#773 Físicos e filósofos respondem ao argumento cosmológico kalam (Parte 4)
April 09, 2022Será que o Dr. Craig responderá, em algum momento, a isto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=pGKe6YzHiME? Há tanta coisa aí que está muito além da minha compreensão, embora boa parte me dê a impressão de que seja cheia de confusão e sem provas.
Paul
Taiwan
Dr. Craig responde
A
No trecho final de hoje, trataremos, primeiramente, das provas termodinâmicas favoráveis ao começo do universo e, então, em segundo lugar, da premissa causal segundo a qual tudo que começa a existir tem uma causa. Segue-se uma breve discussão sobre a natureza desta primeira causa antes do desfecho. Como de costume, as minhas respostas aparecem em itálico, na cor azul.
D. SEGUNDA CONFIRMAÇÃO CIENTÍFICA
NARRADOR: O Big Bang não prova que o universo teve começo, apenas que ele evoluiu de um estado muito aquecido. Porém, quando se trata da física, o defensor do kalam tem outra carta para usar: a segunda lei da termodinâmica. A segunda lei afirma que a entropia, grosseiramente uma medida de desordem, aumenta com o tempo. E assim funciona o argumento: se o universo fosse eterno no passado, já estaríamos em estado máximo de entropia. Uma vez que não o estamos, o universo não pode ser eterno no passado. Isto também se relaciona com o mistério de por que o Big Bang se deu em estado de entropia surpreendentemente baixo. E se o universo fosse infinito?
ALAN GUTH: Talvez estejamos vivendo num sistema físico em que não haja a máxima entropia possível. Suponha que a entropia apenas consiga crescer para sempre, e um universo a inflacionar eternamente se pareça com tal sistema, embora ninguém realmente saiba, com certeza, como definir a entropia de um universo a inflacionar eternamente. Porém, se for verdade que a entropia consiga crescer para sempre, qualquer estado será estado de entropia baixa, por ser baixo em comparação com o máximo, que é infinito.
Resposta: O enigma da condição de baixa entropia inicial do nosso universo, reconhecida universalmente, não pode ser descartada com tanta facilidade. O problema não pressupões que haja entropia máxima para o universo. Basta que, comparada com hoje, a entropia inicial tenha sido incrivelmente baixa.
39:42: ABHAY ASHTEKAR: O que precisamos considerar não é somente a entropia da matéria, mas também a entropia associada com os horizontes, por assim dizer, a entropia gravitacional. No ramo da contração, como a dinâmica é diferente da teoria de Einstein, desenvolve-se um horizonte, mas ele cresce com extrema rapidez. Esta entropia domina completamente a entropia da matéria. Portanto, a entropia está, realmente, a crescer com muita rapidez, mas, então, no rebote, a geometria é tal (e aqui afirmação não é trivial) que, de fato, a área desse horizonte se torna infinita. E, então, depois disso, o horizonte simplesmente desaparece. Por isso, por assim dizer, o que se tem a fazer é reiniciar o relógio entrópico, em certo sentido, nas bordas.
Resposta: Isto equivale a nada mais do que descrição daquilo que acontece no modelo dele. Nada faz para avançar rumo à demonstração de que o modelo é, plausivelmente, a descrição verdadeira do universo. Os produtores desse vídeo não parecem entender que não basta simplesmente jogar no ar um modelo teórico; deve-se dar provas a seu favor.
PREMISSA 1: TUDO QUE COMEÇA A EXISTIR TEM UMA CAUSA
NARRADOR: Estas são apenas duas das muitas soluções potenciais a esse problema da entropia, explicadas na nossa série de filmes “Before the Big Bang” [Antes do Big Bang]. O fato de que há diversas opções nos diz que a entropia não prova um começo. E se o universo teve, sim, um começo? Na década de 1970, Edward Tryon alegou que o universo talvez tivesse surgido como flutuação quântica do vácuo. Porém, isto ainda suscita a questão: de onde veio o vácuo? Em 1982, Alex Vilenkin sugeriu que, se o próprio espaço fosse quantum tratado mecanicamente, poderia passar por um túnel quântico para vir à existência. Ele intitulou a sua proposta de “criação de universos do nada”.
