#724
September 7, 2021Olá, Dr. Craig!
Espero que esteja tudo bem. Quero esclarecer uma confusão relacionada ao argumento moral conforme alguns ateus a elaboraram. Como o senhor mencionou em diversas ocasiões sobre a premissa: “valores e deveres morais objetivos existem”, no fundo todos sabemos que ações objetivamente boas e objetivamente más existem, e prova a existência delas apelando para experiências morais. O senhor também defende que o ceticismo moral é tão radical quanto o ceticismo sobre o mundo físico ao nosso redor. No entanto, há confusão em relação a esta linha de argumentação. Se não precisamos de uma âncora transcendente para afirmar a realidade do mundo físico, por que é que precisamos dela para as verdades morais? Se não precisamos de um legislador para afirmar as leis básicas da lógica e raciocínio, por que é que precisamos dele para afirmar a moralidade? Por que a ontologia moral não pode ser derivada das experiências morais de bem e mal, em vez de derivar-se de Deus?
Shahmir
Paquistão
Pakistan
Dr. Craig responde
A
É muito bom receber uma pergunta do distante Paquistão! Obrigado por me escrever, Shahmir!
Parece-me que a sua pergunta, na verdade, trata simultaneamente de duas questões distintas que precisam ser abordadas em separado. A primeira pergunta termina com a frase: “... o ceticismo sobre o mundo físico ao nosso redor”. Então, a segunda pergunta começa com a frase “No entanto, há confusão...”.
Em relação à primeira questão: “Será que valores e deveres morais existem?”, parece que você e eu concordamos que sim, uma vez que você não contesta as duas razões que eu dou.
Assim, a confusão de que você passa a falar não tem nada a ver com “esta linha de interpretação”. Antes, surge uma nova questão: “Qual é a explicação para a realidade de valores e deveres morais objetivos?”. A sua posição parece ser que nenhuma explicação é necessária. Eles simplesmente existem. Bem, penso que isto seja platonismo. Uma vez que valores e deveres morais não são objetos físicos, eles devem ser objetos abstratos. Nas minhas publicações, apresento três argumentos do porquê ser o platonismo não tão plausível quanto o teísmo, de modo que você precisa interagir com esses argumentos.[1]
Observe, porém, que a sua pergunta: “Por que a ontologia moral não pode ser derivada das experiências morais de bem e mal, em vez de derivar-se de Deus?” confunde a ontologia moral com a epistemologia moral. O conhecimento moral pode, de fato, ser derivado da experiência moral, mas a experiência moral pressupõe que haja algo objetivo para ser experimentado (para você não cair no subjetivismo!). A sua pergunta é, na verdade, incompatível com o objetivismo moral.
Todos reconhecem que verdades morais são enigmáticas (por que é errado matar inocentes?), e por isso uma teoria que tenha alguma profundidade explanatória é preferível a uma teoria que apenas assevere estas verdades sem explicação ou fundamentação. Observe que a sua analogia com os objetos físicos não é tão adequada assim. Postulamos um domínio de objetos físicos com base em nossa experiência sensorial. Mas não paramos só aí! Cientistas físicos querem saber a explicação do porquê as coisas que percebemos existirem, e isto levou à enorme empreitada de ciência evolutiva, que traça tudo de volta, passo a passo, até o momento do big bang. E os filósofos querem saber por que o domínio dos objetos físicos contingentes existe e, por isso, são motivados a investigar um ser metafisicamente necessário que seja a Razão Suficiente de todos os objetos contingentes. Assim, a investigação sobre o domínio físico continua, assim como acontece em relação ao domínio moral.
[1] Reasonable Faith 3r ed. (Wheaton, Illinois: Crossway, 2008), pp. 178-179 [publicado em português com o título Apologética contemporânea (São Paulo: Vida Nova, 2012)].
- William Lane Craig