#739
September 13, 2021Caro Dr. Craig,
Não sou cristão, mas respeito o seu trabalho e pesquisa. Hoje lhe estou escrevendo para pedir que talvez ofereça um breve panorama e a sua própria perspectiva do lado ateu da filosofia da religião.
Entre os seus artigos e escritos, os meus favoritos são aqueles onde o senhor fornece um panorama da história, das batalhas e do clima intelectual atual na filosofia da religião. Por exemplo, na sua matéria de capa para a revista Christianity Today, "Deus não está morto ainda”, o senhor descreve a renascença dos argumentos a favor da existência de Deus entre os filósofos contemporâneos e fala da importância de envolver-se no debate intelectual acerca destas questões. No seu artigo “A revolução na filosofia anglo-americana", o senhor investiga a renascença cristã na filosofia contemporânea e extrai algumas implicações para a cultura mais ampla. No seu artigo “Introdução: a ressurreição do teísmo”, o senhor interage especificamente com o trabalho de importantes filósofos teístas, como Plantinga, Swinburne e Leslie. E, por fim, na sua contribuição para The Cambridge Companion to Atheism, o senhor atenta para crítica teístas do ateísmo e faz levantamento do trabalho intelectual nesta área.
Em alguns destes artigos, o senhor também citou o artigo de Quentin Smith “The Metaphilosophy of Naturalism” [A metafilosofia do naturalismo], onde se destaca a crescente ressurgência do teísmo na filosofia analítica, desde quando era considerado insignificante do ponto de vista cognitivo até chegar à paridade epistêmica com o ateísmo. Estes artigos são importantes porque proporcionam uma visão de alto nível dos debates intelectuais entre ateus e teístas sérios, situando o contexto primário dos avanços e argumentos na literatura.
Como sabe bem, um dos principais defensores do ateísmo, Quentin Smith, faleceu ano passado. Smith era muito respeitado tanto por ateus quanto por teístas. Na esteira da morte de Smith, tenho interesse em saber se poderia dar um panorama da filosofia ateísta da religião, assim como fez com a filosofia teísta da religião. O senhor é um dos poucos teístas que interagiu com alguns dos principais defensores do ateísmo nas últimas décadas. Indivíduos como J. L. Mackie, Adolf Grunbaum, Paul Draper, Quentin Smith, J. H. Sobel, Evan Fales, Erik Wielenberg e Graham Oppy. Dada a sua pesquisa e interação rigorosas com o ateísmo sofisticado na filosofia da religião, gostaria de saber o que pensa do programa de pesquisa cético como um todo?
Por exemplo, assim como muitos acreditam que Richard Swinburne lançou o fundamento para a teologia natural contemporânea com a sua obra The Existence of God [A existência de Deus], igualmente se pode argumentar que a filosofia ateísta da religião encontrou a sua gênese em “The Miracle of Theism” [O milagre do teísmo], de J. L. Mackie, geralmente considerado uma das melhores defesas do ateísmo já publicadas. O que o senhor pensa da obra do professor Mackie e o seu período como o principal defensor do ateísmo durante a ressurgência causada por Swinburne e Plantinga?
