#431 Fatos brutos e o Argumento a partir de Seres Contingentes
February 19, 2018Eu tenho algumas perguntas sobre o Argumento Cosmológico de Leibniz, eu estou pensando se você poderia me ajudar a filtrar. Em seu livro Reasonable Faith, você declara: “A premissa (1) é uma versão modesta do Princípio da Razão Suficiente. Ela contorna as objeções ateístas típicas a versões fortes desse princípio. Porque (1) requer apenas que qualquer coisa existente tenha uma explicação de sua existência. Essa premissa é compatível com a existência de fatos brutos sobre o mundo”. Quais são os exemplos de alguns desses fatos brutos sobre o mundo que são compatíveis com essa premissa? Como cristãos, defendemos a crença de que nada pode existir sem ser de Deus. Como cristão, como podemos defender essa posição? Então como a premissa um pode ser compatível com a existência de fatos brutos? Você continua dizendo: “O que ela [a premissa (1) impede é que possam haver coisas que simplesmente existem inexplicavelmente”. Dizer que algo é um fato bruto não é a mesma coisa de dizer que algo existe inexplicavelmente? Se eu dissesse que o universo existe como um fato bruto, isso não seria o mesmo que dizer que o universo existe sem nenhuma explicação? Eu estou um pouco confuso sobre isso, se você puder explicar a diferença entre as duas distinções, isso seria ótimo.
A minha segunda pergunta é em relação ao universo existir pela necessidade da sua própria natureza. Para o universo existir pela necessidade da sua própria natureza, ele não teria de ser imutável? Pois tudo o que vemos no universo envolve mudança constante, pelo menos no nível molecular e atômico. O fato de o universo estar sempre mudando nos daria base para pensar que o universo não existe pela necessidade da sua própria natureza? Eu estou pensando se isso seria um bom argumento contra a existência necessária do universo.
Deus o abençoe,
Austin
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Para os leitores que não estão familiarizados com a versão de G.W. Leibniz do argumento cosmológico, vamos mostrar a minha formulação do argumento em Reasonable Faith, p. 106 (versão em inglês):
1. Tudo o que existe tem uma explicação para sua existência seja na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa exterior.
2. Se o universo tem uma explicação para a sua existência, esta explicação é Deus.
3. O universo existe.
4. Portanto, o universo tem uma explicação para sua existência (a partir de 1, 3).
5. Portanto, a explicação para a existência do universo é Deus. (a partir de 2, 4)
A sua pergunta, Austin, é sobre a premissa (1), a qual eu chamo de “uma versão modesta do Princípio da Razão Suficiente” que “contorna as objeções ateístas típicas a versões fortes desse princípio”. A própria formulação de Leibniz do Princípio da Razão Suficiente, em sua dissertação The Monadology, foi muito forte: “nenhum fato pode ser real ou existente, nenhuma afirmação pode ser verdadeira sem que haja uma razão suficiente para ser assim e não de outro modo”. Perceba que, para Leibniz, qualquer declaração verdadeira deve ter uma explicação. Isso requer que não haja fatos brutos, ou seja, fatos inexplicáveis”. Por outro lado, como eu expliquei em Reasonable Faith, minha formulação mais modesta do Princípio “requer apenas que qualquer coisa existente tenha uma explicação de sua existência. Essa premissa é compatível com a existência de fatos brutos sobre o mundo” (p. 107, versão em inglês). A minha versão do Princípio nega que há seres que existem sem qualquer explicação. Isso é tudo o que eu preciso para o argumento passar.
Você pergunta “Como cristão, como podemos defender essa posição”? Você parece pensar que se a versão fraca do Princípio é verdadeira, então a versão forte não é verdadeira. Isso não faz sentido. Se você também acredita na afirmação mais forte de que nem todos os seres tem uma explicação para a sua existência, mas também que todo fato tem uma explicação de ser e não o contrário, tudo bem. Você só não precisa defender muito uma afirmação para o argumento ter sucesso.
