#768
April 9, 2022Dr. Craig,
O senhor costuma tocar no assunto de mundos possíveis. Se o objetivo de Deus é trazer para si tantas criaturas livres quanto possíveis, numa relação de amor, será que Deus jamais realizaria outro mundo possível além do nosso?
Patrick
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Embora a sua pergunta seja um tanto confusa, Patrick, penso que incorpora uma questão mais profunda que está com dificuldade para exprimir, uma questão que me tem confrontado ao escrever a minha teologia filosófica sistemática. A sua pergunta parece sugerir que Deus poderia realizar outro mundo possível simultânea ou posteriormente ao mundo real. Isto está errado. Normalmente, com mundo possível, os filósofos querem dizer um estado máximo de coisas que é, em linhas gerais, logicamente possível. Assim, apenas um mundo possível pode ser real. O que você deveria estar perguntando é se Deus poderia ter originado um mundo melhor do que este e, se sim, quais as implicações para a perfeita bondade de Deus.
Ora, uma vez que todo mundo inclui a existência de Deus, e Deus é infinitamente bom, todo mundo possível parece ser igualmente bom, em virtude da existência de Deus. Avaliar o valor comparativo de mundos possíveis exige que consideremos, além da existência de Deus, a existência das coisas que Deus criou. Neste caso, em vez de ponderar a bondade comparativa de estados máximos de coisas, o que talvez seja impossível fazer, podemos muito bem nos concentrar nas ordens criadas que Deus poderia fazer, indagando-nos a respeito da bondade comparativa delas.
Ainda assim, existe uma ambiguidade decisiva em relação à noção de “mundo” possível no âmbito desta questão. Deus se confronta com uma coleção de contrafactuais da liberdade da criatura quanto ao modo como as criaturas livres agiriam em quaisquer circunstâncias nas quais Deus as colocasse. Tais contrafactuais são verdadeiros antes —e, portanto, independentes— do decreto divino de uma ordem criada. Em consequência, há ordens criadas que, em linhas gerais, são logicamente possíveis para Deus criar, mas que Lhe são implausíveis, tendo em vista os contrafactuais da liberdade da criatura que são verdadeiros. Assim, aquilo em que nos interessamos de verdade não são mundos possíveis, mas, sim, mundos plausíveis que Deus talvez decretasse e originasse. Será que ele poderia ter decretado um mundo plausível melhor do que o nosso?
Como você observa, em outros lugares sugeri que o desejo prevalente de Deus, à luz da Sua vontade salvífica universal conforme expressa no Novo Testamento, é originar uma ordem criada em que ocorra um equilíbrio ideal entre salvos e perdidos, onde o ideal se trata da função de números absolutos e da proporção entre salvos e perdidos.[1] Não somente não é implausível que tais mundos idealmente equilibrados não estejam entre as opções de Deus, mas não é implausível que o mundo real esteja entre eles. Tendo em vista as consequências eternas, é difícil conceber que qualquer fator fosse tão importante para Deus ao avaliar o valor dos mundos plausíveis. Isto talvez sugira que a bondade de tais mundos idealmente equilibrados simplesmente sobrepuje qualquer valor em mundos menos do que idealmente equilibrados. Em particular, males terrenos podem ser permitidos justamente para que aconteça o equilíbrio ideal de salvos e perdidos. Tais mundos idealmente equilibrados seriam os melhores mundos plausíveis.
Não obstante, mesmo que limitemos as opções de Deus a mundos que exibam tal equilíbrio ideal entre salvos e perdidos, talvez haja outras considerações que tornem tais mundos preferíveis a outros — por exemplo, maior santificação dos salvos em um mundo, em vez de outro.
No caso, talvez haja hierarquia ilimitada de mundos cada vez melhores a partir dos quais Deus escolha um. Porém, para qualquer mundo que Deus selecione, haverá sempre um mundo melhor que ele poderia ter escolhido em seu lugar. Portanto, o que Deus deveria fazer?