WILLIAM LANE CRAIG: Ora, por vezes, os céticos responderão a este ponto dizendo que, na física, partículas subatômicas — chamadas de partículas virtuais — vieram a existir do nada. Esta resposta cética representa, creio eu, um abuso deliberado da ciência. As teorias em questão têm a ver com partículas ou os universos originados como flutuação da energia contida no vácuo. O vácuo, na física moderna, não é o que leigos entender por “vácuo” — a saber, nada. Antes, na física, o vácuo é um mar de energia flutuante regido por leis físicas e contendo estrutura física. Dizer a leigos que, segundo tais teorias, algo vem do nada, é distorção dessas teorias. Entendido corretamente, o “nada” não significa apenas espaço vazio. “Nada” é a ausência de absolutamente tudo, até mesmo o espaço. Como é ridículo, então, quando os divulgadores científicos dizem coisas como “o nada é instável diante de flutuações quânticas” ou “o universo passou por um túnel para vir à existência do nada”.
Resposta: Certo; estou falando aqui de modelos de flutuação do vácuo, como o de Tryon.
ALEXANDER VILENKIN: Quando falamos de nada, neste contexto, “a vir à existência do nada”, não queremos dizer o vácuo quântico. É, de fato, o que Tryon quis dizer. E, no caso, temos um estado sem espaço, completamente. Por isso, não há nenhum vácuo.
Resposta: O modelo cosmológico quântico de Vilenkin é diferente do de Tryon, não importa o que este último desejasse dizer. Os velhos modelos de flutuação do vácuo agora são obsoletos, depois de terem sido refutados, mas o modelo de Vilenkin permanece em jogo.
NARRADOR: Mas, se o universo, de fato, passou por um túnel quântico para vir à existência, o que o causou?
ALEXANDER VILENKIN: Muitos processos mecânicos quânticos não exigem uma causa. Assim, por exemplo, se temos um átomo radioativo, sabemos que ele decairá. Porém, não se pode dizer quando. Assim, existe uma meia-vida. Por exemplo, pode-se dizer que, em um ano, a probabilidade de que esse átomo decaia é de 50%. Então, o ano se passou, o átomo não decaiu, e a probabilidade de que ele decaia ano que vem é ainda de 50%. Em algum momento, ele decairá. Porém, caso se pergunte por que ele decaiu naquele momento em particular, não há nenhuma razão. Não há nenhuma causa. Por isso, processos mecânicos quânticos como este são incausados, e a criação espontânea do universo é da mesma natureza.
Resposta: Observe que Vilenkin simplesmente assume aqui a Interpretação de Copenhague da mecânica quântica segundo a qual a indeterminação quântica é ôntica, em vez de meramente epistêmica. Não há nenhuma justificação para isto. Existem, ademais, ao menos dez diferentes interpretações físicas da mecânica quântica empiricamente equivalentes, algumas delas sendo plenamente determinísticas. Por isso, não se trata de nenhum comprovado contraexemplo ao princípio metafísico de que tudo que começa a existir tem uma causa. Respondi às alegações de Vilenkin sobre a capacidade da física de explicar como algo pode vir à existir do nada aqui: https://www.reasonablefaith.org/writings/popular-writings/existence-nature-of-god/creation-ex-nihilo-theology-and-science e aqui: https://www.youtube.com/watch?v=yfBsENcJYx8
ARIF AHMED: As noções de mecânica quântica colocam pressão severa em nossas ideias cotidianas de causalidade. Você talvez diga: pois bem, há algumas interpretações da mecânica quântica que permitem causalidade e determinismo, e é verdade que elas existam. Mas há outras interpretações que não permitem.
Resposta: Certo; por isso, a mecânica quântica não é contraexemplo comprovado.
NARRADOR: Uma vez que o kalam afirma que tudo que começa a existir tem uma causa, os seus defensores levam o ônus da prova para mostrar causalidades mantidas na mecânica quântica.
Resposta: Não, ofereço três argumentos favoráveis ao princípio causal. Para refutá-los, o objetor tem o ônus da prova para mostrar que há um comprovado contraexemplo ao princípio.