Como Mackie foi aquele que ditou a agenda, tenho interesse em saber o que pensa de alguns dos seus contemporâneos e os seus respectivos trabalhos contra o teísmo, como Michael Martin, Richard Gale, Nicholas Everitt, Robin Le Poidevin, Keith Parsons, Theodore Drange etc. "On the Nature and Existence of God" [Da natureza e existência de Deus], de Gale, e "Atheism: A Philosophical Justification" [Ateísmo: uma justificação filosófica], de Martin, parecem seguir Mackie ao proporcionar críticas abrangentes do teísmo. Obviamente, gostaria também de ouvir o que pensa de Quentin Smith, que parecia seguir Mackie como o principal defensor do ateísmo no tempo dele, adotando uma abordagem singular, orientada pela ciência, para argumentar a favor do ateísmo. Também gostaria de ouvir o que tem a dizer sobre o trabalho inovador de William Rowe e Paul Draper sobre argumentos a partir do mal, além do programa de pesquisa oferecido por J. L. Schellenberg, que não apenas desenvolveu novos argumentos a partir do ocultamento divino, mas também apresentou uma trilogia que provê uma perspectiva sobre a religião cética que é compatível com o ateísmo (Prolegomena to a Philosophy of Religion [Prolegômenos à filosofia da religião; The Wisdom to Doubt: A Justification of Religious Skepticism [A sabedoria de duvidar: uma justificação do ceticismo religioso]; The Will to Imagine: A Justification of Skeptical Religion [A vontade de imaginar: uma justificação da religião cética]).
Parece que a sofisticação e rigor dos argumentos contemporâneos para o ateísmo andam em paralelo com muitos argumentos para o teísmo (argumentos cosmológicos por Alex Pruss, Josh Rasmussen e Rob Koons, argumentos teleológicos por Robin Collins etc.), sendo um exemplo o trabalho recente de Michael Tooley sobre os argumentos indutivos e carnapianos a partir do mal. Tenho interesse no que pensa sobre os avanços acima. Embora o senhor tenha indicado a ressurgência da filosofia e teísmo cristãos, também discutiu alguns dos formidáveis desafios de peso que ateus sofisticados ofereceram em resposta à renascença do teísmo. Especificamente, nas suas resenhas de “Logic and Theism”, de J. H. Sobel, e “Arguing about Gods”, de Graham Oppy, o senhor observa que Sobel e Oppy deram, respectivamente, um “golpe de esquerda e um cruzado de direita” na teologia natural. Gostaria de ver uma discussão mais extensa destes indivíduos e os seus trabalhos. Sei que já ofereceu resenhar acadêmicas dos aspectos técnicos dos livros deles, mas tenho interesse em saber mais a respeito do impacto destas obras no contexto geral da filosofia analítica da religião. Por exemplo, o senhor falou de Sobel e “Logic and Theism” repetidas vezes, de modo muito elogioso. O trabalho de Sobel parece ter seguido Mackie ao ditar nova agenda e padrão para a filosofia analítica da religião e, também, ao realmente dar forma à disciplina. “Logic and Theism” é considerado por muitos ateus como Graham Oppy e teístas como Rob Koons e Ed Feser a defesa talvez mais formidável do ateísmo jamais apresentada, e gostaria de saber se o senhor concorda com estas avaliações. Será que poderia também partilhar um pouco mais acerca de J. H. Sobel e o seu período como o principal defensor do ateísmo, e como o projeto dele era semelhante ou diferente dos principais defensores do ateísmo, como Rowe, Smith e Mackie?
O senhor também falou repetidas vezes de Graham Oppy como o mais formidável defensor do ateísmo hoje, sendo agora o portador da tocha da causa dos ateus após a morte de J. H. Sobel. Muitos teístas apontam para o livro de Oppy Arguing about Gods como a obra definitiva em oposição à teologia natural hoje. Assim como “Logic and Theism” de Sobel, tenho interesse em saber o que pensa da obra de Oppy e como ela deu o tom para o ateísmo dentro da filosofia da religião. O senhor afirmou que “ninguém pode ter a pretensão de um argumento teísta exitoso, a menos que lide, primeiramente, com as críticas de Oppy”. Queria saber se poderia dizer mais a este respeito e, talvez, contrastar a obra de Oppy com a de Sobel. Qual o senhor considera o desafio mais formidável contra o teísmo?
