#752
November 10, 2021Dr. Craig,
Minha esposa e eu somos cristãos; ela me levou à fé em Cristo mais de seis anos trás, alguns meses antes de nos casarmos. Nunca tivemos uma discussão (briga?) acalorada sobre política até recentemente. A lei antiaborto do Texas realmente a incomodou, e as visões dela me parecem bastante complicadas, para não dizer incompatíveis com as minhas. Ela afirma que o feto é, de fato, uma criança, um ser humano, e que, como cristã, ela jamais desejaria realizar um aborto ou ver outros cristãos abortarem. No entanto, ela me disse que criar leis antiaborto é injetar moralidade religiosa num sistema legal inerentemente secular, o que ela afirma ser análogo a forçar crenças cristãs em não-cristãos. Ela acredita que o direito de uma criança à vida é suplantado pelo direito da mãe de escolher se quer o bebê.
Perguntei-lhe se seria aceitável dar fim à vida de uma criança de um ano de idade, pelas mesmas razões, mas ela enfaticamente diferenciou que o cálculo moral muda, pois o bebê no ventre depende biologicamente da mãe e que a mãe deve sacrificar a sua própria saúde nutricional e mental, as suas oportunidades financeiras e de carreira etc. Ela também indicou que um adulto que cuida de uma criança pequena tem outras pessoas a permitir-lhe partilhar a responsabilidade do cuidado da criança a um terceiro; uma mãe com uma criança no ventre não tem tais opções. Segundo a visão dela, “forçar” a mulher a levar a gravidez até o fim, para depois deixar o bebê aos cuidados de outra pessoa, também seria imoral, pois a mulher está sendo forçada contra a sua vontade a sacrificar a sua própria saúde física e mental, além das suas ambições, por um bebê que não desejava.
O seu último argumento foi que, a menos que o estado esteja disposto a cuidar da criança depois de nascer (seja por meio de adoção estatal ou serviços sociais financiais pelo governo), o estado não tem nenhum fundamento moral para promulgar a legislação antiaborto, uma vez que mal maior abundaria com o sofrimento resultante da pobre condição material das mães e bebês (em oposição ao que ela enxerga como o mal menor de dar fim ao bebê no ventre logo no início da gravidez).
Ela ficou frustrada e chorosa com este impasse, quando eu lhe disse que nenhuma destas considerações justifica matar um bebê no ventre. Será que existe uma maneira melhor de persuadi-la da visão pró-vida?
Donald
Texas
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Donald, a reação chorosa da sua esposa aos seus argumentos razoáveis me sugere que há muito mais em jogo do que discordância política. Talvez haja feridas profundas que a sua esposa experimenta e que moldam a sua forma de pensar. Será que ela teve um aborto antes de vocês dois se conhecerem? Será que ela foi estuprada ou abusada sexualmente quando menina? Você está lidando com uma situação volátil que demanda grande sensibilidade. Em vez de se preocupar com o modo de persuadi-la para que ela adote a visão pró-vida, você talvez deva simplesmente fazer perguntas profundas para tentar tirar o fardo do coração dela e para que ela revele por que realmente acredita nisso. Como filósofo, e não conselheiro, o máximo que posso fazer aqui é abordar os argumentos a favor e contra que vocês discutiram.
Muitos anos atrás, tive um debate com o destacado filósofo secular Richard Taylor. No jantar, surgiu o assunto dos direitos ao aborto, e Taylor condenou com a maior veemência a prática do aborto sob demanda. O que Taylor entendeu com clareza é que o aborto não é, fundamentalmente, uma questão religiosa, mas ética e, enquanto eticista secular, opunha-se fortemente a ele. Sugiro que você tente ajudar a sua esposa a enxergar que esta questão não é, fundamentalmente, religiosa e que, portanto, proporcionar proteções legais para crianças nascituras não é imposição dos valores religiosos pessoais sobre a sociedade secular.
Parece-me que há aí duas perguntas, cujas respostas determinarão a posição de alguém quanto aos direitos ao aborto. (1) Será que os seres humanos possuem valor moral intrínseco? E (2) será que o feto em desenvolvimento é um ser humano? A primeira pergunta é filosófica e a segunda, biomédica. Nenhuma delas é religiosa.