44:22: ALASTAIR WILSON: Então, as diferentes interpretações da mecânica quântica diferem, sim, bastante quanto ao papel da causalidade. Comecemos com a interpretação de Bohm ou a mecânica bohmiana ou a teoria da onda piloto. É a mais próxima da mecânica clássica quanto à causalidade. A causalidade é determinística, e a causa necessariamente segue o efeito de acordo com a lei. Um pouco mais de desvio em relação à abordagem clássica da causalidade aparece na série de colapso, nas teorias de colapso dinâmico ou na abordagem de GRW. E estas teorias têm aleatoriedade irredutível na maneira como o mundo vem a constituir-se. Assim, um efeito não precisa necessariamente seguir uma causa — determinada causa poderia levar a vários efeitos com diferentes probabilidades de cada um, e não haveria nada no mundo que explicasse por que um efeito acontece, em vez de outro. Qualquer um deles poderia funcionar. Só foi aleatório. Isto, então, enfraquece o elo entre causa e efeito. Em vez de ser necessidade robusta, é probabilidade. A causa torna o efeito mais provável. E penso que se trata de grande mudança ao papel da causalidade. Mas há uma mudança ainda maior, potencialmente, no papel da causalidade na interpretação de multimundos ou a interpretação de Everett. As pessoas costumam denominá-la de interpretação determinística, ao dizerem que temos um estado quântico do universo e, deterministicamente, um multiverso evoluiu — um sistema de muitos mundos paralelos. Há, porém, uma questão em aberto quanto ao que devemos chamar esse processo: causação ou causalidade. A minha abordagem preferencial para entender multimundos concebe que a causalidade é um processo que ocorre dentro de cada mundo individual, mas não fora deles ou entre eles. Por isso, a causação é processo emergente, a surgir com os mundos individuais, sendo, porém, completamente contida dentro deles. E ocorre aí, talvez, uma mudança ainda maior no conceito de causação, porque quer dizer que ela não é fundamental. Não é parte da estrutura profunda da realidade. Não se trata de conceito sequer realmente aplicável, de modo adequado, no nível do universo inteiro.
Resposta: Esta descrição ilustra muito bem como é incerta a interpretação física correta das equações matemáticas da mecânica quântica. Observe também que o princípio causal do argumento cosmológico kalam é formulado deliberadamente para permitir a possiblidade de eventos incausados; o que se exclui são coisas (substâncias) a virem à existência sem uma causa.
ALEXANDER VILENKIN: Na Interpretação de Copenhague, as coisas são a-causais simplesmente porque, por assim dizer, isto consta integrado na natureza da interpretação. Tem-se uma função ondular a descrever o átomo e, então, a função ondular desaba no transcorrer da medição, levando a algum resultado probabilístico. E não há nenhuma causa de por que se escolhem essas coisas. No caso dos multimundos, essa função ondular descreve um conjunto de universos e, em diferentes membros do conjunto, em diferentes universos, obtêm-se todos resultados possíveis da medição. Simplesmente, não se sabe em qual universo se está, e em qual universo se vai parar é também um processo do tipo a-causal.
Resposta: Ah! Aqui, Vilenkin explicitamente reconhece o seu pressuposto da Interpretação de Copenhague. Observe, porém, que ele não fornece nenhuma justificação para pensar que a indeterminação seja ôntica, e não meramente epistêmica.
47:12: DANIEL J. LINFORD: Em defesa da primeira premissa do argumento, Craig lança mão da teoria de de Broglie-Bohm, também conhecida como teoria da onda piloto. E, em defesa da segunda premissa do argumento, Craig lança mão do neolorentzianismo. Ora, pelo menos entre os físicos, tanto a teoria de de Broglie-Bohm quanto o neolorentzianismo são considerados marginais e desconceituados. Portanto, embora Craig pareça simplesmente apelar ao senso comum ou à ciência convencional, ele, na verdade, apela a teoria que não gozam de amplo apoio filosófico ou científico.
Resposta: Isto não está lá muito correto. A interpretação da onda piloto de de Broglie-Bohm da física quântica é, simplesmente, ilustração do fato de que uma interpretação determinística matematicamente coerente e empiricamente adequada da mecânica quântica está disponível. Ela não precisa ser verdadeira para servir a tal propósito, embora se deva dizer que esta interpretação pareça muito mais plausível do que a Interpretação de Copenhague quanto à cosmologia, à luz do chamado problema da medição. Em relação à interpretação neolorentziana da teoria da relatividade, que goza do apoio de alguns físicos destacados, já expliquei que o argumento cosmológico kalam não depende da verdade dela. Antes, trata-se da minha interpretação preferencial para explicar como Deus se relaciona com o tempo. Na tentativa do vídeo de marginalizar essas teorias, o que tende a ser negligenciado é o fato de que ambas são cientificamente irrepreensíveis.