Tenho interesse na sua perspectiva de alguns outros filósofos da religião ateus formidáveis e os seus projetos. Por exemplo, Gregory Dawes sobre "Theism and Explanation” [Teísmo e explicação], Evan Fales sobre "Divine Intervention" [Intervenção divina], Bede Rundle sobre "Why is there Something rather than Nothing?” [Por que existe algo, em vez de nada?] e o projeto de Erik Wielenberg de desenvolver uma explicação secular da moralidade secular. Quais desafios e promessas alguns destes trabalhos ofereceram diante do teísmo e a favor do ateísmo? Fique à vontade para também oferecer perspectivas sobre obras e pessoas que não foram mencionadas. Também gostaria de saber as suas perspectivas sobre influência e metodologia. Por exemplo, parece que a obra de David Hume permeia profundamente a obra da filosofia analítica ateísta, com Sobel e Mackie como neo-humeanos, e Draper e Tooley a citar Hume como inspiração para os seus argumentos a partir do mal. O senhor pensa que esta é tendência que deve continuar? Igualmente, qual metodologia o senhor pensa ser ameaça mais desafiadora ao teísmo? A visão da comparação modelar de Graham Oppy, em que tomamos o melhor modelo do teísmo e do naturalismo e os comparamos com base em virtudes teóricas, ou a abordagem mais bayesiana adotada por Sobel e Draper?
Por último, quando J. H. Sobel faleceu, o filósofo católico Ed Feser observou: “Não se fazem mais filósofos ateus como antigamente. Com a partida de Mackie, Flew e Sobel, ateus filosóficos sérios parecem muito escassos”. Parece que, com a morte recente de Smith e, agora, de Kai Nielsen, o ateísmo filosófico sério perdeu muitos dos seus melhores defensores históricos. O senhor acha que veremos uma renascença da filosofia ateísta no futuro, assim como vimos com o teísmo? Quais são algumas promessas a longo prazo que o senhor vê para a filosofia ateísta da religião? Há muitas linhas e abordagens diferentes para investigar o tópico. Como observei antes, dada a sua posição como destacado filósofo da religião, que interagiu com o melhor do ateísmo ao longo de muitas décadas, creio que o senhor pode oferecer perspectiva única sobre alguns dos questionamentos que apresentei e tenho interesse em ouvir o que pensa. Obrigado pela atenção.
Atenciosamente,
Josh
Canada
Dr. Craig responde
A
Josh, não vou nem tentar responder à sua pergunta! Mesmo que pudesse — o que duvido —, exigiria escrever um livreto, e agora estou preso em outro projeto de escrita que toma praticamente todo o meu tempo de estudo.
Antes, incluo aqui a sua pergunta para a instrução e encorajamento dos nossos leitores de Reasonable Faith. Você proveu um panorama magistral do horizonte filosófico atual no que diz respeito ao ateísmo. Você deu aos nossos leitores uma boa ideia de quem são os principais atores hoje.
Ademais, espero que teístas, especialmente teístas cristãos, que lerem o seu relatório, saiam encorajados com o modo como filósofos cristãos são levados a sério por seus colegas seculares atualmente. O homem comum na rua talvez tenha a impressão, com as mídias sociais, de que os cristãos são perdedores do ponto de vista intelectual, não sendo levados a sério pelos pensadores seculares. A sua carta detona este estereótipo. Mostra que os cristãos estão prontos e capazes para competir com os seus colegas seculares no campo acadêmico.
Devo só acrescentar que você deu o panorama de apenas um aspecto do engajamento de filósofos cristãos com a comunidade filosófica mais ampla, a saber, os argumentos da teologia natural. Por mais incrível que pareça, a maioria dos filósofos cristãos não está sequer envolvida em tal projeto, mas faz trabalho importante e criativo em outras áreas, como epistemologia, ética, metafísica e, agora, teologia. No momento, estou trabalhando numa teologia filosófica sistemática e fico impressionado demais com o entrecruzamento que ocorre entre a filosofia e a teologia cristãs, ao interagir com questões como a natureza e a justificação da fé, os atributos divinos e assim por diante. De fato, agora é uma hora muito boa para ser cristão na filosofia!
- William Lane Craig