#474 Como escolher uma igreja
February 10, 2017Olá, Dr. Craig.
Primeiramente, obrigado por tirar tempo para responder às perguntas de seus leitores e ouvintes.
Parece que seus leitores vêm de uma ampla variedade de denominações, e o senhor especificamente respondeu em certa ocasião à questão do porquê o senhor ser protestante (podcast Reasonable Faith, episódio "Questions on Marriage, Secular Strategy, and Catholicism" [Perguntas sobre casamento, estratégia secular e catolicismo]).
Então, considerando que respondeu àquela pergunta e seu público diverso, espero que veja alguma utilidade nesta minha pergunta: por que o senhor é, especificamente, batista? (Isso se estou identificando sua afiliação corretamente.)
Apresento esta pergunta como cristão evangélico professo que está “no muro” entre denominações, tendo sido criado nas Assembleias de Deus durante a escola primária e tendo pais que migraram (na verdade, nós, seus filhos, também) para uma quase-denominação de Palavra da Fé durante o colegial e faculdade, mas da qual saímos nos últimos 20 anos.
Há alguns anos, meus pais frequentam uma igreja Assembleia de Deus perto de onde moram. Meu irmão mais novo se converteu à ortodoxia oriental três anos atrás, e existem aspectos da ortodoxia que acho atraentes e outros que julgo, no momento, insustentáveis.
Ando pesquisando a história da igreja, formações e doutrina denominacionais, bem como seus líderes fundadores, enquanto leio o Novo Testamento para ver se consigo determinar qual é mais válida do ponto de vista das Escrituras. Obviamente, escolher uma denominação é apenas o primeiro passo, penso eu; em seguida, é preciso escolher sabiamente uma igreja local onde se comprometer.
Em suma, o que está por trás da minha pergunta central, como deve ficar claro, é saber como o senhor se decidiu — e como recomendaria outros a se preparar para se decidir — em relação a uma denominação (se é que esse é o jeito adequado de pensar sobre a decisão) e, mais especificamente, uma igreja, um corpo local, onde se comprometer. O ideal seria estar num jugo igual nessa relação, assim como no casamento, ao que me parece.
Agradeço novamente por tirar seu tempo para considerar e responder às perguntas de seus leitores e ouvintes, bem como por seu exemplo no serviço a Deus, além de caridade e cuidado na defesa do evangelho.
Chris
United States
Dr. Craig responde
A
Só posso cumprimentá-lo, Chris, por perceber a importância de se afiliar a uma igreja local. Muitas pessoas hoje em dia parecem pensar que o envolvimento na igreja local seja desnecessário e até desimportante para a vida cristã. Essa atitude relaxada em relação ao envolvimento com a igreja local está equivocada por pelo menos três motivos. Primeiro, o cristão que não se envolve nega a Deus o culto coletivo que lhe é devido. Não frequentamos a igreja essencialmente por causa daquilo que obtemos dela, mas por causa do que damos a Deus: o culto e adoração de seu povo que lhe são devidos. Segundo, o cristão que não se envolve atrofia seu próprio crescimento. Há lições a ser aprendidas com o envolvimento numa igreja local com irmãos na fé que não podem ser aprendidas de outra maneira. Algumas delas podem ser lições aprendidas por meio do serviço e submissão a outros. Terceiro, o cristão que não se envolve prejudica o corpo de Cristo. A igreja local é o corpo de Cristo, que funciona adequadamente somente quando todos seus membros são saudáveis e funcionais para o bem do todo (1 Coríntios 12.12-27). Quando alguém escolhe não se envolver, a igreja local fica como um corpo com uma parte a menos. Deus deu a cada cristão um dom espiritual para ser exercido no contexto da igreja local (1 Pedro 4.10) e, quando alguém deixa de se envolver, seu dom não está sendo exercido da forma adequada, prejudicando o corpo e atrofiando seu desenvolvimento pessoal. É, portanto, com boa razão que a Bíblia nos ordena a estar envolvidos numa igreja local (Hebreus 10.24-25).
Ao procurar uma igreja onde se envolver, sugiro que o primeiro passo seja não escolher uma denominação para, então, escolher uma igreja local daquela denominação. Muito pelo contrário: sugiro primeiro encontrar uma igreja local onde você possa participar do culto coletivo de forma significativa e onde a Bíblia é pregada fielmente, para só então se afiliar, se possível, com a denominação de que aquela igreja faz parte.
Em nosso caso, embora seja verdade que atualmente frequentemos uma igreja da Convenção Batista do Sul, não é porque “somos batistas”! Na verdade, sou ordenado em outra denominação. Mas frequentamos essa igreja, e não outra, por diversos motivos — por exemplo, seu uso de hinos tradicionais, acompanhados de coro e orquestra fabulosos, o que me ajuda a adora a Deus de forma significativa; suas oportunidades de serviço, como ensinar na minha turma de escola dominical Defensores; e a proximidade de minha casa, o que incentiva o envolvimento de nossa parte. Uma das características intrigantes da Convenção Batista do Sul é como ela é doutrinariamente minimalista. Essa liberdade permite que pessoas de perspectivas teológicas muitíssimo diferentes façam parte da mesma comunidade. Não importa se você é reformado ou wesleyano (ou mesmo molinista!); não importa quais são seus pontos de vista escatológicos; não importa qual teoria da expiação você adota. Essa liberdade doutrinária pode nem sempre ser algo bom, mas me permite ser um batista com a consciência limpa, ao passo que eu não poderia ser católico ou presbiteriano.
Antes de frequentar nossa igreja da Convenção Batista do Sul, íamos a uma igreja de proposta “seeker-sensitive”, que busca corresponder às expectativas dos fiéis, com grupo de louvor e teatro. Depois de muitos anos ali, percebi que minha vida de adoração estava minguando. Quando entrava no prédio da igreja e ouvia aquela música alta vindo de dentro do auditório, sentia uma repugnância interna. Não queria entrar! Isto não está certo, pensei. Eu deveria ser atraído ao culto. Um dia nosso pastor pregou um sermão em que dizia: “Se você não está tendo um encontro com Deus quando vem aqui aos domingos, você precisa procurar outra igreja”. Foi então que percebi que precisávamos mudar. Fui até o pastor, um bom amigo e ex-aluno, e expliquei o que estava acontecendo em minha vida de adoração. Ele entendeu minha decisão, e saímos com sua bênção. Fico feliz que decidimos mudar.
Por isso, Chris, acho que você deve procurar uma igreja local onde tenha um encontro com Deus no culto coletivo cada domingo. É o principal critério ao escolher uma igreja, mais importante do que boa pregação (você não vai à igreja primariamente para receber instrução). Então, descubra se há oportunidades de serviço e maneiras de se envolver e exercer seu dom espiritual. Por último, determine se a igreja tem uma confissão doutrinária que lhe permite se tornar membro. Se ela tiver uma declaração que lhe exigirá confessar coisas nas quais você não crê, você talvez queira frequentar aquela igreja mesmo assim sem se tornar oficialmente membro da denominação ou igreja. No entanto, se você puder se afiliar ali com a consciência limpa, então, em expressão de solidariedade aos crentes locais, torne-se membro.
Que Deus o guia em sua busca!
- William Lane Craig