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November 10, 2021Olá, Dr. Craig.
É uma honra para mim lhe enviar esta pergunta. Não sei se assistiu a um vídeo de Mohammed Hijab (apologista muçulmano) intitulado “O dilema bíblico de William Lane Craig preocupa os cristãos”, mas, se não assistiu, humildemente sugiro que dê uma olhada. Em poucas palavras, ele diz que, se queremos adotar a visão de William Lane Craig segundo a qual a narrativa de Gênesis é alegórica, devemos permitir, no mínimo, a de alegorização possa ser aplicada a outros princípios mais centrais do cristianismo, incluindo a crucificação e a ressurreição. Foi esta a abordagem de Orígenes de Alexandria, que alegorizava grande parte das doutrinas centrais a fim de satisfazer a critérios apologéticos.
Caso se queira dizer que tudo é literal, é preciso manter não apenas as contradições internas, mas também que o universo tem 6 mil anos... porém, nos dois casos, deve-se manter que há contradições na Bíblia, ao que o muçulmano diria: “por que acreditar num livro com contradições? E por que William Lane Craig não admite francamente que o seu livro é errôneo, não sendo, portanto, inerrante, uma doutrina central dos evangélicos e, de maneira geral, dos cristãos? E por que você continuaria a fazer isto e a continuar a crer nesse livro, como se fosse livre de erros? Por que você não busca a verdade, como diz a sua Bíblia? E por que Deus seria o autor de confusão, uma vez que a Bíblia nos diz que Deus não é autor de confusão? E como é que Deus me castigaria por descrer num livro que está repleto de contradições, qualquer que seja a sua decisão interpretativa — alegórica, literal, ou qualquer outra? Eu diria que isto é injusto e que, pelo contrário, seria preciso buscar a palavra de Deus em outro lugar”.
Posso pedir humildemente que explique as ideias a este respeito?
Agradeço de antemão, dr. Craig. O senhor é um presente de Deus para este mundo.
Anônimo
Catar
Dr. Craig responde
A
Embora eu não tire tempo para assistir a vídeos que as pessoas me recomendam, a sua descrição desse vídeo me dá ampla oportunidade para corrigir o que serão, sem dúvida alguma, típicos mal-entendidos ou deturpações da minha visão sobre a história primeva de Gênesis 1—11,
O primeiro a ser dito é que muçulmanos, assim como judeus e cristãos, estão todos no mesmo barco quando o assunto é a interpretação apropriada de Gênesis 1—11, uma que que os muçulmanos também aceitam o Antigo Testamento como a Palavra de Deus inspirada. Note que o muçulmano não pode escapulir dizendo que a narrativa de Gênesis que temos hoje é corrupção grosseira de um original que não continha tais história. Isto porque Maomé aconselhou aos seus seguidores irem até os judeus e cristãos da sua época e a lerem as Escrituras deles a fim de encontrar a verdade. Já que temos manuscritos bíblicos que remontam a séculos antes de Maomé, o muçulmano não pode dizer que o texto foi corrompido depois de Maomé ter dado este conselho no Alcorão. Além disso, faz-se referência a muitas figuras e eventos da história primeva, no Alcorão, tais como a criação do mundo por Deus em seis dias, a criação de Adão a partir do pó da terra, a denominação dos animais por parte de Adão, a tentação de Adão e Eva por Satanás no jardim e a sua queda no pecado, a história de Caim e Abel, a história de Noé e a arca (veja as suras intituladas “A Vaca”, “A Família de Imran”, “A Mesa Servida”, “O Arrependimento”, “Hud”, “Ta Ha”, “A Lua”, “Noé” e assim por diante).
Por isso, o muçulmano também se vê amarrado a esta mesma questão hermenêutica sobre a melhor interpretação possível desses eventos. Será que o sr. Hijab acredita numa criação literal em seis dias? Será que ele acredita que os seres humanos caíram no pecado ao comerem do fruto de uma árvore no jardim? Será que ele pensa que o dilúvio de Noé praticamente exterminou a vida humana em algum momento no passado recente? Estamos ambos no mesmo barco, neste caso. A minha proposta pode, na verdade, ser encarada como ajuda ao muçulmano, ao livrá-lo do pesado fardo de defender a verdade literal de tais histórias.
Além disso, é importante representar a minha visão com exatidão. Ela não diz que Gênesis 1—11 é alegórico, conforme alega o sr. Hijab. Seria um erro de gênero. (Tampouco, aliás, o teólogo alexandrino Orígenes considerava tais narrativas alegóricas. Antes, Orígenes cria que as Escrituras têm sentidos múltiplos, um deles sendo o sentido espiritual, que busca comunicar-nos verdades espirituais importantes que podem ser independentes do sentido histórico.) Pelo contrário, estou sugerindo que essas narrativas pertencem ao gênero literário que o grande assiriólogo Thorkild Jacobsen denominou mito-história. Elas relatam eventos históricos na linguagem figurativa do mito e, portanto, não devem ser lidas de modo literalístico.
O sr. tenta me empurrar ladeira abaixo, num caminho que levará à negação de princípios mais centrais do cristianismo. Isto é ingênuo. Com certeza, concordo que “devemos permitir, no mínimo, a ... possa ser aplicada a outros“ textos das Escrituras. Claro! Isto, porém, não implica nem um pouco que os evangelhos sejam mito-história, assim como o livro de Apocalipse pertencer à literatura apocalíptica não implica que os evangelhos sejam apocalípticos, nem tampouco os Salmos serem poesia implica que os evangelhos sejam poesia. Pelo contrário, a pesquisa neotestamentária chegou ao consenso de que o gênero literário que mais se aproxima dos evangelhos é a biografia antiga, que tinha interesse na precisão histórica.
O sr. Hijab está correto que, “caso se queira dizer que tudo é literal, é preciso manter não apenas as contradições internas, mas também que o universo tem 6 mil anos”. Porém, obviamente, não sustento que tudo é literal; pelo contrário. Portanto, é falso que a Bíblia é um “livro que está repleto de contradições, qualquer que seja a sua decisão interpretativa — alegórica, literal, ou qualquer outra”. Segundo a interpretação mito-histórica, não é nada contraditório. (Eu me seguro aqui para não dar um golpe baixo nas contradições e tolices do Alcorão.) A doutrina da inerrância afirma que a Bíblia é verdadeira em tudo que ensina. Discernir o que a Bíblia ensina demanda habilidade hermenêutica, incluindo a sensibilidade ao genro da literatura envolvida.
Será que, por minha identificação do gênero literário de Gênesis 1—11 como mito-história, Deus se torna “o autor de confusão”? Tanto menos quanto a identificação dos Salmos como poesia ou de Apocalipse como literatura apocalíptica ou de Provérbios como literatura sapiencial tornam Deus o autor de confusão! A Bíblia contém muitos diferentes tipos de literatura como veículos da Palavra de Deus, o que evidencia o talento artístico de Deus. Deus é livre para usar uma variedade de formas literárias para ensinar-nos a Sua verdade, e o sr. Hijab não está em nenhuma posição para dizer a Deus quais gêneros literários Ele deva empregar.
Em todo caso, o sr. Hijab está errado ao pensar que Deus o irá castigar por não crer na Bíblia. Não é isto o que determina a salvação. Antes, ele punirá as pessoas que rejeitam ao Seu Filho Jesus Cristo, a sua morte expiatória e ressurreição.
- William Lane Craig