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#823 A fé é dom do Espírito Santo?

March 06, 2023
Q

Gostei muito do seu curso Defensores 3, Excurso sobre teologia natural. Realmente, é tanto uma bênção espiritual quanto exercício intelectualmente rigoroso. Quando o senhor discutia como as grandes verdades do evangelho podem ser conhecidas como crenças apropriadamente básicas pelo testemunho autoautenticador do Espírito Santo, o que é inconfundível para quem o tem, o versículo que me veio à mente foi Hebreus 11.1: “A fé é a garantia do que se espera e a prova do que não se vê”. Não consigo recordar que o senhor tenha citado este versículo nas suas apresentações, mas será que ele é aplicável, neste caso? A sua discussão do testemunho interno do Espírito Santo descreveu bastante bem a minha experiência wesleyana de salvação. Em algum plano espiritual, Deus testemunhou à minha alma/espírito a verdade do evangelho. A minha fé, baseada neste testemunho interno do Espírito, é a minha substância e prova do evangelho. Ela é, verdadeiramente, um derrotador de todas as dúvidas, argumentos ateístas etc. Iria muito longe dizer que esta fé foi dada de modo sobrenatural pelo Espírito Santo? Será que ele gerou tal fé em mim, ao arrepender-me e abrir-me para recebê-la? Um velho hino que me vem à mente é este: “Não sei como ele me concedeu esta fé salvadora... nem como crer na Sua Palavra gerou paz no meu coração. Não sei como o Espírito se move, convencendo-nos do pecado, revelando Jesus por meio da Palavra, criando fé nEle” [I know not how this saving faith to me He did impart, nor how believing in His word wrought peace within my heart. I know not how the Spirit moves, convincing us of sin, revealing Jesus through the word, creating faith in Him].

Obrigado. Como pastor, consigo fazer referência ao seu trabalho apologético nas minhas aulas dominicais e estudos bíblicos. Por isso, o senhor não abençoou só a mim, mas tem sido um canal de bênçãos a muitos outros.

John

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Obrigado por seu incrível testemunho, pastor! É tão gratificante que o curso Defensores o tenha abençoado e ajudado no seu ministério.

Eu também pertenço à tradição wesleyana, com sua forte ênfase no testemunho e obra do Espírito Santo, e é por isso que acho a chamada epistemologia reformada tão atraente. Parece-me que o Novo Testamento ensina que o testemunho do Espírito de Deus fundamenta a fé cristã de modo apropriadamente básico, sendo derrotador intrínseco dos derrotadores ostensivos trazidos contra ela.

Não vejo, contudo, a relevância imediata de Hebreus 11.1 para a basicalidade apropriada da fé cristã, uma vez que o texto não trata da fundamentação da fé tanto quanto oferece uma definição da fé. Poderíamos ter certeza de coisas a acontecerem no futuro (por exemplo, o retorno de Cristo) ou de coisas que não estão disponíveis aos sentidos no presente (por exemplo, creatio ex nihilo), com base em boas provas (por exemplo, o ensinamento de Cristo ratificado pela sua ressurreição), conforme afirma o evidencialista.

Assim, será que a fé é “dada de maneira sobrenatural pelo Espírito Santo”? É difícil dizer. Obviamente, as Escrituras falam da fé (pistis) como parte do múltiplo “fruto do Espírito” (Gálatas 5.22). Porém, pistis, neste caso, provavelmente não se refere à fé salvadora, mas a uma virtude cristã, e talvez signifique até fidelidade. Efésios 2.8-9 pode ser mais relevante à fé salvadora: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se orgulhe”. No entanto, como touto (isto) é neutro e pistis (fé) é feminino, o antecedente de “isto” não pode ser “fé”, mas é o processo ou arranjo de salvação pela graça mediante a fé que constitui o dom de Deus.

Já que não devemos pensar, com nossos irmãos reformados, que a fé salvadora é o resultado do determinismo divino unilateral, o ato da fé salvadora deve envolver a livre resposta da vontade humana à convicção e a atração exercida pelo Espírito Santo. Este entendimento não torna a fé salvadora uma obra que nós executamos, como alegam os nossos irmãos reformados. Conforme enfatizo no meu curso Defensores, nas aulas sobre Doutrina da Salvação, Paulo consistentemente opõe fé a obras; ele não pensa na fé como uma espécie de obra meritória. A filósofa cristã Eleanore Stump deu boa explicação da relação entre o livre-arbítrio humano e a obra do Espírito Santo na produção da fé salvadora. Segundo a explicação dela, a fé não é sequer um ato positivo da nossa volição para aceitar a graça de Deus, em resposta à convicção e à atração exercida pelo Espírito Santo. Antes, trata-se de ato puramente negativo da cessação da resistência ao Espírito Santo, permitindo-Lhe, portanto, produzir a fé salvadora nos nossos corações. Segundo esta perspectiva, a fé salvadora é operada por Deus, um dom do Espírito Santo, mas não é algo que passa por cima do livre-arbítrio humano.

Por isso, penso que podemos considerar a fé como algo que é dado de maneira sobrenatural pelo Espírito Santo, sem cair no dilema entre o martelo do universalismo e a bigorna de um Deus que é menos do que todo amoroso.

- William Lane Craig