#353 Deus Permitindo Maldades Horrorosas
May 16, 2015Dr. Craig,
Tentei por diversas vezes fazer você explicar o seguinte.
1) Como pode ser possível que um ser maximamente grande tenha uma razão "suficiente" para permitir coisas como o estupro de uma criança, se você diz que tal ato é "objetivamente" mal?
Parece-me que isso é tão ilógico, quanto um ser, maximamente grande, ter uma razão suficiente para permitir que 2 + 2 = 5. Se 2 + 2 = 4, então nenhuma quantidade de poder, vontade, ou razão suficiente pode mudar esta verdade objetiva! Eu gostaria de ouvi-lo explicar como, se no mesmo sentido que "Criança + Estupro = mal objetivo", um ser maximamente moral poderia encontrar razão suficiente para permitir que isso seja autorizado em qualquer mundo possível?
Suas tentativas anteriores, sugerindo que Deus permite tal mal a fim de ter mais almas vindo a Ele livremente, simplesmente não parece fazer sentido lógico. Na melhor das hipóteses, isto é pressupor que um ser maximamente grande poderia agir contrariamente às suas próprias verdades objetivas para produzir um bem maior. (Permitindo o sofrimento de uma criança inocente = mais almas salvas) Mas isso faz mais sentido do que 2 + 2 = 5? Para mim certamente não! Deus poderia, para salvar almas, permitir solteiros casados, círculos quadrados etc.?
Se (estupro de crianças) "é" objetivamente um mal, como você diz, então até mesmo Deus não poderia ter uma razão suficiente para permiti-lo. Permitir o sofrimento de uma criança para salvar uma alma, torna-se um ato discricionário de tomada de decisão subjetiva de Deus, e não uma verdade objetiva enraizada em sua própria natureza. Se Deus pode permitir que esse ato ocorra, segue que, apesar de nossas objeções subjetivas para tais atos, Deus tem um propósito em permitir que ele seja realizado. Se Deus permitir, segue, logicamente, que não pode ser objetivamente errado; de que outra forma Deus poderia ter razão suficiente para permitir isso? Parece que você quer as duas coisas: mas verdades objetivas não tem razões suficientes para ser outra coisa senão verdadeiro ou falso!
2) Um mundo em que eventos tais como o "Holocausto" não ocorrem é maximamente maior do que um mundo em que tais eventos ocorrem. O Holocausto ocorreu! Segue que o nosso mundo não é maximamente grande!
Segue logicamente que, se fosse até mesmo possível que tal mundo pudesse existir, que existiriam apenas tais mundos se de fato um ser maximamente grande existisse.
Por que um ser maximamente grande criaria um mundo em que a sua grandeza máxima não é refletida?
O mundo em que vivemos é, muitas vezes, muito cruel e parece que o chamado mal é arbitrariamente medido de forma injusta.
Uma criança é estuprada e morre, deixando para trás uma família amorosa e sem nunca ter conhecido as alegrias de crescer, casar, ter filhos próprios, mas muitos Nazistas, incluindo o Dr. da Morte: Josef Mengele, escapam e vivem uma vida de rei por muitos anos. Justo? Um sinal de grandeza máxima para trazer mais almas para Cristo? A verdade é que o agnosticismo e o ateísmo são principalmente o resultado da crueldade e do mundo em que vivemos: É difícil acreditar que um ser maximamente grande permita menos do que grandeza máxima prevalecendo em qualquer mundo possível. Então, o que é falado ao agnóstico e ateu? Acredite deste ou daquele jeito, ou então um mundo muito mais cruel o espera: Mas, que tipo de ser maximamente grande se esconde de sua criação e espera lealdade cega, a fim de chegar a outro mundo em que somos informados que ele vai realmente refletir sua grandeza máxima? Por que não criar esse mundo em primeiro lugar? Eu costumava ser um cristão devoto, mas tenho visto tanto minha mãe quanto meu pai serem roubados de suas faculdades mentais, depois de anos de serviço fiel. O mundo cruel em que meu pai mora é de 24 horas de dor e ataques de demência, a mesma doença que matou a minha própria mãe [...] Mas eu sou apenas um dos milhões de membros da espécie humana que assistem servos fiéis sendo recompensados nesta vida com demência, Alzheimer, Câncer, Gulags, nazistas, tornados, furacões, motoristas embriagados, etc [....] A realidade Dr. Craig, é que o mundo não reflete a grandeza máxima, o que reflete são medidas arbitrárias de prazer e dor em que todos devemos por vezes perguntar: Por quê? Não vou dizer, arrogantemente, ter certeza de que Deus não exista, mas está se tornando cada vez mais difícil para eu acreditar que uma ser pessoal e maximamente grande existe.