47:47: ARIF AHMED: Penso que uma das lições básicas que se pode aprender da ciência avançada de qualquer tipo é que o senso comum e a intuição não levam muito longe. E, além de certo ponto, não se pode confiar neles. Russell argumentou, certa vez, que, uma vez que a física é, realmente, sistematização da nossa abordagem de senso comum ao mundo, se o senso comum for verdade, a física é verdadeira; e, se a física for verdade, o senso comum é falso; logo, o senso comum é falso.
Resposta: Ah! O problema é que isto não avança nem um pouco na demonstração de que é metafisicamente possível que as coisas possam vir à existência incausadas, a partir do nada.
NARRADOR: Se algo pudesse surgir do nada, por que é que isto não acontece a todo tempo? Por que será que tigres simplesmente não aparecem na nossa sala de casa?
ALEXANDER VILENKIN: Na mecânica quântica, muitas coisas são possíveis que, na física clássica, não são possíveis. E, de fato, em princípio, muitas coisas estranhas podem acontecer, como objetos a surgir do ar rarefeito. Um amontoado de matéria, em princípio, pode virar um tigre, e a mecânica quântica não lhe dirá que isto é absolutamente impossível. Porém, caso se tente calcular a probabilidade de que isto aconteça, será bem baixa. Caso se pense na criação quântica do universo, é um minúsculo universo microscópico que deve aparecer do nada. Caso se calcule a probabilidade de que isto aconteça, devo dizer que, conceitualmente, interpretar esta probabilidade é um pouco difícil, mas, ainda assim, caso se faça o cálculo, descobre-se que é muito mais provável do que ter um tigre a materializar-se bem diante de si.
Resposta: A baixa probabilidade de tais notáveis transições físicas quânticas não tem nada a ver com a possibilidade de que algo venha a existir incausado, a partir do nada. Que algo venha à existência do nada não é regido pela probabilidade física. A ideia de uma probabilidade de que algo venha à existência do nada é vazia, já que não existe nenhuma física do não-ser.
49:24: ARIF AHMED: O argumento de que algo não pode surgir do nada, ou talvez seja melhor dizer que algo jamais virá à existência após o nada, na verdade, não é confirmado por nossa experiência cotidiana, porque, na nossa experiência cotidiana, jamais experimentamos um nada e verificamos para saber se algo pode ou não pode surgir dele. Assim, não há absolutamente nenhum argumento, penso eu, com base no que observamos na vida cotidiana, para pensar que algo não possa vir do nada.
Resposta: Uma resposta dessas é gravemente errônea. As provas indutivas favoráveis ao princípio causal apelam a nossa observação das coisas que começam a existir, tomando nota de que há causas para elas. A Interpretação de Copenhague da mecânica quântica alega fornecer provas a favor de alguma exceção a estas provas indutivas, mas, como disse, tal interpretação é fortemente disputável, não sendo, portanto, comprovado contraexemplo às provas indutivas.
NARRADOR: Não é só a mecânica quântica que divide os pensadores quanto à natureza da causalidade. Os filósofos são igualmente reticentes quanto aos seus méritos.
49:57: ALASTAIR WILSON: Assim, a causação é tópico filosófico clássico no sentido de que não há absolutamente nenhuma concordância a seu respeito, e jamais houve.
Resposta: Ai, ai, ai, o que ele quer dizer é que não há nenhum consenso quanto à análise filosófica da causação, nem que se possa oferecer com sucesso uma análise ou que sequer ela deva ser dada. O princípio metafísico de que, a partir do nada, nada surge, tem sido praticamente unânime na filosofia ocidental desde Parmênides.
