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September 7, 2021O senhor talvez se interesse nas objeções abaixo do meu amigo Joe no Facebook a respeito do novo vídeo sobre kalam, parte 2.
“Ainda não ouvi um argumento convincente para isto. No caso, representam mal a infinidade, aplicando incorretamente o Hotel de Hilbert. Pressupõe massa e, por isso, um meio de ‘manter’ o tempo. Caso se tenha apenas fótons — por exemplo, como Roger Penrose em seu modelo de cosmologia conforme cíclica, não há tempo, e infinidade não é mesmo um problema. O tempo, segundo nos referimos a ele, demanda relógios, que demandam massa; por isso, o tempo a que se refere este vídeo, o mesmo tempo ao qual a física costuma se referir, é o tempo desde o big bang. O tempo em si não é, tampouco, infinitamente divisível, o que também mina o paradoxo de que o tempo de Plank é a menor unidade de tempo de acordo com TQC [teoria quântica de campos]. O vídeo também diz que números provavelmente não existem, o que é verdade, a menos que você seja platonista; neste caso, objetos e estruturas matemáticos, como infinidade, verdadeiramente existem. Bem, se existem mesmo, poderiam existir no mesmo sentido de Deus, num domínio imaterial. No caso, então, o vídeo como que se contradiz, dizendo que infinidade é impossível, mas um Deus infinito é possível, desde que ‘exista’ em algum domínio estranho para o qual não temos provas. Só sou cético do processo ou mecanismo que Deus usa para interagir com o universo material... Acho que nunca estarei satisfeito até que consiga assistir ao universo sendo formado! Claro, é impossível, mas posso sonhar!” – Joe.
Peter
Reino Unido
United Kingdom
Dr. Craig responde
A
Obrigado, Peter, por chamar atenção para o nosso mais novo vídeo animado por Zangmeister sobre o argumento cosmológico filosófico kalam! Espero que você tenha conseguido responder às objeções de Joe. Sinto dizer que não as considero muito persuasivas. Identifiquei cinco diferentes objeções na sua postagem, como segue:
1. O vídeo representa mal a infinidade, aplicando incorretamente o Hotel de Hilbert. Até que Joe identifique um erro específico, esta alegação é infundada. Penso que seja bem implausível que eu, sem falar de Hilbert, não entenda o conceito do infinito real.
2. A cosmologia cíclica conforme de Penrose evita os problemas do regresso temporal infinito. Lembre que este segundo vídeo diz respeito a argumentos filosóficos, e não científicos, para o começo do universo. Assim, a objeção aqui tem de ser que o modelo de Penrose evita os problemas filosóficos do regresso temporal infinito. Pois bem, totalmente independente da inadequação empírica do modelo de Penrose,[1][1] penso que seja evidente que o modelo dele não faça absolutamente nada para evitar tal regresso. Mesmo que o tempo esvaeça, por assim dizer, em cada universo em expansão — em si uma questão discutível[2][2] —, o fato permanece que o número de universos anteriores ao presente universo é, realmente, infinito. Isto se pode ver simplesmente ao contar o número de novos começos, quando o tempo certamente existe, e a resposta pode apenas ser um número realmente infinito de começos novos. O modelo, portanto, nada faz para evitar os absurdos filosóficos associados à existência e formação de um número realmente infinito de coisas, assim como não o fizeram os modelos cíclicos mais antigos.
3. O tempo em si não é infinitamente divisível. O argumento cosmológico kalam não pressupõe que ele o seja. Na verdade, o argumento é mais fácil de formular se o tempo for quantizado, isto é, se houver átomos temporais ou crónons indivisíveis. Pergunte-se somente: se o universo jamais começou a existir, quantos crónons houve antes do presente crónon? Um número realmente infinito!
4. Se o platonismo for verdade, um número realmente infinito de coisas (a saber, objetos matemáticos) existe. Correto! Então, qual é o argumento de Joe para a verdade do platonismo? (Para a visão contrária, ver meu livro God Over All[Oxford: Oxford University Press, 2016].)
5. O vídeo se contradiz, dizendo que infinidade é impossível, mas que um Deus infinito é possível. O argumento nunca aspira a provar a infinidade de Deus; porém, em todo caso, Joe precisa entender que, quando teólogos falam da infinidade de Deus, não estão usando um conceito matemático ou quantitativo. Deus não é uma coleção de um número realmente infinito de coisas definidas e distintas. A sua infinidade é qualitativa: Ele é necessário, onipotente, onisciente, onipresente, moralmente perfeito etc. Observe que o fato de Deus não ser um infinito matemático não tem nada a ver, como Joe imagina, com a Sua existência “em algum domínio estranho”. Existir num domínio estranho, como o fazem objetos matemáticos, nada faz para anular a sua numerosidade e, portanto, a infinidade real.
Por fim, o comentário de Joe de que “nunca estarei satisfeito até que consiga assistir ao universo sendo formado!” revela atitude anticientífica, para não dizer antifilosófica, que, ironicamente, caracteriza criacionistas da terra jovem!
[1][1] Joe está, na verdade, apostando todas as fichas num mesmo número bastante incerto. Conforme escreve Ethan Seagal, escritor sênior de ciência para Forbes, “embora, a exemplo de Hoyle, Penrose não esteja sozinho nas suas asserções, os dados se opõem esmagadoramente ao que ele defende. As predições que ele fez são refutadas pelos dados, e as suas afirmações de ter visto esses efeitos são somente reproduzíveis caso se analisem os dados de modo cientificamente inválido e ilegítimo. Centenas de cientistas indicaram isto a Penrose — repetida e consistentemente por um período de mais de 10 anos —, que continua a ignorar o campo e a prosseguir com as suas alegações” (Ethan Seagal, “No, Roger Penrose, We See No Evidence Of A ‘Universe Before The Big Bang’,” Forbes (8 out 2020), https://www.forbes.com/sites/startswithabang/2020/10/08/no-roger-penrose-we-see-no-evidence-of-a-universe-before-the-big-bang/.
[2][2] Penrose equipara acriticamente tempo com nossas medidas físicas de tempo, uma visão reducionista que julgo bastante implausível.
- William Lane Craig