David
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Meu próprio pai morreu de doença de Parkinson, David, e eu assisti com horror a sua descida lenta na demência; de um empresário de sucesso vibrante a um quase morto frágil e impotente. Então, eu simpatizo com a sua situação e entendo alguma coisa sobre a agonia que você deve sentir.
No entanto, suas perguntas, embora sinceras, incorporam uma série de equívocos que precisam ser corrigidos. Vamos discuti-los, por sua vez.
1. Como pode ser possível que um ser maximamente grande tenha uma razão "suficiente" para permitir coisas como o estupro de uma criança, se você diz que tal ato é "objetivamente" mal?
Esta é uma expressão da chamada versão lógica do problema do mal, que afirma que a existência de Deus é logicamente incompatível com os males do mundo. O ônus da prova aqui, na verdade, repousa sobre os ombros do não-teísta que afirma que isto é logicamente impossível. Esse fardo provou ser tão pesado que dificilmente algum filósofo hoje defende a versão lógica do problema do mal. É fácil fornecer uma resposta logicamente possível à sua pergunta. Para qualquer mal que o não-teísta pode nomear, o teísta pode dizer que é logicamente possível que, ao permiti-lo, dois eventos semelhantes (e assim o dobro do mal) teriam sido evitados. Se isso não for o suficiente, então torne cinco vezes mais ou cem vezes mais, qualquer um desses cenários é logicamente possível. Você pode dizer que isso é altamente improvável. Certo, mas então você estaria abandonando a versão lógica do problema do mal para a versão probabilística, a qual é uma outra discussão.
O equívoco atrás de sua pergunta, David, surge em seu comentário: "Se Deus permitir, segue, logicamente, que não pode ser objetivamente errado." Você está sob a falsa impressão de que, se Deus permitisse que algum ato ocorra, então esse ato não poderia ser objetivamente errado. Não admira que você ache que Deus, permitindo um ato de maldade, seja como Ele permitir 2 + 2 = 5! Você acha que Deus permitindo um mal, de alguma forma, transforma esse ato de objetivamente mal em objetivamente bom ou, pelo menos, neutro, o que é impossível. Isso é confuso. Quando Deus permite que as pessoas pequem, os atos pecaminosos permanecem como mal. Mas Deus permitindo-os pecar não é mal. O que você deveria ter dito é que "Se Deus permite, então segue logicamente que o fato que Deus o permitiu não pode ser objetivamente errada". Você fez um salto ilógico da aceitabilidade moral de Deus em permitir um ato para a aceitabilidade moral do ato em si.
Você tenta justificar este salto perguntando: "De que outra forma Deus poderia ter uma razão suficiente para permitir isso?" Muito simplesmente através da realização de um bem maior ou prevenindo um mal maior. Em nossas vidas fazemos isso o tempo todo: nós permitimos que males ocorram porque, assim, alcançamos um bem maior ou então evitamos algum mal pior. Não é preciso ter a capacidade mágica de transformar um ato mau em um ato bom a fim de ter uma razão moralmente suficiente para permiti-lo.
2. Por que um ser maximamente grande criaria um mundo em que a sua grandeza máxima não é refletida?
Os cristãos acreditam que a grandeza máxima de Deus se reflete no mundo, particularmente na morte auto-sacrificial, expiatória, de Cristo por pecadores indignos. O seu argumento de que a grandeza máxima de Deus não se reflete neste mundo, David, é realmente confuso. Considere o seu argumento inicial:
1. Um mundo em que eventos tais como o "Holocausto" não ocorrem é maximamente maior do que um mundo em que tais eventos ocorrem.
2. O Holocausto ocorreu.
3. Portanto, o nosso mundo não é maximamente grande.
Este é um argumento bizarro. É evidente que você não entende o termo técnico "grandeza máxima". A grandeza máxima é uma propriedade de Deus apenas, então a conclusão é trivial. Ninguém pensa que o mundo criado é maximamente grande. Mesmo aqueles que pensam que este é o melhor mundo possível, não afirmam que é maximamente grande; e não há nenhuma razão para pensar que até mesmo exista o melhor mundo possível (ou conjunto de mundos), e muito menos que este é!