ARIF AHMED: Há muitas escolas de pensamento sobre o que é a causalidade. Num extremo, temos a perspectiva como a de Russell, que podemos chamar de teoria limitivista da causação, segundo a qual, na verdade, não existe algo como a causalidade. Russell disse que, caso se atente para a física — certamente, a física do seu dia e, penso eu, é plausível dizer o mesmo da física de hoje também —, ela consiste em equações versus equações diferenciais, e elas reportam estados de um sistema, em diversos tempos ou ao mesmo tempo, mas não mencionam relações causais, de forma alguma. A visão de Russell era que, quanto mais desenvolvida uma ciência, menos apelo ela faz à causalidade. No outro extremo, ou ao menos um pouco mais perto do outro extremo, chega-se a perspectivas como a teoria contrafactual, que diz que “A causa B” significa que, se A não tivesse acontecido, B não teria acontecido. Porém, há complicações na tentativa de explicar o que exatamente ela (aquilo que é chamado de contrafactual) deva significar. E talvez se apele, por sua vez, à causalidade. Assim, é possível que nem sequer seja uma descrição total da causalidade. Ou, ainda mais além, talvez exista uma explicação de suficiência plena da causação, segundo a qual “A causa B” significa que A, de algum modo, faz ou força a ocorrência de B. Entre esses dois extremos, há todos os tipos de diferentes teorias. Assim, é um pouco implausível pressupor, como o faz o argumento kalam, que tudo que começa a existir deva ter uma causa, com base na nossa concepção intuitiva do que seja a causalidade. A concepção de causalidade é vaga, cobrindo todo um espectro de diferentes coisas, e é preciso realmente ter clareza quanto ao que se quer dizer mais precisamente, antes de se conceder alguma validade a esse argumento.
Resposta: Caramba! O argumento cosmológico kalam nem sequer tenta propor uma análise filosófica da causação, tampouco ele precisa dela para manter a sua conclusão. Simpatizo com a visão de que se trata de relação primitiva.
3. LOGO, O UNIVERSO TEM UMA CAUSA
NARRADOR: Se o universo tivesse um começo, é difícil ver como ele poderia ter uma causa. Afinal, tendemos a pensar em causas a ocorrer antes dos seus efeitos. Porém, se o tempo começou com o universo, não havia nenhum “antes”, de modo que como é que Deus poderia tê-lo causado?
Resposta: Hahaha! Pensei que nos tinham acabado de dizer que não há nenhuma concordância quanto à natureza da causação e que não se pode confiar no senso comum.
WILLIAM LANE CRAIG: E, francamente, não consigo bem entender por que as pessoas pensam que a causalidade seja relação temporal. Por exemplo, os filósofos falam a todo tempo de casos de causação simultânea, onde a causa e o efeito ocorrem no mesmo momento do tempo. Immanuel Kant deu o exemplo de uma bola pesada parada num travesseiro, causando nele uma depressão. Ora, a bola e o travesseiro poderiam ter existido desde a eternidade passada.
ARIF AHMED: Parece que ele admite algo que existiu pela eternidade passada; ao usar esse exemplo, talvez ele permita (coerente ou incoerentemente) que algo tenha existido pela eternidade passada.
Resposta: O exemplo de Kant pretende ser ilustração de causação simultânea. Nem eu nem muitos outros filósofos veem nenhuma razão para pensar que uma causa tem de ser temporalmente anterior ao seu efeito; deveras, é difícil ver como ela pudesse ser anterior, mas não simultânea ao seu efeito. Se a causação simultânea for possível, o ato de Deus causar a existência universo será simultâneo ao surgimento do universo (mais óbvio, impossível, não é?).
52:29: NIAYESH AFSHORDI: Na literatura física, não existe algo como causação simultânea. Assim, a noção de causalidade na física sempre tem natureza cronológica segundo a qual, basicamente, a causa deve preceder ao efeito. E, neste exemplo em particular do mundo com o travesseiro, caso se atente para as coisas como elas são em dado instante, não se pode realmente fazer nenhuma declaração sobre a causalidade, mas, caso se atente para a história do que precedia o quê, basicamente, coloca-se uma bola em algum lugar e, então, o seu efeito propaga-se na velocidade do som através de um meio, de modo que o travesseiro, basicamente, reage-lhe conformemente.
Resposta: Obviamente, influências físicas se propagam por sinais de velocidade finitos. Porém, o efeito não virá à existência até que o sinal, realmente, esteja em contato com a entidade paciente (isto é, o recipiente do sinal). Em qualquer instante anterior a tal ponto, o sinal poderia ser interceptado, e o efeito não seria produzido. Em todo caso, a causação divina não é mediada pela transmissão de sinais físicos.