A resposta a (1) é, penso eu: “Sim, os seres humanos possuem valor moral intrínseco”. Os seres humanos não possuem meramente valor extrínseco, como coisas a serem usadas, mas são, sim, intrinsicamente valiosos, como fins em si mesmos. Em todo caso, a Declaração de Independência se compromete com o valor intrínseco dos seres humanos: “Sustentamos que estas verdades são evidentes: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade”. Assim, a nossa nação está fundada no valor intrínseco de cada ser humano.
A resposta a (2) é indubitável. “Sim, o feto em desenvolvimento é um ser humano”. Um feto é organismo biológico que não se trata de canino nem felino nem bovino nem outra coisa além de um membro da espécie humana nos primeiros estágios de desenvolvimento. Segue daí que esse pequeno ser tem valor moral intrínseco e, portanto, é dotado de direitos humanos fundamentais, o primeiro dos quais, de acordo com a Declaração, é o direito à vida. O aborto é, portanto, uma forma de homicídio.
Ora, a sua esposa concorda com a minha resposta a (2). O feto é “uma criança, um ser humano”. Suspeito que ela também concorde com a minha resposta a (1), por qualquer que seja a razão. No entanto, segue daí que a preocupação em proporcionar proteção legislativa para o direito da criança à vida não é, de nenhuma maneira, forçar as crenças cristãs sobre a sociedade secular. Richard Taylor ficaria embaraçado com tal sugestão.
A questão passa a ser, então, se o direito à vida intrínseco do feto é anulado por algum princípio moral superior. O aborto sob demanda, na ausência de tal princípio moral justificador, seria violação dos direitos humanos do nascituro. A sua esposa parece reconhecer a necessidade de tal princípio justificador, pois “Ela acredita que o direito de uma criança à vida é suplantado pelo direito da mãe de escolher se quer o bebê”.
Porém, por que é que ela pensa que a mãe tem esse direito, que se trata, na verdade, do direito de matar o seu filho, outro ser humano distinto de si mesma, e por que pensar que tal direito suplanta o direito da criança à vida? Não vejo nenhuma razão para pensar que uma pessoa tenha o direito de cometer homicídio contra um ser humano inocente, muito menos que tal direito suplante o direito da criança à vida, algo reconhecido e inerente.
Você retorquiu, perguntando por que “seria aceitável dar fim à vida de uma criança de um ano de idade, pelas mesmas razões”. A resposta da sua esposa, de que “o bebê no ventre depende biologicamente da mãe e que a mãe deve sacrificar a sua própria saúde nutricional e mental, as suas oportunidades financeiras e de carreira etc.”, não é convincente. A ideia, no caso, parece ser que a comodidade da mãe sobrepuja o direito moral da criança à vida. De novo, simplesmente não vejo que alguém tenha o direito a viver uma vida livre de sacrifícios, muito menos que tal suposto direito suplante o direito à vida de outra pessoa, de modo que alguém seja moralmente justificado em matar a outra pessoa a fim de evitar sacrifícios pessoais. Como você disse, sacrifícios enormes se exigem de jovens mães de criancinhas e, ainda assim, a lei não tolerará o assassinato de crianças por parte das suas mães, por tais motivos.
Quem quer que pense que criar crianças é mais fácil do que a gravidez provavelmente jamais teve filhos! Sim, da mulher com uma gravidez indesejada se exigem grandes sacrifícios; porém, este não é argumento para que ela tenha o direito a uma vida livre de sacrifícios, ou que tal suposto direito justifique matar outro ser humano inocente. Pensar que possa ser assim, como você bem indica, leva a consequências absurdas como a legalidade de matar crianças pequenas.
O último argumento da sua esposa sobre a necessidade do estado de proporcionar o cuidado para crianças pequenas me parece um pouco mais do que uma desculpa para as suas visões abortistas. Por que é que a conclusão não seria que o estado deveria oferecer tais serviços, e não que as mães devam ser autorizadas a matar sob demanda os seus filhos indesejados? De todo modo, por que pensar que deva ser o estado a proporcionar tais serviços? Há serviços em abundância disponíveis por organizações filantrópicas privadas, e tenho testemunhado em primeira mão a ajuda dada a jovens mães por maternidades que defendem o direito à vida. Como é que podemos manter com seriedade que o mal da pobreza é maior do que o mal do homicídio em massa de inocentes? Será que deveríamos evitar a pobreza matando as pessoas que, provavelmente, vão ficar pobres?
- William Lane Craig