English Site

Doutrina do Espírito Santo (Parte 5): O batismo no Espírito Santo

April 02, 2023

Batismo e plenitude do Espírito Santo

Hoje, queremos pensar no batismo e plenitude do Espírito Santo. Há grande confusão em círculos protestantes em relação ao batismo do Espírito Santo, porque certos cristãos pentecostais e carismáticos afirmam que o batismo do Espírito Santo é uma segunda obra da graça na vida do crente que o leva a uma experiência mais plena e profunda do Espírito Santo. Creem que, quando a pessoa vira cristã, ela é habitada pelo Espírito, mas não batizada no Espírito Santo. A fim de chegar a esse caminhar mais profundo com Deus, é preciso ter uma segunda obra da graça — uma segunda experiência do Espírito Santo — chamada de batismo do Espírito Santo, com frequência acompanhada pelo falar em línguas, que iniciará a pessoa nesse caminhar mais profundo no Espírito.

Penso que esta visão está completamente errada. Parece-me que as Escrituras são relativamente claras que o batismo do Espírito Santo não é uma segunda obra da graça, mas obra iniciatória do Espírito, por meio da qual somos colocados no corpo de Cristo. É mediante o batismo do Espírito Santo que somos habitados pelo Espírito e feitos membros do corpo de Cristo. Primeira Coríntios 12.13 parece deixar isto bem claro: “Pois todos fomos batizados por um só Espírito para ser um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. Aqui, o batismo do Espírito Santo é a experiência universal da igreja, o ato iniciatório pelo qual somos colocados no corpo de Cristo.

Os carismáticos costumam apelar para as histórias no livro de Atos para mostrar que o batismo do Espírito Santo não é ato iniciatório, mas uma segunda obra da graça. Porém, de fato, um exame detido dessas histórias no livro de Atos revela que, em cada caso, trata-se de uma experiência inicial do Espírito Santo a ser descrita, e não de uma segunda experiência. Por exemplo, em Atos 2, tem-se a história do Pentecoste, em que o dom do Espírito Santo é dado à igreja em Jerusalém e Judeia. Constitui-se um batismo inicial no Espírito Santo que deviam esperar. Não deviam deixar Jerusalém até que recebessem este batismo no Espírito Santo. Então, em Atos 8, tem-se a história do modo em que o Espírito Santo é dado aos crentes samaritanos. Mais uma vez, uma leitura detida do capítulo 8 indica que não tinham o Espírito Santo até que foram batizados no Espírito Santo. Então, em Atos 10 e 11, tem-se a história de Cornélio e sua casa, em que o Espírito Santo agora é dado aos gentios. E, ainda mais uma vez, trata-se claramente de ato inicial do Espírito Santo nas vidas de Cornélio e sua casa. Pedro diz que o Espírito Santo veio sobre eles da mesma maneira em que o fez no Pentecoste, no começo. Em seguida, em Atos 19, tem-se esta história bem estranha dos discípulos efésios de João Batista que Paulo encontra e dizem não terem sequer ouvido que existe o Espírito Santo. Paulo, então, batiza-os no Espírito Santo e eles, igualmente, tornam-se cristãos.

Assim, embora o batismo do Espírito Santo, nestes atos, esteja relacionado de modos distintos ao batismo nas águas (ora a precedê-lo, ora a acontecer, de fato, após o batismo nas águas), fica claro que, em todos os casos, as pessoas que experimentam o batismo do Espírito Santo experimentam um ato inicial do Espírito Santo, e não uma espécie de ato secundário da graça que os coloca num caminhar mais profundo com Cristo.

Por isso, é mediante o Espírito do Espírito Santo que somos colocados no corpo de Cristo, regenerados, nascidos de novo para uma nova vida e habitados pelo Espírito Santo.[i] Cada crente tem o Espírito Santo a habitar dentro de si. Romanos 8.9-10:

Vós, porém, não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. (Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo.) Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o Espírito é vida por causa da justiça

Assim, é a presença do Espírito Santo que faz a diferença em ser a pessoa cristã ou não. É a presença do Espírito Santo que torna a pessoa um membro do corpo de Cristo e um cristão.

Em 1 Coríntios 3.16 também, Paulo diz: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o seu Espírito habita em vós?”. O Espírito Santo é a possessão permanente de todo fiel. É ele o que nos torna regenerados, o que nos torna cristãos. Quem quer que não tenha o Espírito Santo não lhe pertence, não sendo cristão.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Não estou dizendo que tudo que o senhor disse esteja errado. Só estou dizendo que há, provavelmente, algo mais. Há algumas coisas na minha mente que não são claras, como: qual é a diferença entre ser cristão e a sua caminhada na plenitude? O que é a santificação, se ela não é mais do que o batismo? Igualmente, lembrem-se que, do outro lado, está toda a nação de Israel batizada no Espírito, quando passaram pela nuvem ao saírem do Egito. Também é Cristo. E o que dizer de Filipe? Quando creram, estavam dizendo que não esperavam e se arrependeram de verdade, e tiveram que ser batizados de novo. Há muito mais em jogo. Não estou dizendo que a posição pentecostal extrema não esteja errada; só estou dizendo que não pode ser algo tão simples assim: há mais em jogo.

Dr. Craig: Isto forma uma boa ponte para o meu próximo ponto, que será sobre a plenitude do Espírito Santo. Ainda assim, neste caso específico dos samaritanos, parecia que precisavam ter a ratificação dos apóstolos de Jerusalém a fim de receberem o Espírito Santo, e não o tinham recebido ainda até que os apóstolos vieram e lhes impuseram as mãos.

