dos fóruns do Reasonable Faith, e acho que é uma pergunta muito boa que me intriga desde que surgiu em seu debate com Kevin Sharp. Eu gostaria de saber mais de perto o que você acha sobre a objeção da psicologia divina proposta por Scharp. Segue a pergunta que foi feita no fórum:

Dr. Craig esteve em um debate com Dr. Kevin Scharp no Fórum Veritas. Uma objeção interessante que o Dr. Scharp levantou para o argumento do ajuste fino, é que ele apela para a psicologia divina para apoiar a premissa que a concepção é mais provável que o acaso e a necessidade.

A questão básica foi esta: Dr. Craig em sua objeção à versão probabilística do Problema do Mal diz que já que não podemos confiar na probabilidade de que Deus talvez decida permitir o mal, não estamos garantidos ao afirmar que é improvável que Deus decidiria permitir o mal. Isso quer dizer que não podemos fazer julgamentos prováveis sobre o processo de tomada de decisão de Deus, ou seja, sua psicologia. Portanto, o argumento do problema do mal é falho devido a nossa incapacidade de saber com certeza o que Deus talvez escolha ou não fazer em qualquer situação, i.e., por causa de um apelo a psicologia divina.

Pela mesma razão, o Argumento do Ajuste Fino afirma que acaso e necessidade são menos prováveis que a concepção. Porém, a suposição oculta é que não há um acaso improvável que Deus decidiria ajustar um universo que, de acordo com Dr. Craig, não podemos ter certeza ao afirmar (porque é um apelo a psicologia divina).

Senti que o Dr. Craig falhou em responder isso adequadamente no debate. Tudo o que ele disse foi que Deus poderia ter boas razões para conceber o universo, e que esse é o fardo de prova dos ateístas mostrar que isso é menos provável que o acaso e a necessidade. Mas claro que é a pessoa que faz a afirmação que tem o fardo de provar, nesse caso o que propõe o Argumento do Ajuste Fino. Só porque um deus poderia ter tido boas razões para conceber o universo, não mostra que é mais provável que o acaso (afinal de contas, um deus também poderia NÃO ter uma razão para conceber o universo, fazendo a probabilidade menor que o acaso).

Eu ainda tenho que ouvir uma boa recusa dessa objeção. Alguém pode fazer um trabalho melhor que Dr. Craig nesse debate”?

Obrigada pelo seu tempo.

Samuel

Brasil

Brazil

Dr. Craig responde


A

Primeiro, eu gostaria de agradecer pelo grande trabalho que você está fazendo, e pela grande influência que você tem na vida das pessoas, tanto espiritual quanto intelectualmente.

A minha pergunta não é bem minha; na verdade, eu a encontrei em um dos fóruns do Reasonable Faith, e acho que é uma pergunta muito boa que me intriga desde que surgiu em seu debate com Kevin Sharp. Eu gostaria de saber mais de perto o que você acha sobre a objeção da psicologia divina proposta por Scharp. Segue a pergunta que foi feita no fórum:

Dr. Craig esteve em um debate com Dr. Kevin Scharp no Fórum Veritas. Uma objeção interessante que o Dr. Scharp levantou para o argumento do ajuste fino, é que ele apela para a psicologia divina para apoiar a premissa que a concepção é mais provável que o acaso e a necessidade.

A questão básica foi esta: Dr. Craig em sua objeção à versão probabilística do Problema do Mal diz que já que não podemos confiar na probabilidade de que Deus talvez decida permitir o mal, não estamos garantidos ao afirmar que é improvável que Deus decidiria permitir o mal. Isso quer dizer que não podemos fazer julgamentos prováveis sobre o processo de tomada de decisão de Deus, ou seja, sua psicologia. Portanto, o argumento do problema do mal é falho devido a nossa incapacidade de saber com certeza o que Deus talvez escolha ou não fazer em qualquer situação, i.e., por causa de um apelo a psicologia divina.

Pela mesma razão, o Argumento do Ajuste Fino afirma que acaso e necessidade são menos prováveis que a concepção. Porém, a suposição oculta é que não há um acaso improvável que Deus decidiria ajustar um universo que, de acordo com Dr. Craig, não podemos ter certeza ao afirmar (porque é um apelo a psicologia divina).

Senti que o Dr. Craig falhou em responder isso adequadamente no debate. Tudo o que ele disse foi que Deus poderia ter boas razões para conceber o universo, e que esse é o fardo de prova dos ateístas mostrar que isso é menos provável que o acaso e a necessidade. Mas claro que é a pessoa que faz a afirmação que tem o fardo de provar, nesse caso o que propõe o Argumento do Ajuste Fino. Só porque um deus poderia ter tido boas razões para conceber o universo, não mostra que é mais provável que o acaso (afinal de contas, um deus também poderia NÃO ter uma razão para conceber o universo, fazendo a probabilidade menor que o acaso).

