#357 Como as pessoas podem ser tão moralmente ignorantes?
May 13, 2016Olá Dr. Craig! Eu sou um seguidor do seu trabalho e um fã seu. Eu estudo os seus livros praticamente todos os dias, para que eu possa aprender e me preparar como um cristão para o resto do mundo, que espera para me espancar na minha crença! Tenho uma pergunta para você hoje sobre a segunda premissa do seu argumento moral. Este argumento é caro para mim, porque eu reconheci que realmente existe o bem e o mal em nosso mundo, e eu vim ao cristianismo porque eu acreditava no amor, na justiça, e assim por diante. (Lembre-se isto também foi antes de eu sequer saber sobre esse argumento!). Então, quando eu descobri esse argumento, quando eu encontrei o seu trabalho, fiquei espantado! Assim, você pode ver porque esse argumento é caro para mim, porque é tão perto de como eu vim a Cristo!
Este é o seu argumento:
1. Se Deus não existe, então valores e deveres morais objetivos não existem.
2. Valores e deveres morais objetivos existem.
3. Portanto, Deus existe.
A premissa (1): Eu entendo a ontologia da premissa um, que para estes valores e deveres morais serem objetivamente obrigatórios eles precisam ser fundamentados em Deus. Sem Deus, quem dita? Valores e deveres morais tornam-se um poço de combate relativista gigante e quem sai por cima começa a ser chamado de rei e faz as regras.
Premissa (2): Agora, para as minhas perguntas sobre a premissa (2). Eu entendo a justificativa da nossa experiência moral, como é exatamente o mesmo caso para a esfera física. Mas a minha pergunta, provavelmente popular entre a minha geração, é como esses valores e deveres parecem tão relativistas. Eu realmente acredito em bons valores como o amor, a generosidade, a justiça, a igualdade, e auto-sacrifício e é muito óbvio para mim que a crueldade, brutalidade e vingança são maus. Agora, para mim estas coisas parecem muito óbvias para todos em nossa era. Mas o que está me incomodando é quando eu olho para trás no tempo para o holocausto, cruzadas, e as tribos que realizavam atos simplesmente atrozes. Será que eles acreditavam nos mesmos valores que eu!? Parece tão estranho que eles conseguiam jogar bebês para o fogo, usá-los como prática de tiro ao alvo, ou massacrar as pessoas! Ou que as tribos poderiam comer uns aos outros, ser tão brutos com suas crianças ou idosos! Ou ainda enormes populações sendo escravizadas e espancadas até a morte! É tão impensável! Como é que essas pessoas não percebem o valor do amor, igualdade, e assim por diante, como nós? Eu entendo que não importa quantas pessoas fazem isso, ainda é objetivamente errado. Eu só não entendo como tanta gente não achava que isso fosse errado. Se esses valores e deveres são objetivos, então parece que eles deveriam saber que estavam errados. São os valores que são diferentes ou é apenas o padrão do que estes valores são? A brutalidade tem uma tolerância maior de um do que do outro? Eu só não entendo, e é por isso que eu estou pedindo para você esclarecer isso para mim, por favor, Dr. Craig.
Julian
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Parece-me que você está caindo na armadilha familiar de confundir ontologia moral e epistemologia moral, Julian. Ontologia moral tem a ver com a realidade objetiva dos valores e deveres morais. Epistemologia moral tem a ver com a forma como passamos a conhecer os valores e deveres morais. O argumento moral é totalmente sobre ontologia moral; não diz nada sobre como chegamos a conhecer os valores e deveres morais. Assim, o argumento é completamente neutro em relação à relativa clareza ou obscuridade da esfera moral. Seria totalmente coerente com o argumento acreditar, por exemplo, que é somente através de uma iluminação divina interior que passamos a conhecer os valores e deveres morais, e que aqueles que suprimem a iluminação de Deus de suas mentes encontram-se tateando na escuridão moral. Isso explicaria em grande parte os fenômenos que você menciona. Você entende que eu não estou endossando tal epistemologia; pelo contrário, o meu ponto é que o argumento moral que eu defendo não oferece uma epistemologia moral. É neutro a esse respeito.
Assim, a falsa pressuposição por trás de sua pergunta é: "Se esses valores e deveres são objetivos, então parece que eles deveriam saber que isto era errado." Isso é um non sequitur. Não segue da objetividade dos valores e obrigações morais que eles devem ser claramente percebidos por todos. Esse fato deve ser especialmente evidente para qualquer pessoa que tenha uma doutrina séria do pecado. A Bíblia ensina explicitamente que as pessoas caídas e pecaminosas são obscurecidas no entendimento e têm uma disposição mental reprovável, e assim se jogam na imoralidade (Romanos 1:18-32). Na verdade, Paulo parece afirmar que, apesar de as pessoas realmente saberem que tais atos são errados, elas fazem de qualquer maneira para o prazer egoísta (Romanos 1:32; cf. 2:15). A falha reside no observador, não no que é observado. "São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso;se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!" (Mateus 6:22-3).
Além de tudo isso, vem o condicionamento cultural, que resulta de ser criado em uma sociedade que está bagunçada ou degradada. O pecado não é simplesmente uma questão individual, mas torna-se abrigado em instituições sociais e estruturas que moldam a vida das pessoas. Mas observe que, quando expressamos discordância moral com a sociedade, ou quando julgamos que a humanidade tem crescido moralmente de sua condição anterior, nós implicitamente afirmamos a objetividade dos valores e deveres morais. Achamos que houve uma melhoria moral, não meramente uma mudança moral. Longe de apoiar o relativismo, a discordância moral e melhoria na verdade pressupõe a objetividade dos valores morais.
Além disso, eu acho que você exagera o grau de divergência moral entre os povos. Os antropólogos dizem-nos o contrário, que existe uma grande semelhança entre os povos do mundo em seus códigos morais fundamentais. O que pode dar a aparência de relativismo são as diferentes maneiras que esses valores morais comuns são expressos culturalmente. Por exemplo, a modéstia é uma virtude comumente defendida, mas o que conta como modesto pode diferir radicalmente de sociedade para sociedade. Ou considere o canibalismo. Pelo que tenho lido sobre tribos que praticavam o canibalismo, o fato é que, ao contrário da primeira impressão, eles acreditam que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos. O problema é que eles não acreditam que os membros de outras tribos eram seu próximo! Alguém nunca praticaria canibalismo contra membros da própria comunidade tribal; eles eram seu próximo. Outros, fora da nossa tribo, eram, na verdade, desumanizados. Algo semelhante acontece em casos de escravidão do negro ou do holocausto: as vítimas de tais abusos foram muitas vezes consideradas como sub-humanos e, portanto, não tinham direitos humanos intrínsecos. Às vezes o problema não é a falha em ver os valores morais, mas em ver a plena humanidade de quem ofenderam. E, claro, existe simplesmente o problema de o povo agir de forma inconsistente. Quando você pergunta: "Será que eles acreditavam nos mesmos valores que eu!?", uma boa maneira de responder a essa pergunta é olhar, não para o que eles fazem, mas para a forma como eles reagem quando as mesmas coisas são feitas para eles! O mundo não é realmente tão inundado de relativismo como você pensa.
- William Lane Craig