#518 Diálogo sobre o argumento cosmológico kalam
February 10, 2017É muito raro eu entrar numa conversa virtual com alguém, mas quando um seguidor no Facebook chamado Bob levantou uma objeção ao argumento cosmológico kalam (ACK), seu comentário enigmático instigou minha curiosidade. Pedi que ele se explicasse, e assim teve início um diálogo sobre os méritos de sua objeção. Sinceramente desejava ajudar Bob a ver os seus deslizes e a elaborar sua objeção com mais cuidado. Parece que de nada adiantou! Penso que a objeção de Bob seja uma emaranhado de confusão; ele acha que eu preciso de umas aulinhas de lógica! Com sua permissão, estou postando nosso diálogo para vocês decidirem por si mesmos.
Penso que nossa conversa possa ser útil de inúmeras maneiras. Ilustra bem o valor das duas perguntas de Greg Koukl: “O que você quer dizer com isso?” e “Como você chegou a essa conclusão?”. O que frequentemente se descobre é que a outra pessoa está usando palavras de um modo idiossincrático e que suas razões para crer assim são confusas. Também penso que nosso diálogo é útil da perspectiva pedagógica. Pergunte-se a cada réplica: “Como eu responderia a isso?” Este exercício o ajudará a desenvolver suas habilidades dialéticas. Por fim, espero que nosso diálogo sirva de exemplo de civilidade numa época em que pessoas de visões opostas podem ser muito incivilizadas umas com as outras. A crítica pode ser direta e contundente, mas cortês. Espero que goste de nossa conversa!
United States
Dr. Craig responde
A
O diálogo
Bob:
O ACK é como saltar do táxi, porque implica que o universo não existe e, então, interrompe essa linha de raciocínio em relação ao único princípio de que o teísta precisa para seu argumento.
WmLC:
Espere aí! Explique-se melhor. O que quer dizer “saltar do táxi”? Teria a ver com a falácia do táxi segundo Pruss?
Bob:
Significa descartar sua própria lógica quando ela não lhe serve mais.
“O universo não existe... com exceção desse único princípio de que preciso para elaborar esse argumento a favor desse ser por quem tenho um apego emocional enorme”.
É uma forma especializada de viés de confirmação.
WmLC:
Entendi. Trata-se mesmo de uma versão da falácia de Pruss que tem esse nome bem-humorado. Assim, deveria ficar claro que o proponente do ACK não pode ser acusado dessa falácia, pois ele nunca desiste ou abre exceções ao princípio “tudo que começa a existir tem uma causa”. Se alguém é culpado dessa falácia, deve ser o ateu que aceita o princípio em todos os outros casos, mas, então, arbitrariamente isenta o universo.
Quanto à sua afirmação acima, é difícil entendê-la. O proponente do ACK não afirma que “o universo não existe”. Ele afirma que “o universo começou a existir”. E de qual princípio ele precisa? Apenas o princípio causal enunciado, que ele sustenta sem exceção. Obviamente, se Deus começou a existir, ele precisaria de uma causa. Coisas eternas não começam a existir e, portanto, não precisam de causas.
Bob:
Mas o teísta vai e diz que o universo começou a existir. Quer dizer que causalidade também não existia antes disso. O ateu não é culpado de nada disso, pois não afirmamos que causalidade se aplica a qualquer coisa, a não ser a matéria e energia pré-existentes.
Se o teísta quiser escapar dessa falácia lógica, precisa dar um exemplo demonstrável de causalidade que não esteja dentro do universo. Do contrário, não consegue justificar sua isenção de causalidade sobre, digamos, a conservação de energia. Se o universo começou a existir, os princípios dentro desse universo começaram a existir.
WmLC:
Você comete uma petição de princípio ao dizer que causalidade não existia antes do começo do universo. Talvez você tenha a falsa impressão de que o proponente do ACK diga que nada existia antes do universo, mas ele não diz isso. Pelo contrário, sua suposição constante do princípio causal requer que causalmente anterior ao universo esteja um ser que não começou a existir e é incausado. Não há aí nenhuma falácia.
É falsa inferência dizer que princípios aplicáveis ao universo se aplicam SOMENTE dentro do universo. Considere princípios lógicos, por exemplo. Da mesma forma, o princípio causal é um princípio metafísico cuja aplicabilidade não se restringe ao universo. Você erroneamente considera que o princípio causal é um princípio físico como a lei da gravidade ou as leis da termodinâmica, que se aplicam somente ao universo. Em contraste, o princípio causal não é uma lei da natureza, mas um primeiro princípio da metafísica. É metafisicamente absurdo que o universo venha a existir a partir da inexistência.