ARIF AHMED: É bastante incerto o que se queira dizer com que uma coisa causa outra, caso se perda o tipo de contexto de espaço, tempo e leis da natureza. Uma razão bastante óbvia para isto é que muitas explicações de causação, quer explícita ou implicitamente, fazem referência às leis da natureza. Muitas delas também se referem ao tempo — por exemplo, a própria definição de Hume para causação era que a causa deve preceder o efeito no tempo e deve suceder-lhe no espaço, ou deve haver uma cadeia de eventos adjuntos no espaço. Por isso, não podemos realmente compreender o que significa que algo seja causa de outra coisa, sem tempo ou espaço, assim como não podemos compreender o que significa que algo tenha cor, forma ou tamanho, sem noções como espaço e tempo. A noção de causalidade não tem o tipo de pureza de uma noção — digamos, noções numéricas ou lógicas —, que fazem esse sentido extra-espacial e extra-temporal. Por essa razão, postular uma causa do universo que esteja fora do espaço e tempo, como acontece com o argumento kalam, para provar algo como a divindade, que pessoas como Craig gostariam de provar, o argumento deve se estender muito além de quaisquer de seus usos que possamos, de fato, compreender.
Resposta: Alto lá! Pensava que nos tinham acabado de dizer que não há nenhuma análise aceita de causação e que o senso comum é falso. Mais uma vez, os produtores do vídeo estão tentando pôr e dispor ao mesmo tempo. Pessoalmente, não vejo nenhuma razão para que não possa haver uma causa atemporal, mas, em todo caso, a hipótese agora sob discussão não é a causação atemporal, mas a causação simultânea, que está isenta de problemas.
ALASTAIR WILSON: Alguns conceitos só fazem sentido quando aplicados dentro do universo ou dentro de algumas partes do universo. Ou melhor, caso se pergunte quanto algo custa — uma mesa ou uma cadeira —, faz todo sentido e existe uma resposta. Caso se pergunte quanto o universo custa, não faz sentido algum, porque não se pode sair do universo para comprá-lo. Algo semelhante poderia acontecer com causa e efeito. Causa e efeito é algo que opera dentro do universo. Simplesmente, não faz sentido sair do universo e perguntar o que o causa. Causa e efeito é algo que acontece dentro do universo, e não com o universo.
Resposta: Acho esta alegação completamente implausível. O princípio causal é princípio metafísico que se aplica à realidade como tal (o ser não surge do não-ser), e não uma lei natural como as leis da termodinâmica ou a lei da gravidade, que se aplicam apenas dentro do universo. Suspeito que o que vemos aparecer aqui é um súbito cientismo que reduz tudo ao que a ciência nos diz e rejeita qualquer metafísica que não seja meramente extensão da ciência. Será que preciso dizer que tal cientismo é cientificamente indemonstrável, não sendo nada mais do que preconceito filosófico?
NARRADOR: Vimos que muitos cosmólogos favorecem uma cosmologia do rebote que pode ser eterna no passado. Outros favorecem um universo que tem um começo a partir da flutuação espontânea. Outra classe de modelos sugere que soluções a equações de Einstein que permitem a viagem no tempo rumo ao passado, conhecidas como curvas fechadas de tipo tempo, poderiam possibilitar que o universo criasse a si mesmo.
Resposta: Ha! A nossa narradora jamais encontrou um modelo cosmológico de que não tenha gostado (a menos que envolva um começo!). A questão não é a existência de modelos teóricos. A questão é a sua consistência matemática e adequação empírica. Não há nenhum modelo que satisfaça tais condições e seja eterno no passado.
55:13: WILLIAM LANE CRAIG: É, obviamente, impossível que o universo, a fim de criar a si mesmo, já tivesse de existir. Ele teria de existir antes de que existisse, o que é clara contradição.
ARIF AHMED: Talvez seja incoerente para Craig dizer que, por um lado, causas não têm de preceder aos seus efeitos no tempo, para, em seguida, por outro lado, descartar a ideia de um universo autocriado, com base no fato de que um universo autocriado teria de preceder a si mesmo no tempo.