O intrigante é que esta questão sobrepõe-se à teoria secular da decisão, campo de estudos que investiga relatos normativos e descritivos do modo como se tomam decisões racionais, individual ou coletivamente (teoria dos jogos). Teóricos da decisão indicam que princípios gerais de tomada de decisão podem ser sobrepujados, em casos específicos, por considerações compensatórias. Por exemplo, normalmente seria melhor escolher uma opção melhor se ela estivesse disponível. Porém, tal princípio geral é subvertido quando se é confrontado com hierarquia ilimitada de opções cada vez melhores. Então, a pessoa se encontra na situação notadamente desconfortável de escolher uma opção, mesmo sabendo que opção melhor está sempre disponível. Na literatura, isto é denominado de “satisficiência” [satisficing].
Se Deus é “satisficiente”, será que a Sua bondade moral é, portanto, impugnada? Situações análogas sugerem que não. Por exemplo, Dean Zimmerman, da Universidade Rutgers, imagina o caso de um apostador ideal cujas apostas são função da sua confiança no resultado: quanto mais confiante ele for, mais dinheiro apostará. Assim, imagine que alguém esteja disposto a apostar com ele que 2+2=5. Neste caso, ele tem de escolher uma quantidade finita de dinheiro para apostar, ciente de que sempre poderia apostar mais. Porém, a sua escolha de determinada quantidade para apostar não é nenhuma expressão de falta de confiança no resultado.
Ainda mais análogo ao caso de Deus seria o caso de um filantropo ideal que pode doar qualquer quantidade finita de dinheiro aos seus beneficiários. O fato de que ele deva escolher alguma quantidade finita, sempre ciente de que poderia ter escolhido uma quantidade maior, não é nenhuma infração da sua generosidade. Do mesmo modo, a escolha de Deus por um mundo bom para criar não é nenhuma subtração da Sua bondade, embora, pela própria natureza do caso, Ele pudesse ter escolhido um mundo melhor no lugar deste.
Quais mundos seriam minimamente aceitáveis para Deus? Qual é a linha de corte? A resposta dependerá das pressuposições sobre os valores pelos quais se classificam as opções. Seriam eles tais que nos permitiram delinear opções “boas o suficiente” em contraste com as que não o são? Conforme mencionei acima, parece-me plausível que o equilíbrio salvífico exibido pelos diversos mundos plausíveis será de extrema importância para Deus na classificação dos mundos. Há opções a exibir equilíbrio tão terrível entre salvos e perdidos que são inaceitáveis para Deus. Se todos os mundos disponíveis para Deus que são habitados por agentes morais fossem mundos assim, Deus escolheria simplesmente se abster de criar qualquer um deles e poderia muito bem escolher abster-se totalmente de criar.
“Mundos” que não são dignos de escolha serão assim, por serem incompatíveis com a natureza de Deus enquanto ser perfeitamente justo e amoroso. Vistas por este prisma, tais opções não são realmente mundos possíveis, no fim das contas, uma vez que são incompatíveis com a natureza de Deus e, portanto, irrealizáveis. Deveras, dado que todos os mundos plausíveis devem ser compatíveis com a natureza de Deus, não fica claro que há mundos a exibir equilíbrio salvífico minimamente aceitável, em comparação com mundos a ter equilíbrio melhor. Deus, necessariamente, escolhe um mundo que exiba equilíbrio ideal entre salvos e perdidos, e escolher qualquer mundo desses se trata de ação igualmente boa. Assim, está bem longe do óbvio que haja, de fato, mundos que, por muito pouco, evitam ser inaceitáveis. Qualquer mundo que seja compatível com a natureza perfeitamente justa e amorosa de Deus é aceitável e digno de escolha. Se há hierarquia infinita de mundos cada vez mais plausíveis, Deus pode ser livremente satisficiente ao decretar qualquer um deles que exibam equilíbrio ideal entre salvos e perdidos. Todos os mundos assim são bons o suficiente.
[1] William Lane Craig, “‘No Other Name’: A Middle Knowledge Perspective on the Exclusivity of Salvation through Christ”, Faith and Philosophy 6 (1989): 172-188.
- William Lane Craig