#274 Cristo era uma Pessoa Divina-Humana?
January 14, 2015Caro Dr. Craig
Eu já li muitos dos seus livros, regularmente ouço seus podcasts e já ouvi você falar pessoalmente. Estou tentando desvendar uma pergunta e eu preciso de sua ajuda.
Eu preciso de esclarecimento sobre a pessoa de Cristo, para que eu possa efetivamente responder a teístas unitários, como muçulmanos e resolver minha própria confusão.
Em Cristo, podemos encontrar uma pessoa única que é totalmente Deus e totalmente homem. Portanto, poderíamos representar isso em uma equação como segue: Deus + homem = Cristo.
Nós sabemos pela Bíblia que devemos adorar somente a Deus, mas a pessoa de Cristo aceita adoração de Tomás e é abordado em oração de Estêvão.
Mas como pode ser isso, já que Cristo não é somente Deus, mas para sempre o Deus-homem? Como cristão, eu não estou adorando o corpo humano de Cristo, mas estou adorando a sua pessoa. E essa pessoa não é apenas Deus, mas também homem. Será que isso não seria violar o princípio bíblico de adorar a Deus apenas?
Por favor, ajude-me a desvendar esse pensamento para que eu possa comunicar-me eficazmente com os outros. Obrigado.
Kerry
United States
Dr. Craig responde
A
Sua pergunta levanta questões sutis, mas importantes na cristologia, Kerry. A doutrina ortodoxa promulgada no Concílio de Calcedônia (451) é a de que Cristo é uma pessoa com duas naturezas completas, humana e divina. Portanto, ao invés de dizer que Cristo é "totalmente Deus e totalmente homem", o qual soa como uma contradição, devemos, sim, dizer com o Concilio de que Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem (vere Deus, vere homo).
Você está certo de que a adoração deve ser dirigida somente a Deus e que a adoração está devidamente dirigida para Jesus Cristo no Novo Testamento. Segue-se que Cristo é Deus. Além disso, você está correto em dizer que nós adoramos a pessoa de Cristo, isto é, a pessoa que Cristo é.
Onde você erra é em pensar que "essa pessoa não é apenas Deus, mas também homem." Isso é um erro. Cristo é a segunda pessoa da Trindade, que existia antes de sua encarnação. Ele é Deus, puro e simples. Ele é uma pessoa divina, não uma pessoa divino-humana. Por essa razão, os teólogos medievais sempre tinham o cuidado de nunca referir-se a Jesus como uma pessoa humana. Ele é uma pessoa divina que assumiu uma natureza humana além da natureza divina que Ele já tinha. Em virtude de ter uma natureza humana completa e uma natureza divina, Cristo é Deus e homem, humano e divino. Mas Ele não é uma pessoa humana. Ele é uma pessoa divina que possui uma natureza humana e a natureza divina.
Que esta é a maneira correta de entender a pessoa de Cristo é evidente a partir de alguns dos debates cristológicos iniciais. Por exemplo, Nestório, Arcebispo de Constantinopla, opôs-se a Maria ser chamada de "a mãe de Deus" (theotokos), porque o que ela gerou em seu ventre e deu à luz não era a natureza divina de Cristo, mas sua natureza humana. Mas o Concílio de Calcedônia ratificou chamar Maria de "mãe de Deus", porque a pessoa que ela gerou e deu à luz era divina. É verdade, ela não gerou sua natureza divina, mas sua natureza humana; mas a pessoa que ela gerou era a segunda pessoa divina da Trindade. Por isso, ela é devidamente chamada de a mãe de Deus. Infelizmente, essa expressão foi totalmente (embora compreensivelmente) mal compreendida por Maomé séculos mais tarde para detrimento duradouro da religião que ele ajudou a fundar.
Além disso, o Concílio de Calcedônia, e todos os teólogos depois, foram cuidadosos em negar que a natureza humana individual de Cristo (aquele composto de corpo/alma que andava pelas colinas e praias da Galiléia) era uma pessoa. Isso seria postular duas pessoas em Cristo, uma humana e uma divina. Os Padres da Igreja insistiam em que só há uma pessoa que é Cristo e essa pessoa é divina. A regra de que toda a cristologia ortodoxa deve seguir foi esta: nem dividir a pessoa nem confundir as naturezas.
Agora obviamente, isso não responde a todas as perguntas! De fato, talvez o mais difícil permaneça: Como uma pessoa pode ter duas naturezas, humana e divina? Em particular, se Cristo tinha uma natureza humana completa, então por que não havia uma pessoa humana? Essas perguntas eu tentei abordar nos nossos podcasts do Defenders [Defensores] sobre Doutrina de Cristo e em Filosofia e Cosmovisão Cristã.
- William Lane Craig