Bob:
Não, não é absurdo. Isso segue a lógica do universo que não existe e permanece constante. É aí que os teístas começam a saltar do táxi. “Em contraste, o princípio causal não é uma lei da natureza, mas um primeiro princípio da metafísica.” Indício de um evento de causação que não esteja dentro do universo? Neste contexto, dizer “é metafísico” não é nada diferente de dizer “é mágico”, numa tentativa de salvar o argumento.
WmLC:
“Isso segue a lógica do universo que não existe e permanece constante.” A frase é ininteligível. O que quer dizer? Não há nenhuma falácia do taxi, pois não se abre nenhuma exceção para o princípio causal.
Metafísica não é nem um pouco mágica. O que é pior do que mágica é crer que o universo veio a existir sem uma causa. Uma aplicação coerente do princípio causal o leva além do universo. Para negar isso, é preciso dar alguma razão para restringir o princípio a algo como uma lei da natureza, o que não obviamente ele não é.
Fica claro para mim a partir de nossa conversa que você não está bem alegando uma falácia contra o argumento. Pelo contrário, você apenas nega a primeira premissa. Você seria mais claro em sua objeção se só dissesse simplesmente que rejeita a primeira premissa, em vez de tentar turvar as águas com acusações de falácia. Não há nenhuma falácia, somente uma discordância quanto à verdade da primeira premissa.
A questão, então, é se temos mais razões para achar a primeira premissa verdadeira, e não falsa. Considero minhas razões muito melhores que as suas, já que você não conseguiu justificar a afirmação de que a causalidade se aplica somente ao universo (pense novamente na analogia com as leis da lógica).
Bob:
A exceção ocorre quando se trata do princípio causal. Você está tentando dizer que o universo não existia, a não ser para o único argumento de que precisa para fazer o argumento funcionar. É a cúmulo de “saltar do táxi”.
Eu não disse que metafísica é necessariamente mágica. Disse que, nesse caso, não é anda diferente de invocar mágica.
Não, dizer que o universo não exigiu uma causa é realmente ser coerente, pois o princípio pelo qual uma causa precede um efeito existe dentro do universo.
Ela o leva além do universo? Você tem um exemplo observado de uma causa e efeito que não esteja dentro do universo?
WmLC:
Estou dizendo que o universo começou a existir, e o princípio causal EXIGE que haja algo causalmente responsável para que ele venha a existir. Não há nenhuma “falácia do táxi”, pois não se abriu nenhuma exceção ao princípio causal. Não se trata de “fazer o argumento funcionar”, trata-se do que está implicado se as duas premissas forem verdadeiras.
“o princípio pelo qual uma causa precede um efeito existe dentro do universo.” Ah, mas o que você precisa mostrar é que o princípio se aplica SOMENTE ao universo. Isso você não mostrou. Pense novamente nas leis da lógica, que também se aplicam ao universo, mas não estão limitadas a ele.
“Você tem um exemplo observado de uma causa e efeito que não esteja dentro do universo?” É claro que não, porque não posso observar algo além do universo. Mas a verdade das duas premissas implica a existência de uma causa assim. Pense na analogia do multiverso. Não podemos observar o multiverso porque estamos contidos no nosso, mas poderíamos ter boas razões para postular algo assim. Nenhum cosmólogo excluiria o multiverso simplesmente porque algo assim não pode ser observado.
Ficou claro para mim que sua rejeição do argumento se baseia, na verdade, não numa suposta falácia, mas em sua negação do princípio causal conforme expresso na primeira premissa. Você crê que o princípio causal se restringe ao universo, mas não tem nenhuma razão para restringi-lo a ele, assim como não tem para restringir as leis da lógica.
Bob:
Mas, se o universo começou a existir, o princípio da causalidade também começou a existir. Não é possível ter as duas coisas, eu estava me referindo a essa falácia.
“O universo não existia, a não ser por causa, sem nenhuma razão, desse princípio de que preciso para fazer meu argumento funcionar”.
Não.