Você, então, afirma: "Segue logicamente que, se fosse até mesmo possível que tal mundo pudesse existir, que existiriam apenas tais mundos se de fato um ser maximamente grande existe." Essa inferência defeituosa é o que Alvin Plantinga chamou de "O lapso de Leibniz." Leibniz equivocadamente inferiu a partir da onipotência de Deus que este deveria ser o melhor mundo possível. O que ele não percebeu é que existem mundos que podem ser logicamente possíveis, mas, mesmo assim, não viáveis para Deus materializar. Como Plantinga aponta, enquanto mundos sem pecado de criaturas livres são logicamente possíveis, eles podem não ser viáveis para Deus, tendo em conta as decisões livres das criaturas. Há, portanto, apenas um subconjunto de mundos logicamente possíveis que são viáveis para Deus materializar, e pode ser que nenhum deles seja mundos que inclua tanto bem moral quanto o mundo real sem incluir igualmente tanto mal moral. [1]
Você, então, começa a investir contra a crueldade e injustiça do mundo. David, é claro, o mundo é cruel e injusto! Qual Bíblia você tem lido? A Bíblia ensina que este é um mundo pecador caído e que "o mundo inteiro está sob o domínio do maligno" (I João 5:19). Toda a criação geme em dores de parto por sua redenção (Romanos 8:18-22). "No mundo tereis aflições", Jesus advertiu, "mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (João 6:33). Como cristãos, seguimos um Salvador crucificado, ele mesmo vítima de injustiça humana e crueldade, e "o servo não está acima do seu mestre" (João 15:20). Nossa esperança não está neste mundo, mas na ressurreição, quando cada enfermidade física e doença será permanentemente vencida. A própria ressurreição de Jesus é o fundamento da nossa esperança.
"Que tipo de ser maximamente grande se esconde de sua criação e espera lealdade cega, a fim de chegar a outro mundo em que somos informados que ele vai realmente refletir sua grandeza máxima?", você pergunta. Que entendimento perverso do cristianismo você tem! Deus não se esconde da criação ou exige lealdade cega; Ele se revela tanto na criação quanto na história da humanidade através da encarnação e ressurreição de Jesus Cristo. Não só Ele dá evidências de Si mesmo na criação, o que é suficiente para todas as pessoas (Romanos 1:20), mas mais do que isso, através do Seu Espírito Ele busca chamar todas as pessoas a Si mesmo (João 16:8). Se Deus se esconde, é apenas daqueles que voluntariamente fecham seus corações e orgulhosamente se recusam a buscá-Lo com a devida humildade.
Você pergunta: "Por que não criar esse mundo em primeiro lugar?" Muito simples, porque esse mundo é o resultado da escolha das pessoas livres de obedecer e adorar a Deus. Este mundo é um vale de tomada de decisão em que temos a enorme responsabilidade de determinar nosso destino eterno. Deus quer que você O conheça e goze-O para sempre; mas Ele não vai forçar-Se para cima de você.
Dos seus comentários finais, David, é evidente para mim que você realmente está sofrendo do que eu chamo de problema emocional do mal, e não do problema intelectual do mal. Então deixe-me deixar de lado o manto de filósofo e oferecer-lhe algum conselho pastoral. Seus pais apostaram suas vidas sobre a verdade da fé cristã. Você acha que eles ficariam felizes em vê-lo se afastar de fé cristã por causa do sofrimento deles? Eles acreditavam que o sofrimento desta vida era apenas um momento infinitesimal em comparação com a eternidade que eles iriam passar com Deus no céu. Se fossem perguntar se eles iriam agüentar seus anos de sofrimento na Terra a fim de ganhar a eternidade, eles iriam responder sem hesitar: "Sim! Milhões de vezes!" Que conforto, que esperança o ateísmo tem para lhe oferecer em vez disso? Por que rejeitar o consolo que pode ser encontrado em Cristo e na esperança da ressurreição? Para onde você vai em vez disso? Que esperança você tem para seus pais? Ao afastar-se de Deus, você se afasta da única resposta para o sofrimento dos seus pais.
Agora, é claro, se você tivesse boas razões intelectuais para pensar que a esperança cristã é falsa, então você teria que agüentar e abraçar o desespero. Mas você não precisa fazer isso, David! Seus argumentos são confusos e mal concebidos. Eu temo que eles sejam misturas intelectuais para justificar sua rejeição emocional de Deus. Não se deixe enganar por estes argumentos deficientes. Confesse o seu pecado, busque a Deus, e encontre conforto nEle. Seus pais ficariam felizes.
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[1]
Alvin Plantinga, Deus, a Liberdade e o Mal (São Paulo: Vida Nova, 2012). Você precisa ler este livro.
Alvin Plantinga, Deus, a Liberdade e o Mal (São Paulo: Vida Nova, 2012). Você precisa ler este livro.
- William Lane Craig