Resposta: Até aí, tudo bem; a questão é que, a fim de trazer a si mesmo à existência em t = 0, o universo já teria de existir em t = 0, se não antes. Falando sério: será que agora é esta mesmo a alternativa ao teísmo?
NIAYESH AFSHORDI: Por isso, um universo autocriador talvez pareça ser contradição, caso se imagine uma direção linear do tempo, porque, caso se tenha uma causa que leva a nosso universo, tal causa deve preceder ao efeito. Porém, caso se tenha um tempo circular, não há, na verdade, nenhuma noção de causa e feito e, por esta razão, não há nenhuma contradição, porque, basicamente, tudo que se tem é condição de coerência entre o que acontece em uma era e o que acontece na era anterior, ou na área futura, porque todas, simplesmente, levam umas às outras. Desde que tais coerências se sustentem, não há nenhuma contradição.
Resposta: Caramba! Pensava que a minha adoção da mecânica quântica bohmiana e da relatividade neolorentziana é que era insustentável, pois tais teorias são “marginais e desconceituadas”. Mas isso daí? Veja a discussão que Jim Sinclair faz do modelo de Li-Gott que exibe loops fechados do tipo tempo em Blackwell Companion to Natural Theology [Manual Blackwell de teologia natural]. Pessoalmente, rejeito tais modelos como metafisicamente impossíveis, porque, segundo a teoria flexiva do tempo, de acordo com a qual o devir temporal é real, o universo viria à existência do nada, uma vez que, no tempo da sua origem, os seus estados futuros não existem em sentido algum.
ALASTAIR WILSON: Talvez se tenha toda uma curva fechada do tipo tempo e, nesse nível, a causalidade não é conceito apropriado, mas, caso se concentre em segmentos individuais da curva, talvez se tenha causa e efeito unidirecionais, justamente restritos a esse segmento em particular. Assim, temos razão em pensar a partir da causalidade no nível local; quando damos um passo para trás para observar melhor, a causalidade enquanto tal cessa a sua validade. Ainda podemos fazer física. O fato de que o nosso entendimento intuitivo de causa e efeito cessa a sua validade no nível global não nos impede de escrever equações que descrevam tal sistema.
Resposta: Aqui, vemos claramente a suposição de uma teoria aflexiva do tempo, de modo que todo o loop quadridimensional do espaço-tempo existe aflexivamente. Penso que tais modelos sejam metafisicamente impossíveis, mas não caia em desespero: “Ainda podemos fazer física!”. Sim, e podemos também avaliar tais modelos fisicamente; veja a crítica de Sinclair.
NARRADOR: A fim de afirmar que o universo deve ter sido criado por um agente com livre arbítrio, Craig usa um argumento do filósofo medieval Algazali, que afirma que o universo deve ter surgido espontaneamente, e o único exemplo de ação espontânea é o de um livre agente, algo que, supostamente, sabemos a partir da nossa experiência cotidiana do mundo.
Resposta: Bem, não exatamente. A questão, pelo contrário, é que o único modo de obter um efeito temporal com um começo, a partir de uma causa imutável e permanente, é se tal causa for agente pessoal dotado de liberdade da vontade e, portanto, conseguir produzir um efeito sem nenhumas condições determinantes antecedentes.
ALASTAIR WILSON: Acho que é um bom argumento. É só que tendemos a não aceitar mais as premissas na concepção moderna do mundo. A visão convencional da física quântica é que não é determinística, afinal; a maioria das interpretações da mecânica quântica tem em si algum indeterminismo, e a abordagem mais popular para entender a livre ação tende a ser compatibilista. Ela enxerga a livre ação como compatível com as leis da física — deveras, possibilitada pela ação das leis da física. Assim, o argumento de Algazali foi muito bom, dadas as suposições que ele fazia. É só que não pensamos que, agora, temos alguma razão para aceitar tais suposições.
Resposta: Ah, aqui voltamos ao argumento citado de Aguirre e Kehayias na pergunta da semana 772, segundo o qual um estado quântico não pode perdurar imutavelmente desde a eternidade e, então, de repente, produzir um novo efeito um tempo finito atrás. Assim, a indeterminação quântica não consegue fazer a mágica, neste caso. Observe também o mal-entendido de Wilson sobre o compatibilismo, que é a visão segundo a qual “liberdade” é compatível com o determinismo completo de alguém em tudo o que ele faz.
