English Site
back
5 / 06

#784

July 21, 2022
Q

Li uma resposta excelente a uma pergunta sobre o Terceiro Concílio Ecumênico e o monotelismo. A minha questão é a seguinte: se a volição é, de fato, faculdade da pessoalidade, como escaparmos da conclusão de que três pessoas, três vontades, não equivalem ao triteísmo ou três Deuses?

Ken

United States

Dr. Craig responde


A

A sua pergunta, Ken, entrecruza-se com o meu estudo atual sobre a doutrina da Trindade. Para quem não tem conhecimento do contexto, permita-me explicar que o debate entre o ditelismo e o monotelismo diz respeito à questão de ter o Cristo encarnado duas vontades (uma humana e uma divina) ou simplesmente uma única vontade. Uma vez que, como você observa, sustento que a vontade é, propriamente, uma faculdade da pessoa, e não da natureza, creio que só existe uma vontade em Cristo, apesar de ele ter duas naturezas. Isto porque existe uma pessoa que é Cristo, a saber, a segunda pessoa divina da Trindade.

Ora, se afirmarmos uma concepção robusta da pessoa como centro de autoconsciência, intencionalidade e vontade, como penso que deveríamos, segue-se daí que as três pessoas trinitárias terão três vontades. Obviamente, sendo as vontades de três pessoas perfeitas, tais vontades sempre concordarão e estarão em harmonia. Embora haja três atos distintos da vontade, sempre farão a mesma coisa. Afirmo, portanto, um vigoroso trinitarismo social, o que foi denominado de visão dos “três egos” da Trindade, em contraste com a visão de “um ego”, que me parece ser nada mais do que unitarismo velado.

A sua pergunta, então, é esta: se há três egos divinos, a saber, Pai, Filho e Espírito Santo, por que não existem três Deuses? Como evitar o triteísmo? Abordei a questão à exaustão no meu capítulo sobre a Trindade em Filosofia e cosmovisão cristã, 2.ed. rev. (São Paulo: Vida Nova, 2021), e remeto-lhe à discussão presente ali. Proponho um modelo da Trindade segundo o qual Deus é alma incorpórea dotada de três conjuntos de faculdades racionais, cada uma suficiente para a pessoalidade. Deus, portanto, é um ser tripessoal imaterial. Isto me parece uma doutrina bíblica da Trindade que se mostra clara e sem problemas.

Aceitava o rótulo de “monoteísmo da Trindade” sugerido por outros para a visão que eu defendo. Agora, porém, acho tal nomenclatura menos preferível. Isto porque a Trindade é conceito grupal, e não desejo afirmar que Deus seja um grupo. Antes, Deus é um indivíduo, uma substância imaterial e tripessoal. Por isso, penso que a minha perspectiva seja melhor descrita como “monoteísmo tripessoal”.

- William Lane Craig