Você pergunta “Quais são os exemplos de alguns desses fatos brutos sobre o mundo que são compatíveis com essa premissa”? Bem, tipicamente, eles serão fatos que envolvem indeterminação quântica. Pessoas que pensam que a indeterminação quântica é real, e não está só na sua cabeça, pensam que não há explicação para, por exemplo, um isótopo radiativo declinar precisamente em um tempo t em vez de antes ou depois de t. Como um evento causalmente indeterminado, o declínio do isótopo em t não tem uma explicação. Enquanto o argumento cosmológico for considerado, não faz diferença, e então não há necessidade de discutir sobre isso. O que importa é se o isótopo em si tem uma explicação para existir, que certamente tem.
Ou considere declarações sobre livres escolhas da vontade. Não há explicação para o fato de Roberto chamar a sua esposa. Pois uma escolha livre deve ser casualmente indeterminada por fatores fora do próprio agente. Mas claro que o próprio Roberto, sem falar a sua esposa, não existe sem uma explicação para a sua existência. Mesmo se o fato de Roberto livremente chamar para a sua esposa não tiver explicação, não há seres não explicados nesse cenário.
Mais exemplos estão disponíveis, veja a minha discussão em “O Argumento Cosmológico”, em Philosophy of Religion: Classic and Contemporary Issues, ed. P. Copan and C. Meister [Oxford: Blackwell, 2007], pp. 83-97 (versão em inglês). Por exemplo, e sobre Grande Fato Conjuntivo Contingente (BCCF) composto de todos os fatos contingentes que são: p & q & r & s &...? O BCCF tem uma explicação? A questão é controversa. Porque se a explicação do BCCF declara um fato contingente, então, ele também deve ter uma explicação mais profunda, o que é impossível, já que o BCCF inclui todos os fatos contingentes que existem. Mas se a explicação declara um fato necessário, então o fato explicado por ela também deve ser necessário, o que é impossível, já que o BCCF é contingente. Portanto, nem todos os fatos podem ter uma explicação. Não há necessidade de o defensor do argumento cosmológico de Leibniz ter uma posição sobre essa questão. Pois o que importa é que não há seres que existem sem uma explicação para a sua existência, apesar de haver uma explicação do porquê o BCCF é verdade.
Você responde “Dizer que algo é um fato bruto não é a mesma coisa de dizer que algo existe sem nenhuma explicação? De modo algum! Como o exemplo acima mostra, pode haver fatos sem nenhuma explicação para ser e não o contrário, mesmo se tudo o que existe tenha uma explicação para a sua existência. (a não ser que você diga que fatos existem, veja a minha resposta na nota de rodapé 21 do capítulo em Reasonable Faith: “Um fato pode ser considerado uma proposição verdadeira. Como objetos abstratos independentes de períodos, proposições existem necessariamente, se elas existirem. O que é contingente sobre elas é o seu valor de verdade, se elas são verdadeiras ou falsas. Então a proposição existe por uma necessidade da sua própria natureza, enquanto que o seu valor de verdade pode ou não ter uma explicação. Então, fatos brutos não fornecem um contraexemplo para a minha versão modesta da premissa 1.
Você pergunta “Se eu dissesse que o universo existe como um fato bruto, isso não seria o mesmo que dizer que o universo existe sem nenhuma explicação? Certo, porque você estaria dizendo que não há explicação para a existência do universo. Dizer que a premissa 1 é compatível com a existência de fatos brutos, não é dizer que é compatível com qualquer fato ser bruto. Qualquer fato afirmando que “x existe” não será um fato bruto, se 1 é verdadeiro.
Então a diferença chave, para deixar claro, é entre coisas e fatos. Coisas são seres que existem; fatos são proposições verdadeiras. Um mea culpa: eu teria sido mais claro se eu tivesse chamado o argumento de Leibniz de “o argumento a partir de seres contingentes” em vez de “o argumento a partir da contingência”.
Para a sua segunda pergunta “Para o universo existir pela necessidade da sua própria natureza, ele não teria de ser imutável”? Eu não vejo razão para achar que sim. Um ser existente necessariamente pode ter caraterísticas contingentes. Poderia mudar em relação à essas características, enquanto continuam imutáveis em sua existência. Deus, por exemplo, pode existir necessariamente e, ainda assim, existir no tempo, como para mudar ao saber o tempo que é agora. Para um bom argumento do porquê o universo não ser um ser necessário, olhe em Reasonable Faith, p.108-110 (versão em inglês).
- William Lane Craig