ARIF AHMED: Caso se esteja no jogo de apelar para observações cotidianas, há toda uma gama de coisas que, pode-se dizer, seriam empecilho ao argumento kalam. Por exemplo, observamos que todo evento foi precedido por outro evento, mas, obviamente, o argumento kalam não pode permitir algo assim. Observamos que tudo que vem à existência tem uma causa material, se é que tem sequer uma causa, mas, mais uma vez, o argumento kalam não pode permitir algo assim. Observamos que toda agência — por exemplo, toda agência inteligente — é material, mas, mais uma vez, o argumento kalam não pode permitir coisas assim. Por isso, experiências cotidianas proporcionam toda uma gama de generalizações incompatíveis com a conclusão do argumento kalam. E é simplesmente arbitrário escolher as generalizações que quiser da experiência cotidiana e ignorar aquelas que não se encaixam na sua conclusão.
Resposta: Rejeito que observemos que todo evento seja precedido por outro evento ou que toda causa inteligente seja material. O princípio de que tudo que vem à existência tem uma causa material, se é que tem sequer uma causa, é, de fato, amparado vigorosamente pelas provas indutivas, mas desmorona pelas provas para o começo do universo, que não pode ter uma causa material.
CONCLUSÃO
NARRADOR: Para resumir: o argumento cosmológico kalam se baseia numa visão ultrapassada da matemática e numa visão ultrapassada da física. Os matemáticos não negam a infinidade, e os físicos não acreditam mais que o Big Bang seja o começo. O argumento pressupõe que a nossa experiência cotidiana de causalidade deve ser tida como verdade, mesmo quando não há espaço ou tempo, mas, então, afirma que uma mente imaterial criou o universo do nada, o que é completamente contrário à nossa experiência cotidiana. Em suma, o argumento cosmológico kalam é inválido.
Resposta: Mas por favor! O primeiro argumento filosófico a favor do começo do universo baseia-se na teoria moderna de conjuntos cantoreana, defendendo que, se houvesse um número de coisas realmente infinito, vários absurdos metafísicos e até mesmo contradições lógicas se seguiriam. Em comparação com a matemática intuicionista, o argumento não nega a legitimidade matemática do conceito do infinito real, mas, sim, o emprega. O segundo argumento filosófico se enraíza numa teoria flexiva do tempo, que defendi extensivamente. Quanto às duas confirmações científicas do começo do universo, é risível alegar que um argumento que apela para a pesquisa de ponta em cosmologia astrofísica e constantemente atualizado à luz dela, baseie-se em física ultrapassada. Vários cientistas contemporâneos acreditam, sim, no começo do universo, mesmo ao investigarem modelos cujo objetivo é falsificar tal predição. O produtor do vídeo não parece entender que o fato de o universo ter um começo não implica que ele comece numa singularidade, como acontece no modelo convencional. Por último, a premissa causal do argumento baseia-se tanto em argumentos metafísicos quanto em provas indutivas, estando de acordo com o senso comum, mas não simplesmente fundamentada nele. Assim, a conclusão do vídeo é deficitária.
Sou grato de coração a tantos cientistas e filósofos que dedicaram o seu tempo para serem entrevistados para esse vídeo. Este tipo de debate vigoroso só pode levantar a visibilidade e influência do argumento cosmológico kalam. Infelizmente, o roteiro foi determinado pelos produtores de antemão. O que observamos nesse vídeo não é investigação objetiva, mas, sim, uma produção polêmica que consiste em objeções contraditórias, frequentemente irrelevantes e crescentemente desesperadas, com o objetivo de desbaratar o argumento cosmológico kalam. Não se demonstra ali nenhum interesse genuíno em aprender se e/ou como o universo começou a existir. Tudo que importa é identificar brechas. À medida que o vídeo avança, sugerem-se cenários cada vez mais bizarros e implausíveis para evitar o começo do universo, sem absolutamente nenhuma tentativa de avaliá-los. Quando se chega ao ponto que, para evitar a conclusão do argumento, orientam-nos a acreditar, pelo contrário, em causação circular ou geração espontânea ex nihilo, sabemos de onde vem, de verdade, tamanho desespero — a saber, evitar o teísmo a todo custo.
- William Lane Craig