Doutrina do Espírito Santo (Parte 4): O Espírito Santo na nova aliança
April 02, 2023Contraste entre o Antigo e o Novo Testamento
Andamos pensando no papel do Espírito Santo na antiga aliança e, agora, queremos comparar esse papel com o do Espírito Santo na nova aliança. A melhor forma de fazê-lo talvez seja por meio de uma linha do tempo. Imaginemos uma linha do tempo em que o lado esquerdo represente a aliança do Antigo Testamento e o lado direito seja o Novo Testamento. A divisão entre os dois estaria na cruz de Cristo. Jesus disse, na última ceia, que ele estava inaugurando uma nova aliança no seu sangue. Foi a aliança profetizada pelo profeta Jeremias. Assim, a transição entre a antiga e a nova aliança ocorre com a morte de Cristo, mas os efeitos de tal transição não são imediatos. Há um período transicional após a cruz, descrito no livro de Atos, onde se tem a transição do velho para o novo.
O versículo central aqui é Atos 1.8. Ali, Jesus diz: “Mas recebereis poder quando o Espírito Santo descer sobre vós; e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra”. Jesus descreve a concessão do Espírito Santo à igreja do Novo Testamento numa série progressiva de eventos, começando em Jerusalém e Judéia e, em seguida, Samaria e, então, nos confins da terra, que seria o mundo gentílico.
No livro de Atos, vê-se esta progressão a desdobrar-se. Por exemplo, em Atos, capítulo 2, tem-se o cumprimento da promessa a Jerusalém e à Judeia, onde, no Pentecoste, o Espírito Santo foi dado aos discípulos. Então, em Atos, capítulo 8, tem-se a dádiva do Espírito Santo aos samaritanos, que eram de meia estirpe. Eram uma mistura de povo judeu com não-judeu, ou seja, híbridos entre os judeus e os gentios. Então, enfim, em Atos, capítulo 10, 11 e 19, tem-se a dádiva do Espírito Santo aos gentios, tal qual a casa de Cornélio, o centurião romano, bem como certos discípulos efésios de João Batista que Paulo encontra em Atos 19.
Assim, no livro de Atos, vê-se esse cumprimento da promessa de Atos 8 a desdobrar-se progressivamente: primeiro, Jerusalém e Judeia; depois, Samaria; e, por último, povos não-judeus, os gentios.
Na antiga aliança, o ponto focal do Espírito Santo era no templo ou no tabernáculo, especificamente no Santo dos Santos (ou o lugar santíssimo, o santuário mais interior do templo). Em 2 Crônicas 7.1-3, descreve-se a presença especial de Deus no Santo dos Santos no templo.[1]
Quando Salomão terminou de orar, desceu fogo do céu e consumiu o holocausto e os sacrifícios, e a glória do SENHOR encheu o templo. Os sacerdotes não podiam entrar no templo do SENHOR, porque a glória do SENHOR havia enchido o templo. Quando todos os israelitas viram o fogo descer e a glória do SENHOR sobre o templo, prostraram-se no pavimento com o rosto em terra, adoraram o SENHOR e lhe deram graças, dizendo: Porque ele é bom; porque o seu amor dura para sempre.
Aqui, na dedicação do templo de Salomão, a presença do Senhor desceu de modo especial e manifesto para permanecer no templo. Em dado momento, quando a nação de Israel foi julgada por Deus, antes de ele trazer os exércitos babilônicos para conquistarem e destruírem Israel em juízo, o seu Espírito Santo ou santa presença se retirou do templo, abandonando-os aos seus inimigos. Lemos a este respeito em Ezequiel 9.3: “E a glória do Deus de Israel se levantou sobre o querubim, acima do qual estava, e passou para a entrada da casa”. No caso, a glória do Senhor que repousava sobre os querubins dentro do Santo dos Santos — eles sombreavam a arca da aliança, que estava no Santo dos Santos e continha a lei mosaica — saiu do Santo dos Santos, onde repousava sobre os querubins, para a entrada da casa. A presença de Deus estava deixando Israel. Então, em Ezequiel 11.23, lemos: “E a glória do SENHOR se levantou do meio da cidade e se pôs sobre o monte, ao oriente da cidade”. No caso, então, a glória de Deus parte do templo para o monte das Oliveiras. Esta é a montanha ao oriente da cidade. Paulatinamente, a presença de Deus estava deixando Israel e os abandonando ao juízo dos seus inimigos, enquanto as hordas babilônicas vinham destruir Israel.