WmLC:
“se o universo começou a existir, o princípio da causalidade também começou a existir.” Bob, que confusão. O princípio da causalidade não é uma coisa. Um princípio ou é verdadeiro ou é falso; não é algo que existe ou não existe. Você está confundindo uma verdade com uma coisa. Se o princípio é, de fato, uma coisa, seria no máximo algo como uma proposição. Mas proposições não começam a existir. São objetos abstratos que existem permanentemente (se é que existem!). Portanto, você não deve pensar que, se o universo começou a existir, o princípio da causalidade também começou.
O restante de sua mensagem parece como que uma citação minha, mas está toda truncada.
Bob:
Um objeto abstrato é definido como um conceito ou uma ideia. Tanto conceitos quanto ideias existem no universo. Você precisa mostrar um exemplo de algo pertinente a seu argumento que exista fora do universo para ter esperança sequer de salvar seu argumento.
Minha citação era um resumo do porquê seu argumento é falacioso. Você está tentando justificar o único princípio de que precisa a partir da não-existência e ignora sua própria lógica do universo que começa a existir. É uma falácia da exceção e viés de confirmação.
WmLC:
Você não sabe o que está falando. Ninguém define objetos abstratos como conceitos ou ideias imanentes no universo. Conheço a bibliografia sobre o assunto; já o estudo há mais de uma década. Objetos abstratos (se é que existem) incluem coisas como objetos matemáticos — por exemplo, números, conjuntos, além de formas, propriedades, proposições, mundos possíveis e assim por diante. Se tais coisas existem (tenho dúvidas a respeito), elas não começam a existir, mas transcendem o espaço e tempo. Portanto, a existência de coisas assim não é nenhuma exceção ao princípio causal. Se o princípio causal é mesmo uma espécie de coisa (tenho dúvidas a respeito), é uma proposição. Assim, ele não começa, como acontece com o universo.
Você acha que o princípio causal é sequer uma coisa? Eu não. Tudo-que-começa-a-existir-tem-uma-causa não é uma coisa. Se é, não é uma coisa que começa a existir.
Por isso, sua objeção não tem salvação. Depende da suposição de que o princípio causal é uma coisa que começa a existir. Boa sorte ao tentar provar isso!
Bob:
https://en.wikipedia.org/wiki/Abstract_and_concrete
Um objeto abstrato é um objeto que não existe em nenhum tempo ou lugar específico, mas existe como um tipo de coisa, isto é, uma ideia ou abstração.
Tente de novo.
Causalidade é um princípio que existe no universo. É assim que princípios funcionam. São propriedades de matéria e energia. Por exemplo, se não houvesse energia, não haveria nenhuma conservação de energia.
WmLC:
Quer dizer que a Wikipédia é sua fonte de conhecimento sobre objetos abstratos? Você nem mesmo entende o artigo. O autor está usando “ideia” num sentido muito abstrato, e não como pensamento. Isso fica evidente quando ele diz que ela não existe no tempo e espaço, como você alegou. Sua própria fonte e citação o refutam.
Você não entende os termos que usa. Princípios são verdadeiros ou falsos; coisas materiais não são.
Acho que, depois de nosso diálogo, ficou óbvio que você não conseguiu identificar nenhuma falácia no ACK. Pelo contrário, você simplesmente rejeita a verdade da primeira premissa. Você, no entanto, não tem nenhuma razão para fazer isso, uma vez que a validade de um princípio no universo não dá nenhuma justificava para dizer que ele só se aplica ao universo (cf. leis da lógica).
Na verdade, sua objeção é tão confusa que decidi acrescentá-la a minha lista de “Objeções tão ruins que eu não conseguiria inventá-las: as dez piores objeções do mundo ao ACK”. Você conseguiu superar uma das dez piores de antes!
Bob:
Wikipédia é reconhecidamente tão confiável quanto a Enciclopédia Britânica. Dizer que ele está usando o conceito de “ideia” em sentido abstrato é raciocínio completamente circular. Abstrato simplesmente significa algo não físico ou concreto. Isso não quer dizer que não é dependente do físico. Um pensamento é abstrato. Você tem um exemplo de um exemplo que não depende de uma mente?
É engraçado como você chama minha objeção de ruim e confusa, enquanto não consegue abordar nada dela.
Elaborei a falácia no ACK de um jeito que até uma criança de quatro anos consegue entender.
Você abandona sua própria lógica do universo que não existe quando chega ao único princípio de que precisa para fazer seu argumento funcionar. Isso é falácia da exceção/saltar do táxi.
