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#644

October 30, 2019
Q

Caro Dr. Craig,

Na aula do curso Defenders [Defensores] de 7 de julho de 2019, o senhor defendeu a interpretação não-literal de Gênesis 1—3, em razão das descrições da 1) criação do mundo, 2) criação do homem e da mulher, 3) irrigação do mundo com fontes, e não chuva, 4) serpente falante.

Pois bem, sua alegação é que a descrição disto tudo não deve ser tomada literalmente, considerando-se:

i) a tensão entre as narrativas de criação dos capítulos 1 e 2,

ii) a aparente descrição antropomórfica de Deus como homem, esculpindo Adão da terra e realizando uma cirurgia para criar Eva,

iii) a declaração de que não havia chuva e de que vapor saía das fontes para irrigar a terra, e

iv) a serpente falante.

 

Ao que me parece, ou o senhor está errado neste ponto ou não entendo sua alegação (ou as duas coisas juntas).

Primeiro, mesmo algo sendo claramente falso, não se tem daí a implicação de que a pessoa não creria, a menos que visse ser claramente falso também.

Segundo, o autor de Gênesis podia acreditar que a) agora chove e, b) no começo do mundo, não chovia. a) e b) são coerentes. O senhor parece sugerir que o conhecimento que o autor tinha do sistema aquático excluiria sua crença literal nos primeiros capítulos de Gênesis, e o mesmo se daria com a sequência da criação nos capítulos 1 e 2, a forma humana, o caminhar no jardim ou a criação de Adão e Eva.

 Por que pensar que o escritor de Gênesis não pudesse crer numa diferença entre a maneira como as coisas eram no começo e no tempo em que escreveu Gênesis? Sua forma argumentativa não me é clara.

Grato,

Sean

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Fico feliz de, enfim, receber uma pergunta relacionada a minha pesquisa atual sobre o Adão histórico! Porém, acho que você falou com mais propriedade do que pensava, Sean, ao dizer: “Sua forma argumentativa não me é clara”. Seu resumo de minha aula é uma baita confusão.

Pois então, deixe-me esclarecer meu argumento. A pergunta que faço é se temos de entender Gênesis 1—3 literalmente. Minha alegação é modesta: não, estes capítulos podem, plausivelmente, ser interpretados de modo figurativo.

Em defesa de minha afirmação, argumentei que Gênesis 1—3 se conforma à noção que os folcloristas têm de mito: narrativa sagrada que busca fundamentar realidades presentes para o autor em eventos do passado primordial. Tal função do mito é denominada etiologia, e Gênesis 1—3 está repleto de temas etiológicos. Além disso, mostrei que mitos costumam ser de natureza figurativa e não devem ser interpretados literalmente, dando alguns exemplos extrabíblicos, inclusive exemplos do Antigo Oriente Próximo.

Naturalmente, surge a questão: será que as narrativas de Gênesis 1—3 devem ser entendidas literalmente? Defendo que há dois fatores de peso a favor da leitura não-literal dessas narrativas: (1) As narrativas contêm muitos elementos fantásticos, onde “fantástico” é termo técnico que significa “palpavelmente falsos se tomados literalmente”. Ademais, tais elementos não são fantásticos apenas para nós, modernos, mas o seriam também para o israelita antigo. Vale notar de passagem que não categorizo como fantásticos elementos milagrosos nas narrativas, uma vez que causação sobrenatural divina é perfeitamente plausível. (2) As narrativas contêm elementos incoerentes que não podem ser verdadeiros, se entendidos literalmente. É caraterística de mitos, em contraste, que quem os conta não se incomode com diferentes versões das histórias que sejam incoerentes umas em relação às outras, uma vez que não precisam ser entendidas dentro de uma espécie de literalidade engessada. O autor de Gênesis parece bem despreocupado em passar a limpo as incoerências entre os capítulos 1 e 2 com as quais comentaristas lutam há séculos. Ele não parece se importar que sejam incoerentes, atitude que sugere uma deliberada interpretação não-literal. Sob cada um dos dois pontos, dou exemplos múltiplos, de modo que, mesmo que um exemplo não seja probatório, em conjuntos constituem uma boa defesa cumulativa da não-literalidade.

Considere, agora, suas objeções ao meu primeiro fator acima:

 “Primeiro, mesmo algo sendo claramente falso, não se tem daí a implicação de que a pessoa não creria, a menos que visse ser claramente falso também.” Excelente colocação, Sean! É por isso que, em cada caso, tomo cuidado para recorrer a exemplos de coisas que não apenas nós, modernos, acharíamos fantásticas, mas também o fariam os israelitas antigos. Considere as descrições antropomórficas de Deus em Gênesis 2—3. O autor de Gênesis acabara de descrever Deus como o criador transcendente de toda a esfera física em Gênesis 1.1. Assim, sabia que Deus não tinha um corpo físico humanoide, conforme descrito em Gênesis 2—3, sem contar nos mitos politeístas pagãos dos vizinhos de Israel. Portanto, é muito plausível que ele não pretendesse que tais descrições antropomórficas fossem tomadas literalmente.

“Segundo, o autor de Gênesis podia acreditar que a) agora chove e, b) no começo do mundo, não chovia.” Claro, é possível. Mas é plausível? É tentador descartar a ausência de chuva antes da criação do homem como se fosse algo fantasioso, com base em nosso conhecimento da enorme idade da terra. É absurdo pensar que nunca choveu na era jurássica, por exemplo. No entanto, obviamente que o autor de Gênesis não tinha tal conhecimento. Por isso, devo argumento com base no modo como ele teria enxergado as coisas. Minha alegação é que os antigos israelitas tinham um bom entendimento do ciclo aquático.[1] Diversas passagens do Antigo Testamento mostram que eles sabiam que a chuva vinha das nuvens, o que era conhecimento comum entre outros povos antigos da região. Observava-se que a chuva enchia os lagos, rios e ribeiros. Enquanto fazendeiros e pastores, saberiam da evaporação e dos problemas que ela gera. Dada sua compreensão do ciclo aquático, então, é implausível que pensassem estar a terra, outrora, repleta de mares, rios e riachos (Gênesis 1.9-10; 2.6, 10-14) e, todavia, a água não ter evaporado para formar nuvens de chuva! É plausível dizer que a descrição de uma terra estéril e seca, desprovida de chuva, embora suprida de rios e riachos enchendo lagos e mares, não tinha a intenção de descrever uma era real no passado histórico da terra.

Quanto ao meu segundo fator — as incoerências entre os capítulos 1 e 2 em relação à ordem da criação do homem, da vegetação e dos animais —, não se pode resolvê-las simplesmente dizendo que as coisas eram diferentes no começo, pois as duas ordens de criação não podem ser literalmente verdadeiras ao mesmo tempo. Em minha aula, compartilhei algumas formas como se buscou harmonizar as narrativas, deixando à vontade a sua decisão quanto à interpretação mais plausível. Mesmo sendo plausíveis, permanece ainda o problema de por que o autor não decidiu reconciliar as incoerências, sendo-lhes tão indiferente.

Nenhuma destas considerações, tomadas isoladamente, é um argumento fulminante, mas, em conjunto, elas apresentam argumento cumulativo bastante forte de que a interpretação não-literal de Gênesis 1—3 é opção plausível para o intérprete bíblico fiel.  

 

[1] Para uma boa discussão, ver Vern S. Poythress, “Rain Water versus a Heavenly Sea in Genesis 1:6-8”, Westminster Theological Journal 77 (2015): 181-191.

 

- William Lane Craig