#625 A formulação do argumento do ajuste fino
July 30, 2019Olá, Dr. Craig.
Numa das recentes discussões no fórum de seu site, surgiu uma objeção sobre o raciocínio do argumento do ajuste fino. Basicamente, foi dito que o argumento padece da falácia do promotor.
P1: A ciência mostra que o universo tem ajuste fino para a vida.
P2: Isto se deve ao acaso, à necessidade ou ao projeto.
P3: Não se deve ao acaso nem à necessidade.
C: Logo, deve-se ao projeto.
A objeção é que a probabilidade de acaso e necessidade é tão baixa que o senhor os elimina e adota o projeto, sem sequer considerar a possibilidade/probabilidade do projeto. Argumenta-se também que é possível simplesmente mudar a posição no argumento, mas aí as premissas não seriam justificadas.
P1: A ciência mostra que o universo teve ajuste fino para a vida.
P2: Isto se deve ao acaso, à necessidade ou ao projeto.
P3: Não se deve à necessidade nem ao projeto.
C: Logo, deve-se ao acaso.
O ponto principal da questão é o seguinte: por que não analisamos a probabilidade do projeto, simplesmente a pressupondo?
Deus abençoe.
Luca
Belgium
Dr. Craig responde
A
Luca, obrigado por chamar a atenção de nossos leitores para o fórum livre em nosso site, onde qualquer pergunta está aberta à discussão!
A resposta curta à sua pergunta é que atento, sim, para a probabilidade do projeto, em vez de simplesmente pressupô-la.
O que se precisa entender é que, em meus debates públicos, sempre tento apresentar a formulação mais simples possível do argumento teísta, a fim de facilitar a compreensão e a memorização. O que se vê num debate é apenas a ponta do icebergue. Com frequência, encontro objeções aos meus argumentos que são tratadas em minhas publicações. Infelizmente, pouquíssimas pessoas se dão ao trabalho de ir além do YouTube e ler o que escrevi sobre o assunto.
Pois bem, em relação ao argumento do ajuste fino, trata-se de uma inferência à melhor explicação, que formulei dedutivamente por questões de simplicidade e clareza. Estamos basicamente analisando três opções viáveis para explicar o ajuste fino cósmico. Assim, obviamente, devemos avaliar a probabilidade de cada alternativa, incluindo o projeto. Se a hipótese do projeto tem uma probabilidade abismalmente baixa, pode vir a ser pior que as explicações reconhecidamente fracas da necessidade ou do acaso. No caso, a premissa 2 — “Não se deve à necessidade nem ao acaso” não seria justificada. Portanto, para estabelecer a premissa 2, precisamos analisar a probabilidade da hipótese do projeto e ver se há algum motivo para pensar que ela seja terrivelmente baixa.
Por exemplo, em resposta à crítica que Richard Dawkins faz ao argumento do ajuste fino, eu digo:
O ajuste fino do universo, portanto, não é possivelmente devido à necessidade física nem ao acaso. Daí resulta que tal ajuste é devido, portanto, a um projeto, a menos que seja possível demonstrar que a hipótese de um projeto seja ainda mais improvável do que a de seus concorrentes.
Dawkins sustenta que a alternativa de projeto é, na verdade, inferior à hipótese de conjunto de mundos. Resumindo aquilo que denomina de “argumento central de meu livro”, Dawkins insiste que, mesmo que na física faltem explicações “fortemente satisfatórias” para o ajuste fino, ainda assim as explicações “relativamente fracas” que temos até o presente são, “em si mesmas, evidentemente melhores do que a hipótese [...], autorrefutável de um projetista inteligente”.[1] É mesmo? Que objeção poderosa à hipótese de projeto é essa que a torna, por si só, evidentemente inferior à sabidamente fraca hipótese de um conjunto de mundos?[2]
Explico ainda por que fracassa a tentativa de Dawkins de mostrar que a hipótese do projeto não é explicação tão boa quanto o acaso. Isso me permite, enfim, concluir: “Portanto, das três alternativas diante de nós — necessidade física, acaso ou projeto — a mais plausível delas, como explicação do ajuste fino cósmico, é a de projeto”.
Obviamente, não se pode inverter o argumento, de modo a transformar o acaso em explicação preferida, pois, no caso, a segunda premissa reformulada — “Não se deve à necessidade nem ao projeto” — é visivelmente falsa, uma vez que o projeto é explicação melhor do que o acaso.
[1] Richard Dawkins, The God Delusion (New York: Houghton-Mifflin, 2006), p. 158 [publicado em português com o título Deus, um delírio (São Paulo: Companhia das Letras, 2007)].
[2] Ver minha palestra “Deconstructing New Atheist Objections to the Arguments for God”, <https://www.youtube.com/watch?v=sm0hI2SUinQ>; cf. meu artigo “O neoateísmo e cinco argumentos a favor de Deus”, https://pt.reasonablefaith.org/artigos/artigos-de-divulgacao/o-neoateismo-e-cinco-argumentos-a-favor-de-deus/.
- William Lane Craig