WmLC:
Com nosso diálogo, finalmente entendi seu parágrafo final, que é tão obscuro que ninguém além de você entende. Agora que entendi sua objeção, percebo como é um emaranhado de erros. Vejamos seus erros:
1. Você acusa falsamente o argumento de cometer a chamada “falácia do táxi”, que envolve abrir uma exceção arbitrária para o próprio princípio explanatório aceito. O ACK obviamente não faz isso, uma vez que não se abre nenhuma exceção ao princípio de que tudo que começa a existir tem uma causa.
2. Numa prazerosa ironia, acontece que é você quem pode ser muito bem acusado de cometer a “falácia do táxi”! É você que aceita o princípio causal no universo, mas arbitrariamente isenta o universo desse princípio.
3. Sua tentativa de isentar o universo do princípio causal é uma falha patente: você falaciosamente infere que, porque o princípio se aplica ao universo, ele se aplica SOMENTE dentro do universo. As leis da lógica são contraexemplo óbvio, sendo aplicadas no universo, mas não somente nele.
4. Você reifica a primeira premissa do ACK e faz dela uma coisa, à qual, então, o princípio causal pode ser aplicado. Isso comete o que alguns filósofos chamam de falácia da concretude deslocada. A verdade “tudo que começa a existir tem uma causa” não é uma coisa.
5. Se o princípio causal é um tipo de coisa, seria uma proposição. Mas uma proposição não é um objeto abstrato que não começa a existir e, portanto, não é nenhuma exceção ao princípio causal. Você não entende a natureza de objetos abstratos. Mesmo sua própria fonte afirma que eles não existem no tempo e espaço.
6. Você mistura ideias no sento de objetos abstratos não-espaço-temporais com ideias no sentido de pensamentos, que são espaço-temporais. Pensamentos dependem de mentes; proposições, não.
Em resumo, é apenas seu orgulho que o faz pensar que não abordei a sua objeção. Você precisa engolir seu orgulho e aprender alguma coisa de nosso diálogo. Você não sabe tanto quanto acha que sabe.
Bob:
Se você entendeu, então entenderia que sua premissa 1 está totalmente errada. Sua lógica é “o universo não existia, exceto causalidade” com nenhuma justificação para a exceção da causalidade e nenhuma demonstração de que ela poderia ter sobrevivido fora do universo.
2: Isso é projeção. É você que está argumentando que o universo não existia. Se estiver aplicando os princípios existentes dentro do universo a antes de sua existência, não se pode aplicar apenas aquele que quiser. Você também tem de aplicar coisas como conservação de energia, que diz que energia permanece constante num sistema. Isso quer dizer que o universo não pode ter sido criado.
3: Quando você chama minha tentativa uma falha patente, você precisa lembrar que é você que não faz ideia como a lógica de fato funciona. É você que está alegando que o universo onde ela funciona não existiu em algum momento no passado. Você tem um exemplo observado direto da lógica sendo aplicada fora do universo?
4: Nunca disse ou deixei implícito que ela é uma “coisa”. Eu estava simplesmente seguindo sua conclusão lógica. Se o universo não existe, os princípios dentro dele não existem. Se você aplica qualquer um deles, você tem de aplicar todos. Se fizer isso, a conservação vence a causalidade.
5: Um objeto abstrato é uma ideia ou conceito. Ideias e conceitos começam a existir como propriedades da mente e, portanto, propriedades da matéria. Você tem um exemplo do número 12 fora do universo?
6. Você tem um exemplo de um conceito abstrato existindo “não” como a propriedade da mente?
Em resumo, você não abordou nada da minha objeção. Você fica racionalizando, ignorando e erguendo muros de entulho, na esperança de que vou me cansar e parar de refutá-lo.
Em vez de lançar o ônus em mim, tente perceber que você é que está argumentando que o universo não existia, e depois justifica a causalidade como se existisse antes do universo.
WmLC:
Não vejo nenhum proveito em continuar nossa conversa. Entendo sua objeção e identifiquei todos seus erros. A última palavra é sua. Só peço sua permissão para postar nosso diálogo, sem edições, para que outros possam lê-lo. Acho que será uma experiência pedagógica.
Bob:
Se você entendesse minha objeção, entenderia que não abordou nada dela.
Sim, faça isso, será assim para o iniciado em lógica.
Desde que esteja num formato em que eu possa postar e corrigir erros como os seus.
WmLC:
Obrigado!
- William Lane Craig