DISCUSSÃO TERMINA

Embora todo cristão seja batizado e habitado pelo Espírito Santo, nem todo cristão é cheio do Espírito Santo. Há uma diferença significativa entre ser habitado com o Espírito Santo e ser cheio do Espírito Santo. Leiam 1 Coríntios 2.14—3.3. Paulo diz:

O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não pode entendê-las, pois se compreendem espiritualmente. Mas aquele que é espiritual compreende todas as coisas, ao passo que ele mesmo não é compreendido por ninguém. Pois, quem jamais conheceu a mente do Senhor para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.

Irmãos, não vos pude falar como a pessoas espirituais, mas como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo. O que vos dei para beber foi leite, e não alimento sólido, pois não podíeis recebê-lo, nem mesmo agora podeis, porque ainda sois carnais. Visto que há inveja e discórdias entre vós, por acaso não estais sendo carnais, vivendo segundo padrões puramente humanos?

Então, em 1 Coríntios 3.11-15 também, Paulo diz:

Porque ninguém pode lançar outro alicerce, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se o que alguém constrói sobre esse alicerce é ouro, prata, pedra preciosa, madeira, feno ou palha, a obra de cada um se manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será revelada pelo fogo, e o fogo testará a obra de cada um.[ii] Se a obra que alguém construiu permanecer, este receberá recompensa. Se a obra de alguém se queimar, este sofrerá prejuízo, mas será salvo, como alguém que passa pelo fogo.

Aqui, Paulo parece descrever pessoas cristãs, mas ainda dominadas pela carne, ou seja, a natureza humana decaída. Ele as chama de carnais. Ele diz que as suas obras não são como ouro, prata e pedras preciosas que resistirão ao teste, mas são como madeira, palha e feno que serão queimados e destruídos, embora as pessoas venham a ser salvas. O que Paulo parece contemplar aqui seriam três diferentes tipos de pessoas. Há o homem natural que é irregenerado. Ele não tem o Espírito Santo. Ele vive no poder da carne, da natureza humana decaída. Em seguida, há o homem espiritual. Este é o cristão regenerado que vive no poder do Espírito Santo. E, então, há esse homem carnal, o homem da carne, que é regenerado (tem o Espírito Santo), mas ainda vive no poder da carne, da natureza humana decaída, e, por isso, é imaturo e experimenta a futilidade.

Observe qual é o sinal ou prova do homem espiritual. Não são os dons carismáticos. A igreja em Cristo exibia toda espécie de dons carismáticos, não é mesmo? Falar em línguas, milagres, outros tipos de fenômenos carismáticos. Ainda assim, é a igreja mais carnal no Novo Testamento. As pessoas se embriagavam durante a ceia do Senhor. Um homem vivia em relação incestuosa com a sua mãe. A igreja estava cheia de contendas, inveja e partidarismo. Assim, embora os dons carismáticos fossem muito abundantes e evidentes em Corinto, não era uma igreja que vivia sob a direção e poder do Espírito Santo. Por isso, o sinal da pessoa espiritual não são dons carismáticos. Antes, é o fruto do Espírito Santo, que se dá na vida da pessoa no lugar das obras da carne. Foi o que vimos quando lemos Gálatas 5.16-25, onde Paulo diz:

Mas eu afirmo: Andai pelo Espírito e nunca satisfareis os desejos da carne. Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne. Eles se opõem um ao outro, de modo que não conseguis fazer o que quereis. Mas, se sois guiados pelo Espírito, já não estais debaixo da lei. As obras da carne são evidentes, a saber: imoralidade, impureza e indecência; idolatria e feitiçaria; inimizades, rivalidades e ciúmes; ira, ambição egoísta, discórdias, partidarismo e inveja; bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas, contra as quais vos previno, como já vos preveni antes: Os que as praticam não herdarão o reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, amabilidade e domínio próprio. Contra essas coisas não existe lei. Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne juntamente com suas paixões e desejos. Se vivemos pelo Espírito, andemos também sob a direção do Espírito.

Assim, as provas da vida cheia do Espírito não são os dons carismáticos ou o falar em línguas. As provas da vida cheia do Espírito será o fruto do Espírito Santo que é produzido na vida da pessoa, em vez das obras da carne.

Infelizmente, como vimos, nem todos os cristãos experimentam a plenitude do Espírito Santo.[iii] O que significa ser cheio do Espírito Santo? Penso que significa não ser só habitado pelo Espírito, mas capacitado e controlado pelo Espírito Santo. Se dissermos que alguém está cheio de raiva ou inveja, dizemos que a pessoa está controlada e possuída dessa ira ou dessa inveja. Da mesma maneira, quando Paulo diz para sermos cheios do Espírito Santo, ele nos está orientando a sermos controlados e capacitados pelo Espírito Santo, de tal modo que ele produza nas nossas vidas o fruto do Espírito Santo conforme descrito em Gálatas.

Quando nos reunirmos da próxima vez, quero fazer a seguinte pergunta: por que é que tão poucos cristãos parecem ser cheios do Espírito Santo? Por que é que tantos cristãos parecem viver vidas de derrota, frustração e miséria? E como, então, podemos ser cheios do Espírito Santo, a fim de vivermos na plenitude do seu poder e controle? É isto que veremos da próxima vez.[iv]

 

[i] 5:16

[ii] 10:12

[iii] 15:00

[iv] Duração total: 16:54 (Copyright © 2016 William Lane Craig)