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November 10, 2021Peço desculpas se já deu uma resposta a esta pergunta, mas as buscas pela palavra-chave resultam em outros tópicos. Suponhamos que eu aceite que Jesus ressuscitou dentre os mortos com base na perspectiva secular (ao investigar as provas dos evangelhos). Como é que parto daí para a crença plena na autoridade do Novo Testamento?
Wilson
Austrália
Australia
Dr. Craig responde
A
Esta pergunta é ótima, Wilson, e eu a abordo no capítulo sobre a doutrina das Escrituras no meu projeto de teologia filosófica sistemática. Permita-me tentar um breve resumo do que digo ali.
Defendo, no mínimo, duas maneiras pelas quais podemos concluir justificadamente que as Escrituras são a Palavra autorizada de Deus para nós.
1. Primeiro, os cristãos ao redor do mundo e por milênios têm a experiência de que Deus lhes fala mediante as Escrituras. Experimentam as Escrituras como a Palavra de Deus para eles. Este fenômeno de “experimentar”, assim como o fenômeno correlato de “ver”, é bem conhecido em outros contextos. Por exemplo, alguém que não esteja familiarizado com as regras do beisebol talvez veja, como nós, que uma bola branca ultrapassou o cercado, mas não veria que acertou um ponto em cheio. Alguém pode experimentar a ação de uma pessoa de confiança como traição, ao passo que um terceiro não experimentaria assim a mesma ação. Igualmente, os cristãos podem experimentar as Escrituras como Palavra de Deus. A sua verdade e autoridade são, por sua vez, a implicação do fato de que é a Palavra de Deus.
Segundo esta explicação, a crença nas Escrituras como a Palavra de Deus é o que epistemólogos denominam crença apropriadamente básica, fundamentada na experiência de ouvir as Escrituras como Deus a falar. É crença básica porque não é inferida de outras crenças proposicionais mais fundacionais. É apropriadamente básica porque é apropriadamente fundamentada, e não simplesmente arbitrária. Entre os epistemólogos, a racionalidade de tais crenças apropriadamente básicas é conhecida amplamente. Na ausência de algum derrotador, a crença de que as Escrituras são a Palavra de Deus pode ser justificada para nós. A racionalidade da crença de que as Escrituras são a Palavra de Deus requererá uma defesa robusta do ensinamento cristão por teólogos e filósofos contra supostos derrotadores.
Assim, uma maneira em que a crença na autoridade das Escrituras pode ser justificada para os cristãos é com base na nossa experiência das Escrituras, especialmente os livros do Novo Testamento, como a Palavra de Deus.
2. Segundo, podemos também fazer a defesa histórica da autoridade das Escrituras. Ao adotar como ponto de partida uma espécie de teísmo cristão puro e simples, pode-se apelar primeira e primordialmente aos ensinamentos autorizados do Jesus histórico, a fim de avalizar a crença de que as Escrituras são a Palavra de Deus. Tal defesa pode ser vista como confirmatória da crença apropriadamente básica fundamentada na nossa experiência das Escrituras como a Palavra de Deus.
Uma defesa histórica sucinta a favor da autoridade escriturística pode depender de premissas como estas:
1. Deus existe.
2. Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos.
3. Se Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos, Ele ratificou os ensinamentos de Jesus.
4. Os ensinamentos de Jesus eram tais que podem ser interpretados, com plausibilidade, como se implicassem a autoridade das Escrituras do Antigo e Novo Testamento.
É óbvio que será necessária uma defesa robusta de cada premissa, para que este argumento confira justificação à crença na autoridade escriturística. Os argumentos da teologia natural fundamentam a crença em (1); a existência de Deus e as provas relacionadas ao destino de Jesus fundamentam a crença em (2), por Deus ressuscitá-lo dentre os mortos. A ressurreição de Jesus vindicou a sua afirmação pessoal de autoridade e, portanto, (3), o seu ensinamento. Em apoio a (4), pode-se argumentar historicamente que Jesus não apenas pressupôs, mas, de fato, ensinou a inspiração e autoridade das Escrituras judaicas. O que as Escrituras dizem, Deus diz. Elas são, portanto, autorizadas no seu ensinamento. Assim, tanto Jesus quanto os autores do Novo Testamento fundamentam a sua doutrina nos ensinamentos das Escrituras. Jesus, porém, não se limitou à autoridade do Antigo Testamento. Antes, ele afirmou autoridade própria que excedia até mesmo a autoridade das Escrituras judaicas. Além disso, ele outorgou tal autoridade aos seus doze discípulos, a fim de estender o seu ministério, não simplesmente em Israel antes da morte de Jesus. Antes, Jesus se empenhou em capacitar os Doze para levar adiante o ministério que iniciara, e isto depois da sua morte e para o mundo inteiro, de modo que aquilo que os apóstolos proclamavam, quer em palavra ou por escrito, tinha a mesma autoridade divina. Os autores apostólicos do Novo Testamento, incluindo Paulo, que foi acrescentado tardiamente à companhia dos apóstolos, estavam deveras conscientes da autoridade divina que exerciam e da condição da sua mensagem como a Palavra de Deus. Portanto, por volta do fim do primeiro século, escritos neotestamentários como Lucas/Atos e as cartas de Paulo já eram chamados, explicitamente, de “Escrituras” pelos autores do Novo Testamento e reconhecidos assim na igreja primitiva. Por isso, com base nas premissas cima, pode-se justificar racionalmente a crença na autoridade das Escrituras do Antigo e Novo Testamento.
Assim, o testemunho do próprio Deus e o testemunho da história combinam-se para justificar a crença na inspiração e autoridade escriturísticas.
- William Lane Craig