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#285 Invasão dos Cérebros de Boltzmann

May 13, 2016
Q

Dr. Craig,

Estou familiarizado com a teoria dos Cérebros de Boltzmann, muitas vezes dado como uma resposta à teoria do multiverso ateu. Um "Cérebro de Boltzmann" é um universo em que apenas um único cérebro existe e nada mais. Este universo é supostamente "muito mais provável" de existir do que o nosso. No entanto, eu estava curioso para saber como esse cérebro poderia formar-se em um mundo desse tamanho. Da forma como eu entendo o cérebro, um cérebro precisa de um corpo para sobreviver, e um corpo precisa de um mundo externo para interagir com ele, e este mundo externo deve ser incrivelmente vasto para ter produzido o corpo e o cérebro em primeiro lugar, e assim por diante [...] isso não faz toda a teoria dos Cérebros de Boltzmann ridícula? Um cérebro não poderia existir em um universo por si só - pelo menos não um cérebro como o entendemos! A única maneira de salvar a teoria de um universo com cérebro de Boltzmann parece ser a substituição da expressão "cérebro" com "mente" - mas uma mente não precisa de um universo para existir, uma vez que esclarecemos que Deus é um espírito sem corpo que existe além do universo.

A ideia do Cérebro de Boltzmann de um universo com um único cérebro realmente tão viável como você diz em suas obras populares e acadêmicas? Eu entendi mal a teoria?

Atenciosamente,

Algum investigador sério de mente científica

Ben

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Você tem que amar os Cérebros de Boltzmann! Que conceito!

Para aqueles que não têm o seu conhecimento prévio quanto a esta questão, Ben, vamos revê-la. Por mais incrível que possa parecer, hoje a principal - quase a única - alternativa para um Designer Cósmico para explicar o ajuste fino incompreensivelmente preciso de constantes da natureza e quantidades fundamentais é o postulado de um Conjunto de Mundos de (um número infinito de preferência) universos aleatoriamente ordenados. Multiplicando, assim, os recursos probabilísticos, garante-se que em algum lugar neste conjunto infinito um universo sintonizado finamente como o nosso irá aparecer.

Agora vem a jogada crucial: já que os observadores só podem existir em mundos aperfeiçoados para a sua existência, É CLARO que observamos o nosso mundo como afinado! Os mundos que não são afinados não têm observadores neles e por isso não podem ser observados! Por isso, a nossa observação do universo como afinado para a nossa existência não é nenhuma surpresa: se não fosse, não estaríamos aqui para sermos surpreendidos. Portanto, esta explicação da sintonia fina depende de (i) a hipótese de um Conjunto de Mundos e (ii) um efeito de auto-seleção observador.

Agora, além de objeções à (i) de uma espécie direta, esta alternativa enfrenta uma oposição muito formidável para (ii), ou seja, se fôssemos apenas um membro aleatório de um multiverso então deveríamos estar observando um universo muito diferente. Roger Penrose calculou que as chances de nosso sistema solar formar-se instantaneamente através da colisão aleatória de partículas é incompreensivelmente mais provável que o universo é finamente sintonizado. Então, se nós fôssemos um membro aleatório de um multiverso, deveríamos estar observando um pedaço de ordem não maior do que o nosso sistema solar em um mar de caos. Mundos como esse são simplesmente incompreensivelmente mais abundantes no Conjunto de Mundos do que mundos como o nosso e por isso devem ser observados por nós se nós não fôssemos mais do que um membro aleatório de tal conjunto.

Aqui é onde os Cérebros de Boltzmann entram em cena. A fim de ser observável o pedaço de ordem não necessita ser tão grande quanto o sistema solar. O mundo observável mais provável seria aquele em que um único cérebro oscila para existência a partir do vácuo quântico e observa seu mundo de outra forma vazia. A ideia não é que o cérebro é o universo inteiro, mas apenas um pedaço de ordem em meio a desordem. Não se preocupe se o cérebro não pode persistir por muito tempo: ele só tem de existir tempo suficiente para ter uma observação, e a improbabilidade de as flutuações quânticas necessárias para que ele exista esse tempo será trivial em comparação com a improbabilidade do ajuste fino.

Em outras palavras, o efeito de auto-seleção do observador é explicativamente vazio. Não é suficiente mostrar que apenas os mundos afinadas são observáveis. Como Robin Collins notou, o que precisa ser explicado não é apenas a vida inteligente, mas agentes inteligentes encarnados e interativos como nós. Apelar para um efeito de auto-seleção observador não leva a nada, porque não há nenhuma razão para pensar que a maioria dos mundos observáveis são mundos em que existe esse tipo de observador. Na verdade, o oposto parece ser verdade: a maioria dos mundos mais observáveis serão mundos com Cérebro de Boltzmann.

É incrível que até uma especulação metafísica como a hipótese do Conjunto de Mundos é suscetível a refutação. Alguém poderia pensar que há apenas um impasse entre uma hipótese tão especulativa e a hipótese do design. Mas o argumento de Penrose parece mostrar o contrário. A hipótese do Conjunto de Mundos falha como uma explicação sobre o ajuste fino do universo para agentes interativos como nós.

- William Lane Craig