Eu ainda tenho que ouvir uma boa recusa dessa objeção. Alguém pode fazer um trabalho melhor que Dr. Craig nesse debate”?

Obrigada pelo seu tempo.

Samuel

Brasil

Answer:

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Como eu ressaltei no tempo, o diálogo com Kevin Scharp é uma coleção valiosa de assuntos interessantes para discussão. Consulte a transcrição que foi postada. Obrigado pela oportunidade de discutir um desses assuntos, a objeção dele da psicologia divina.

O que o quer dizer “psicologia divina” nesse contexto? Refere-se a suposições pensadas sobre o que Deus provavelmente faria em uma certa situação. E como tal, é irrepreensível. Sempre fazemos tais suposições sobre pessoas. Por exemplo, eu acho muito provável que se Hillary Clinton for eleita Presidente dos Estados Unidos, ela apontaria um Tribunal Supremo de Justiça que é bem mais para a esquerda, longe de Antonin Scalia. Eu não poderia dizer especificamente quem ela apontaria, mas eu acredito que é uma aposta bem segura que, seja quem for que ela escolha, ele seria bem mais liberal que Scalia. Claro que quanto mais conhecemos a pessoa, melhor serão feitas as nossas suposições pensadas. Eu tenho menos certeza que tipo de justiça Donald Trump apontaria se for eleito! Ainda assim, dado o que sei sobre a política atual, eu diria que não é improvável que ele aponte um conservador para o Tribunal. Obvio que esses tipos de suposições não designam valores de probabilidade específicos para as ações, mas ficam contentes com a vaga aproximação. A questão será se podemos ou não fazer tais suposições pensadas sobre certas ações de Deus.

Agora, acredito que é claro que, contrário ao que Kevin Scharp diz, a psicologia divina não tem um papel na maioria dos argumentos que eu defendi para a existência de Deus. Mas tem um papel no argumento de concepção a partir do Ajuste Fino, como reconheço no nosso diálogo. Isso é porque eu afirmei que dada uma improbabilidade incompreensível do ajuste fino sobre o ateísmo, é uma aposta segura de que o ajuste fino é mais provável sobre o teísmo (ou concepção) do que sobre o ateísmo. Robin Collins, o melhor expoente do argumento do ajuste fino hoje, está completamente ciente do papel da psicologia divina no argumento e fala sobre isso em seu artigo na Blackwell Companion for Natural Theology [Companhia Blackwell para a Teologia Natural], que eu recomento para todos aqueles interessados nesse assunto.

Collins argumenta que, dada a existência dos agentes conscientes personificados (Vida) e o nosso histórico de informações k’ (incluindo as leis da natureza), o teísmo é mais provável que o ateísmo [P (Teísmo) | Vida e k’) > P (Ateísmo | Vida e k) ]. A chave para esse argumento é avaliar as probabilidades comparativas da Vida em relação ao teísmo e o histórico de informação [P (Vida | Teísmo e k’) ] em oposição a Vida em relação ao ateísmo e o histórico de informação [P (Vida | Ateísmo e k’) ].

A primeira questão a notar sobre a formulação de Collins do argumento é que não exige que nós designemos uma probabilidade hipotética de Deus estar criando um universo com Ajuste Fino [P (AF | Teísmo e k’) ]. Em vez disso, é pedido que se designe uma probabilidade para a existência de agentes conscientes personificados (Vida), dada a existência de Deus e as leis da natureza descritas em k’. Assim, não é preciso se preocupar com a probabilidade de que Deus criaria um universo com Ajuste Fino; essa probabilidade não tem um papel na formulação de Collins do argumento.

A segunda questão a notar é que o argumento de Collins não requer que seja provável que Deus criaria um universo com Vida. Pelo contrário, a afirmação de Collins é que, não importa quão baixa seja a probabilidade designada a Vida em relação ao teísmo e as leis da natureza, ela não será tão baixa quanto a probabilidade da Vida sobre o ateísmo e as leis da natureza. Ou seja, P (Vida | Teísmo e k’) >> P (Vida | Ateísmo e k’). Me parece que essa questão é eminentemente razoável, senão óbvia. A improbabilidade da Vida dado o ateísmo e as leis da natureza é inconcebivelmente grande; eu acho que as pessoas às vezes se tornam dormentes em relação as probabilidades e esquecem que nós estamos falando de números incompreensíveis. Por outro lado, se Deus existe, eu não vejo razão para pensar que seria improvável que Ele deveria criar Vida, muito menos improvável que a Vida sobre ateísmo e as leis da natureza. Como eu disse no diálogo, Deus poderia muito bem ter boas razões para criar um universo com agentes conscientes personificados – por exemplo, que eles talvez cheguem a saber o bem maior de uma relação pessoal com Deus. A bola agora está no tribunal do ateísta: ele precisa nos dar alguma razão para pensar que tal suposição é absurdamente improvável. Mas ele não pode fazer isso.