A presença de Deus não repousava, simplesmente, no tabernáculo ou no templo; havia unções especiais do Espírito Santo que vinham sobre indivíduos para tarefas específicas, como a profecia. Por exemplo, leiam 1 Pedro 1.10-11. Pedro diz:
Foi essa salvação que os profetas examinaram e dela procuraram saber com cuidado, profetizando sobre a graça destinada a vós, indagando qual o tempo ou ocasião que o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava ao predizer os sofrimentos que sobreviriam a Cristo e a glória que viria depois desses sofrimentos.
No caso, Pedro diz que, quando esses profetas falavam da vinda do Messias, era o Espírito de Cristo com eles que lhes dava o oráculo, que lhes dava este conhecimento e estas profecias.
Assim, o Espírito Santo permanecia no templo, no Santo dos Santos, de maneira especial, mas, então, também ungia as pessoas para atos especiais, como a profecia.
No Novo Testamento, o que corresponde ao templo? Já que o templo judaico foi destruído, Deus não habita mais no templo. Antes, de acordo com o Novo Testamento, o templo do Espírito Santo é o crente individualmente. Somos o templo do Espírito Santo. E o que torna a transição entre os dois é chamado de batismo do Espírito Santo.[2] Em virtude de sermos batizados pelo Espírito Santo, nós nos tornamos a habitação do Espírito Santo, o equivalente, por assim dizer, ao templo na velha aliança. Por isso, temos, por exemplo, afirmações como 1 Coríntios 6.19-20. Paulo diz: “Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Pois fostes comprados por preço; por isso, glorificai a Deus no vosso corpo”. No caso, Paulo indica que os nossos corpos são, agora, templos do Espírito Santo, habitados por ele.
O mesmo é ensinado no livro de Hebreus. Em Hebreus 3.5=6, o autor diz: “Moisés, como servo, foi fiel em toda a casa de Deus para testemunho das coisas que seriam anunciadas, mas Cristo, como Filho, é fiel sobre a casa de Deus, casa que somos nós, se conservarmos firmes até o fim a nossa confiança e a glória da esperança”. Aqui, assim como Moisés foi fiel sobre a casa de Deus, no Antigo Testamento, Cristo é fiel sobre a casa de Deus, e somos a sua casa. Somos a casa de Deus agora que ele habita em nós como seu templo.
Pelo fato de ser o batismo do Espírito Santo o que forma a transição entre os dois, leiam versículos como Lucas 3.16. É a pregação de João Batista antes do advento de Jesus.
João disse a todos: “Eu vos batizo com água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”.
João realizava o batismo com água, mas predisse alguém que estava vindo após si, que batizaria as pessoas com o Espírito Santo.
Abram em Atos 1.4-5 para verem o cumprimento da profecia de João Batista. Agora, foi Jesus quem...
... ordenou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem “a promessa do Pai, a qual”, disse ele, “de mim ouvistes. Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias”.
Então, temos, no Pentecoste, o cumprimento disto no capítulo 2, quando o Espírito Santo vem e repousa nos discípulos, e eles falam em outras línguas.
Duas outras referências ao batismo do Espírito Santo. Em Atos 11.15-16, Pedro está descrevendo a sua experiência na pregação do evangelho à casa de Cornélio:
Logo que eu comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como também sobre nós no princípio. Lembrei-me então da palavra do Senhor, que disse: “João, na verdade, batizou com água; mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”.
Pedro, então, pensa na experiência de Cornélio e da sua casa como se fosse a mesma experiência que ele e os discípulos tiveram no Pentecoste. É o batismo do Espírito Santo.[3]
Por fim, 1 Coríntios 12.13: “Pois todos fomos batizados por um só Espírito para ser um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. De acordo com este versículo, é pelo batismo do Espírito Santo que somos incorporados no corpo de Cristo, que nos tornamos parte da sua igreja, parte do seu corpo.
