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#740 A interpretação literal de Gênesis 1-11

September 12, 2021
Q

Dr. Craig,

Fiquei tocado com a sua história de luta pessoal e o seu apelo para que os cristãos sejam generosos e tolerantes com quem mantém visões diferentes sobre a interpretação correta de Gênesis 1—11. O senhor faz forte defesa da classificação destes textos no gênero da mito-história, mas também toma cuidado ao dizer que não considera a interpretação literal inválida ou ilegítima.

Na minha experiência como líder cristão leigo, a interpretação literal de Gênesis 1—11 vai se tornando cada vez mais problemática, em especial se ensinada como princípio central e inquestionável da fé cristã. Tornou-se uma arma nas mãos de ateus militantes. É obstáculo para quem busca com seriedade e pedra de tropeço para jovens cristãos que, eventualmente, descobrem fatos da biologia, geologia e astronomia em contradição com aquilo que os seus pais e outras pessoas de confiança outrora lhes ensinaram. Seguem-se o conflito, a descrença e até a apostasia.

Será que haverá um momento em que deveremos declarar com honestidade e generosidade, mesmo que com relutância, que a interpretação literalista de Gênesis 1—11 é insustentável? É ofensivo sequer perguntar?

Tom

United States

Dr. Craig responde


A

Tom, a minha leitura do cenário cultural no ocidente é exatamente a mesma que a sua. O criacionismo da terra jovem, embora bem-intencionado, torna-se obstáculo cada vez maior ao evangelho. Por isso, qual deveria ser a nossa resposta? No meu livro a ser lançado In Quest of the Historical Adam [Em busca do Adão histórico], é assim que tento contornar a questão.

Diferencio entre o criacionismo da terra jovem enquanto afirmação hermenêutica e criacionismo da terra jovem enquanto afirmação científica. Hermeneuticamente, a afirmação é que Gênesis se pretende ser relato histórico que deve ser interpretado, basicamente, de modo literal. Cientificamente, a afirmação é que algum tipo de “ciência da criação” é a visão de mundo correta, em oposição ao consenso científico corrente.

Ainda que o criacionismo da terra jovem seja geralmente desprezado, a sua afirmação hermenêutica é flagrantemente plausível e merece ser levada a sério pelo biblista. Não são poucos os estudiosos revisionistas não-evangélicos a concordar que o criacionista da terra jovem interpretou corretamente o texto.[1] A diferença entre eles é que o criacionista da terra jovem acredita que o texto, se interpretado assim, é relato verdadeiro das origens, enquanto o revisionista acredita que o relato é falso, embora talvez incorpore verdades profundas.

Por outro lado, a afirmação científica do criacionismo da terra jovem é descabidamente implausível. Segundo a admissão dos seus próprios proponentes, o criacionismo da terra jovem coloca Gênesis em conflito tremendo com a ciência dominante, sem contar a história e a linguística.[2] Em defesa desta visão, os cientistas da criação tendem a se concentrar em anomalias no paradigma científico corrente, sem apreciar que a presença de anomalias não serve nem para reverter o peso preponderante das provas nem para estabelecer paradigma alternativo crível.

Penso que esta seja visão generosa e sensata da questão. Permite-nos conceder que a interpretação literal não é inválida ou ilegítima enquanto afirmação hermenêutica, mesmo que tal interpretação seja falsa enquanto afirmação científica. É óbvio que, se pudermos mostrar, como procuro fazer, que a interpretação não-literal é melhor do ponto de vista hermenêutico (i.e., que capta com mais precisão o sentido original do texto conforme teria sido entendido por seu autor e audiência), tanto melhor assim! Se, como muitos propuseram, Gênesis 1—11 é mito-história, a nossa afirmação hermenêutica não entra em conflito com a nossa afirmação científica. Assim, pode acontecer como resultado de análise cuidadosa do gênero de Gênesis 1—11 que nenhuma reinterpretação inovadora do texto seja necessária a fim de integrar o seu ensino com os dados da ciência, história e linguística contemporâneas. Isto seria boa notícia para o cristianismo na cultura ocidental!

 

[1] Ver, e.g., Gerhard von Rad, Genesis: A Commentary, ed. rev., The Old Testament Library (Louisville: Westminster John Knox Press, 1972), 47-48; James Barr, Fundamentalism (Filadélfia: Westminster, 1978), 42; John Day, From Creation to Babel: Studies in Genesis 1-11, Library of the Hebrew Bible/Old Testament Studies 592 (Londres: Bloomsbury, 2013), 2.

 

[2] Harlow elenca as seguintes áreas de conflito: Gênesis 1: astronomia, ciência atmosférica e biologia evolutiva; Gênesis 2—5: genética, paleoantropologia e antropologia cultural; Gênesis 5—9: biogeografia e geologia; e Gênesis 10—11: paleoetnografia e linguística (Daniel Harlow, “After Adam: Reading Genesis in an Age of Evolutionary Science”, Perspectives on Science and Christian Faith 62 [2010]: 193). Mesmo que alguns destes conflitos possam ser resolvidos, o conflito da ciência moderna com o criacionismo da terra jovem continua monumental.

 

- William Lane Craig