Assim, o apelo para a psicologia divina no argumento do ajuste fino é bem minimalista. O argumento não afirma que é provável que Deus criaria um universo com ajuste fino, ou até mesmo que Deus criaria um universo com Vida. Somente diz que a probabilidade de Vida, dado que Deus existe, é absurdamente pequena. Essa afirmação é justificada a luz das possíveis razões de que Deus talvez quisesse um universo com Vida. Não precisamos afirmar que sabemos quais são essas razões, mas somente que não é absurdamente improvável que Ele tenha tais razões.

Mas, se permitirmos esse apelo a psicologia divina no argumento do ajuste fino, isso acabará com a minha resposta para a versão probabilística do problema do mal, como Kevin Scharp disse? Não, de maneira nenhuma, pois a minha resposta para o problema do mal não é baseada, como Scharp imaginou, no ceticismo sobre a psicologia divina, uma incapacidade da nossa parte de dizer o que Deus faria. Veja a minha discussão do problema em Filosofia e Cosmovisão Cristã. Lá eu afirmo três pontos:

1. Em relação ao objetivo total da evidência, a existência de Deus é provável.

2. Nós não estamos em posição de avaliar, com certeza, a probabilidade de que Deus não tem razões morais suficientes para permitir o mal que acontece.

3. O teísmo cristão envolve doutrinas que aumentam a probabilidade da coexistência de Deus e do mal.

Nenhum desses pontos se apoia no ceticismo sobre a psicologia divina.

O ponto 1 é um apelo aos argumentos da teologia natural, que sobrepõe qualquer improbabilidade de que o mal talvez jogue sobre a existência de Deus.

O ponto 2 não é baseado na nossa ignorância da psicologia divina, mas na nossa limitação cognitiva, tal como o nosso confinamento no espaço e tempo, que previne o nosso discernimento de resultados de eventos específicos. Como eu escrevi:

O assassinato brutal de um inocente, ou a morte de uma criança com leucemia, poderia mandar um efeito dominó pela história para que a razão moral suficiente de Deus para permitir isso não surja até séculos depois ou talvez em outro pais [...], isso não é um apelo ao mistério, mas é para apontar para as limitações cognitivas inerentes que frustram tentativas de dizer que é improvável que Deus tenha uma razão moral suficiente para permitir um mal específico. Ironicamente, em outros contextos, os que não creem reconhecem essas limitações cognitivas. Por exemplo, uma das objeções mais prejudiciais à teoria ética utilitária, é a de que é simplesmente impossível que nós estimemos que ações possamos tomar para que nos leve para a maior quantidade de felicidade ou prazer no mundo. Por causa da nossa limitação cognitiva, as ações que podem parecer desastrosas em um período curto, talvez levem para um bem maior, enquanto que um benefício por um curto período pode levar à miséria. Uma vez que contemplamos a providência de Deus sobre toda a história, se torna evidente o quão sem esperança é, para os observadores limitados, especular sobre a probabilidade de Deus ter razões morais suficientes para o mal que nós vemos. Nós simplesmente não estamos em posição de avaliar tais probabilidades com certeza”.

Esse apelo para as nossas limitações cognitivas não tem nada a ver com a psicologia divina, assim como a crítica das éticas utilitárias. Dr. Scharp simplesmente não entendeu a questão.

O ponto 3 apropria a ideia de Marilyn Adams de que a probabilidade do mal talvez seja maior em relação ao teísmo, com a adição de algumas hipóteses auxiliares, do que é em relação a somente o teísmo [ P (Mal | Teísmo + hipóteses auxiliares) > P (Mal | Teísmo) ]. Eu ofereço quatro hipóteses auxiliares que são parte do teísmo cristão, incluindo o plano de Deus de levar as pessoas a conhecer Deus. Eu dou até evidência empírica de que o mal de fato contribui para um maior conhecimento de Deus. Então o mal se torna menos improvável sobre o teísmo cristão do que sobre um tipo de teísmo sem substância. Para ter certeza, a adição dessas hipóteses auxiliares ao teísmo fará o teísmo cristão menos provável que o teísmo simples; mas eu ofereço um caso probatório robusto para a verdade do teísmo cristão. Então o ateísta tem que mostrar, ou que o meu caso para o teísmo cristão é falho ou que o mal é improvável mesmo dada as minhas hipóteses auxiliares, no qual afirmo que ele não pode fazer.

Eu creio que você pode ver que a minha resposta para a versão probabilística do problema do mal não apela para a nossa incapacidade de “fazer julgamentos prováveis sobre o processo de tomada de decisão de Deus, ou seja, sua psicologia”.

Então, fazer suposições pensadas sobre o que Deus faria é um esforço legítimo, não importa quão vagas sejam as nossas conclusões. Tal esforço tem um papel modesto e irrepreensível no argumento a partir do ajuste fino, e a minha resposta a versão probabilística do problema do mal não está apoiada na objeção da psicologia divina.

- William Lane Craig