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#782

July 21, 2022
Q

Dr. Craig,

Obrigado por sua vida de serviço e ministério contínuo. Gostei do seu livro Atonement and the Death of Christ [Expiação e a morte de Cristo], mas queria fazer uma pergunta: por causa do sangue de Cristo, será que os nossos pecados são simplesmente cobertos, ou será que eles se vão? Seria uma questão de ser alguém aos olhos de Deus, mas ser outro alguém aos olhos do homem? Ou seria em determinado sentido antes de Cristo, mas em sentido diferente desde Cristo?

Obrigado.

Mark

United States

Dr. Craig responde


A

Reveja o que digo em Atonement and the Death of Christ [Expiação e a morte de Cristo] sobre o duplo propósito da expiação, no capítulo 2, sobre sacrifício. Os sacrifícios animais prescritos no Antigo Testamento serviam ao propósito duplo de expiar o pecado e propiciar a Deus. A sua pergunta diz respeito à primeira função, a expiação do pecado. Como é que devemos entender a expiação?

Costumava-se pensar que a palavra hebraica para “expiar”, kippēr, tinha o sentido de “cobrir”, indicando que o sangue do sacrifício cobria o pecado e a impureza do ofertante. No entanto, tal visão já foi abandonada pelos estudiosos de Antigo Testamento. Antes, conforme explica o destacado comentarista judaico Jacob Milgrom, o sentido de kippēr é “purgar, limpar”. Milgrom diz: “No caso, o sentido é que o ofertante é limpo das suas impurezas/pecados, tornando-se reconciliado, ‘adunado’, com Deus”.[i]

O ritual expiatório, por excelência, no Antigo Testamento eram os sacrifícios anuais em Yom Kippur (Dia da Expiação), realizado em favor de toda a nação e cobrindo uma gama mais ampla de pecados do que o faziam os sacrifícios pessoais (Levítico 16). A totalidade de pecados, expressa pela descrição tríplice de “a maldade, a transgressão e o pecado” (Êxodo 34.7), é removida do povo (Levítico 6.21). O dia exibia um ritual extraordinário que envolvia a apresentação de um par de bodes, um dos quais era morto em sacrifício e o outro (o chamado bode expiatório) escorraçado para o deserto, carregando os pecados do povo, que haviam sido lançados simbolicamente no bode pelo ritual de imposição de mãos realizado pelo sacerdote. A descrição do ritual do Yom Kippur faz diferenciação entre “[fazer] expiação pelo lugar santíssimo, pela tenda da revelação e pelo altar”” e “[fazer expiação] pelos sacerdotes e por todo o povo da comunidade” (Levítico 16.33). Fazer expiação pelos objetos inanimados é purgá-los de impureza ritual; fazer expiação por pessoas significa expiar os seus pecados. “Porque nesse dia se fará expiação por vós, para vos purificar. Sereis purificados de todos os vossos pecados diante do SENHOR” (16.30). Assim, o sangue do bode sacrificial expia os pecados do povo, ao passo que a expulsão do outro bode simboliza a eficácia do sacrifício em expiar os pecados deles. De acordo com Milgrom, “de fato, o propósito original do bode expiatório, eliminar as impurezas removidas do santuário, foi alterado para acomodar uma nova noção teológica — uma vez por ano, no décimo dia do mês de Tisri, os ritos de purgação do santuário também removem os pecados de Israel”.[ii] Os pecados não são apenas cobertos; eles são removidos.

No Novo Testamento, a morte de Jesus é apresentada, igualmente, como sacrifício expiatório. Em relação à expiação do pecado, o autor de Hebreus reforça o ponto de que, em comparação com os sacrifícios do Antigo Testamento, “que jamais conseguem apagar pecados” (10.11), Cristo, “oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos” (9.28), “[aniquilou] o pecado por meio do sacrifício de si mesmo” (9.26), de modo que “fomos santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez por todas” (10.10). João apresenta Cristo como cordeiro pascal cuja morte é expiatória: “Este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29). Paulo emprega terminologia técnica de Levítico para referir-se a Cristo como “sacrifício pelo pecado” (peri hamartias) (Romanos 8.3), cuja função, como vimos, era expiatória. Aqueles que creem em Cristo, diz ele, são “agora justificados pelo seu sangue” (Romanos 5.9). O justo ato de obediência de Cristo leva à “graça sobre todos os homens para justificação que produz vida. Porque ... pela obediência de um só muitos serão feitos justos” (5.18-19). Por meio do sangue de Cristo, a nossa culpa foi expurgada.

Assim, os nossos pecados não foram meramente cobertos pela morte expiatória de Cristo. Foram removidos; sumiram! Isto é motivo de celebração e louvor![iii]


[i] Jacob Milgrom, Leviticus 1-16, The Anchor Bible (New York: Doubleday, 1991), p. 1083.

[ii] Milgrom, Leviticus 1-16, p. 1023.

[iii] Devo confessar que não consigo entender as suas outras perguntas: “Seria uma questão de ser alguém aos olhos de Deus, mas ser outro alguém aos olhos do homem? Ou seria em determinado sentido antes de Cristo, mas em sentido diferente desde Cristo?”. Em relação à primeira, a expiação é questão de ser feito um só com Deus no sentido de ser reconciliado com Deus. Em relação à segunda, se você está perguntando se o conceito de expiação mudou entre o tempo do Antigo e do Novo Testamento, a resposta é, obviamente, “não”: continua a ser expiação de pecado. Porém, os sacrifícios animais eram pura e simplesmente um arranjo provisório da parte de Deus, uma espécie de cartão de crédito que foi, enfim, pago completamente pela morte expiatória de Cristo.

- William Lane Craig