Assim, o batismo do Espírito Santo é o que torna a pessoa um templo de Deus, habitado pelo Espírito Santo. Quando se atenta para o desenrolar do livro de Atos, vê-se que isto acontece progressivamente, ao longo do tempo. Primeiro, Jerusalém e Judeia (como em Pentecoste, os discípulos são batizados no Espírito Santo); então, em Atos, capítulo 8 (samaritanos recebem o batismo do Espírito Santo); e, então, por último, em Atos 10 e 11, aparecem gentios que são batizados no Espírito Santo e também se tornam parte do corpo de Cristo.
DISCUSSÃO COMEÇA
Aluno: O que o senhor pensa desse versículo (acho que disse ser Ezequiel 11) para o Espírito Santo a ir até o monte das Oliveiras e pôr-se de pé ali. É uma espécie de antropomorfismo?
Dr. Craig: Deixe-me ver de novo. Ezequiel 11.23: “E a glória do SENHOR se levantou do meio da cidade e se pôs sobre o monte, ao oriente da cidade”. Entendo que se trata de uma espécie de manifestação visível. Suponho que seja luz — algum tipo de luminescência — da glória de deus. É o que glória costuma indicar: uma espécie de luminescência ou brilho. Por isso, haveria esta espécie de brilho que, segundo entendo, deixou o templo, foi ao monte das Oliveiras e, então, ascendeu ao céu ou desapareceu.
Aluno: Talvez a palavra hebraica que usam para “pôr-se de pé” signifique algo como “ficou”, e não “se pós de pé”.
Dr. Craig: Acho que não significa, necessariamente, “pôr-se de pé” em duas pernas. Mesmo no vernáculo, podemos usar a expressão em diversos sentidos. Por isso, não, acho que não há nenhuma sugestão de que seja a forma de uma figura humana.
Aluno: Mas acha que era mais visível, da mesma forma em que a nuvem ou a coluna de fogo foram antes?
Dr. Craig: Sim, ainda seria visível, na minha opinião.
Aluno: Acha que a igreja foi estabelecida antes ou depois da ressurreição de Cristo?
Dr. Craig: Acho que vai depender do que se pretenda com “a igreja”. Não quero excluir os fiéis do Antigo Testamento da sua participação na igreja, no sentido em que eram os primeiros estágios dela. Formam parte da comunidade de Deus, parte do povo de Deus. Se pensarmos na igreja como o povo de Deus, seriam incluídas as pessoas do Antigo Testamento, bem como os crentes pós-Pentecoste. Entendida de modo amplo, penso que ela inclua os dois grupos de pessoas.
Aluno: Não vale a pena ser dogmático na questão, mas já vi pessoas escolherem os dois lados. Há quem diz que a igreja foi estabelecida em Pentecoste, mas fico meio que me perguntando se ela não foi estabelecida antes, porque, se olharmos a confissão que Pedro fez de Cristo, em Mateus 16, Cristo se vira para Pedro e diz: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Acha que a igreja foi estabelecida ali ou após o Espírito Santo ter sido, de fato, dado a todos os crentes?
Dr. Craig: Acho que só repetiria o que disse. Penso na igreja em termos muito amplos, como o povo de Deus, os redimidos, os que têm a salvação. E isto, sem dúvida, inclui os crentes do Antigo Testamento, antes dos tempos de Cristo, que não tinham o Espírito Santo como possessão permanente. Sem dúvida, a igreja pós-Pentecoste está equipada e dotada de um modo que o povo de Deus não estava antes. Mas aí, quando se pensa nas imagens de Paulo sobre a igreja, como em Romanos, com a oliveira e os seus ramos bravos enxertados no tronco da oliveira mansa e como os ramos podiam ser quebrados de novo e outros ramos podiam ser enxertados, tudo parece ser a mesma árvore, a mesma entidade. Ele pensa, porém, nos gentios como enxertados na oliveira que representa Israel, o povo de Deus do Antigo Testamento. Entendo como algo ininterrupto, mas com diferentes estágios no seu desdobramento e desenvolvimento.
DISCUSSÃO TERMINA
O que queremos investigar com mais detalhes, agora, será o batismo do Espírito Santo, uma vez que se trata de questão que causa tremenda confusão na igreja contemporânea, em decorrência dos movimentos pentecostal e carismático. Creio, porém, que será melhor deixar para a próxima vez e, por isso, vamos acabar mais cedo hoje. Aqui é um bom lugar para encerrar. Continuaremos com mais detalhes, da próxima vez, com a natureza do batismo do Espírito Santo, de que falamos brevemente aqui.[4]