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April 9, 2022Olá, Dr. Craig.
Obrigado por seu ministério, tem me beneficiado muito. Apesar de ter muitas diferenças de opinião, o seu ministério me tem encorajado a pensar criticamente e a não ser intelectualmente preguiçoso. Um atributo de Deus que se menciona com frequência é a Sua onipresença (normalmente, é afirmado conjuntamente com a Sua onipotência e onisciência). Embora eu não tenha dificuldade em compreender, pelo menos, os conceitos básicos de Deus como todo-poderoso e onisciente, a minha pergunta é a seguinte: de que modo Deus, um ser a-espacial, é onipresente? Caso se trate do conhecimento de Deus acerca de todo acontecimento em toda localização espacial, isto já não estaria coberto por Sua onisciência? Em último caso, queria saber se a ideia de Deus ser onipresente é, realmente, apenas uma descrição desajeitada, embora sustentada há tanto tempo, de um aspecto da onisciência de Deus. Ou, o que é mais provável, será que não estou entendendo bem a distinção entre os dois? Serei grato por qualquer ideia que tenha!
Obrigado, diretamente da Austrália!
Joel
Austrália
Dr. Craig responde
A
A sua pergunta tornou-se assunto de debate recente entre filósofos cristãos, Joel, o que deparei ao escrever a minha teologia filosófica sistemática. A resposta depende da existência de Deus se dar por todo o espaço ou transcendê-lo. Embora as Escrituras costumem falar de Deus em termos espaciais, fiquei surpreso ao descobrir que o conceito escriturístico de céu como o domínio de Deus (em oposição a “os céus”, no sentido dos céus estrelados) tem a intenção de sublinhar, não a localização espacial de Deus, mas a Sua transcendência em relação ao mundo, podendo ser, portanto, entendido como o espaço transcendente de Deus.
Se Deus transcende o espaço, a onipresença de Deus é explicada por e reduzível a Sua onipresença e Sua onisciência. Pode-se dizer que Deus é onipresente no sentido de que Ele é causalmente ativo em e ciente de cada ponto no espaço. Não quer dizer que a onipresença de Deus é “apenas uma descrição desajeitada, embora sustentada há tanto tempo”, da Sua onipotência e onisciência, pois não há nada de desajeitado em entender a onipresença de Deus deste modo — pelo contrário, é uma visão deveras elevada da presença de Deus em tudo!
Há hoje, no entanto, um punhado de estudiosos contemporâneos que sustentam não apenas estar Deus literalmente no espaço, mas que esta se trata, na realidade, da posição dominante na teologia cristã desde os tempos de Agostinho, no século V! Estou convencido de que esses estudiosos revisionistas estão bastante equivocados quanto à visão histórica. Dada a linguagem escriturística, teólogos clássicos, obviamente, afirmam que Deus existe em todo lugar e está presente em todo lugar, mas a questão é o que eles queriam dizer com isto. Como Deus está presente em todo lugar? O que queriam dizer, penso eu, é que Deus é, nas palavras de Tomás de Aquino, associado causalmente com tudo que há no espaço, sabe tudo o que está acontecendo no espaço e é o fundamento da existência de tudo que existe no espaço, mas sem estar Ele próprio no espaço.
Se Deus existe mesmo no espaço, Ele teria de sê-lo em sentido muito especial: Ele teria de estar completamente presente em todo lugar no espaço. Uma vez que Deus não é constituído de partes, ele não pode se estender pelo espaço como acontece com o universo, parte aqui e parte acolá. Antes, Ele tem de estar completamente aqui e, ao mesmo tempo, completamente acolá. É muito difícil de compreender esta noção, de maneira que boa parte da discussão filosófica contemporânea diz respeito ao modo como as coisas podem ser localizadas no espaço, o que se torna rapidamente algo muito técnico.
A visão de que Deus está no espaço vai de encontro ao chamado problema da inerência espacial. Supõe-se que Deus está completamente presente em toda região do espaço ou, ao menos, em múltiplas regiões do espaço. Enquanto ser onisciente, Deus deve saber onde Ele está. Em cada local em que Deus está completamente presente, Ele deve crer: “Estou aqui”. Porém, uma vez que o termo dêitico espacial “aqui” refere-se à localização do seu usuário, Deus estará em diferentes estados de crença em diferentes lugares no espaço. Assim, Deus, em diferentes lugares, terá diferentes propriedades inerentes, não podendo ser, portanto, idêntico por todo o espaço. Antes, temos aí o politeísmo, assim como Santo Anselmo temia.
Em contraste, a visão de que Deus transcende o espaço se destaca de modo muito natural à luz da doutrina de creatio ex nihilo. Isto porque sabemos, em virtude da doutrina da criação, que a existência solitária de Deus, sem a criação, é a-espacial. Isto porque, segundo a visão relacional do espaço, este não existe na total ausência de qualquer realidade física, ao passo que, segundo a visão substantiva do espaço, este é uma coisa ou substância e, portanto, deve ter sido criado por Deus. Seja qual for a opção, Deus traz o espaço à existência no momento da Sua criação do universo. Contrariamente a Isaac Newton, o espaço não é um efeito necessário e concomitante de Deus, mas um efeito contingente e livremente desejado. Sem o universo, portanto, Deus existe a-espacialmente. Porém, a criação do espaço nada faria para “espacializar” a Deus, ou seja, para trazê-lO para o espaço. A criação do espaço não é, em si, ato espacial (como o é, digamos, esbarrar em algo). Portanto, não há nenhuma razão para pensar que a a-espacialidade divina se renda no ato da criação. Do contrário, a onipresença de Deus deveria ser entendida como se Deus fosse imediatamente ciente de e causalmente ativo em todo lugar no espaço. Ele sabe o que está acontecendo em toda localização espacial no universo e é causalmente operante em todos esses lugares, mesmo que nada mais esteja a acontecer ali além de flutuações quânticas no vácuo do espaço “vazio”.
- William Lane Craig