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#35

July 13, 2012
Q

Pergunta 1:

Caro Dr. Craig,

Obrigado pelas boas-vindas amigáveis ao seu maravilhoso site. Antes de tudo, permita-me lhe parabenizar por seu site; é um recurso excelente que me tem ensinado muitas coisas! Obrigado também por seu trabalho apologético, filosófico e evangelizador, e espero que Deus continue a lhe abençoar e fortalecer em seu empenho. Por vivermos na Austrália, nós (cristãos australianos) raramente temos a oportunidade de encontrar apologética sofisticada e erudita; como católico romano, essa é uma ocorrência ainda mais rara para mim. Portanto, seu trabalho e publicações na Internet são de importância vital para a instrução dos cristãos e da cultura ocidental sobre as reivindicações do cristianismo acerca da verdade.

Acabei de ouvir seu debate com Ray Bradley acerca da pergunta: Um Deus amoroso pode lançar pessoas no inferno? Fiquei impressionado com a lógica com que Bradley às vezes argumentava — uma diferença abissal dos outros debates que já ouvi —, mas, tal como o senhor, achei a lógica dele falha em vários aspectos importantes. Também achei muito emotiva a maneira como ele enfoca a questão. Penso que essa seja a sua mais poderosa ferramenta de persuasão.

Adoraria ouvir a sua resposta acerca destes pontos que achei problemáticos na argumentação de Bradley:

1. Bradley declara: “Mas agora considere o céu. O conceito de céu é obviamente coerente. Quer dizer, em termos técnicos, o céu é um mundo possível. Se não fosse, nem Deus nem os salvos poderiam existir ali. Além disso, Dr. Craig considera que o céu seja habitado exclusivamente pelos crentes que, por livre vontade, confessam Cristo”. Bradley prossegue argumentando que o céu, por ser um mundo logicamente possível, um mundo real de fato, onde os seres adoram e obedecem a Deus de livre vontade, está em contradição com a quarta proposição do senhor: “Não há mundo possível habitado por criaturas com livre-arbítrio no qual todas as pessoas recebem a Cristo por livre vontade”.

À primeira vista, pensei que fosse uma argumentação bastante forte, mas, quando comecei a considerar a sua aplicação válida, enxerguei alguns problemas. A saber:

A diferença entre os modos como um mundo real e um mundo possível são afetados pelo livre-arbítrio. É verdade que qualquer mundo real é também um mundo possível, mas nem todo mundo possível é um mundo real. Por ser um mundo real, o céu continua a ser um mundo possível. No entanto, se por um lado num mundo possível puramente teórico, pode-se supor que toda criatura receberá Cristo livremente, por outro, em qualquer mundo real a qualidade discricionária do livre-arbítrio converterá qualquer mundo possível no qual as criaturas recebem a Cristo livremente também num mundo possível em que algumas delas não o recebem. Portanto, um mundo possível, uma vez tornado real, não pode ser predeterminado com uma qualidade variável como o livre-arbítrio.

2. Bradley declara: “… a presciência de Deus sobre aquilo que os não salvos fariam, associada à sua perversa determinação para criá-los, faz dele o que os advogados denominam de ‘autor intelectual do crime’ e, portanto, responsável, ao menos em parte, pelos resultados”. Isso significa que Deus, mediante a sua presciência, sabedor de que um ser criado será condenado ao inferno, antes de tudo, não demonstra amor por “descriar” esse ser.

Tenho muitos problemas com esse argumento;

Bradley não entende a presciência de Deus da maneira correta. Partindo da perspectiva agostiniana, a presciência divina é possível porque Deus existe em todos os tempos e lugares no presente eterno, de modo que passado, presente e futuro são todos presente para ele. Para que Deus saiba que uma criatura sua vai rejeitá-lo na vida e ser condenada, é necessário que ele a tenha criado realmente (caso contrário a ideia da existência dela e de sua salvação ou condenação potenciais seria mera possibilidade; além disso, com o livre-arbítrio discricionário envolvido, a possibilidade não poderia resultar em presciência definitiva). Deus teria “presciência” da condenação da criatura porque, estando no presente eterno, já estaria presente no julgamento dela (na vida pessoal futura da própria criatura). Portanto, deduz-se que, para que Deus “preveja” se a criatura será salva ou condenada, ele já a teria julgado. No entanto, isso faz surgir o que entendo ser uma contradição na proposta de Bradley: a de que um Deus amoroso “descriaria” uma criatura condenada logo que a sua condenação fosse “prevista” pelo seu julgamento na eterna presença de Deus; assim, a criação e o julgamento da criatura passariam a ser os critérios necessários para a sua “descriação”. (Digo “critérios necessários” porque a vida dela tem de se tornar uma realidade, não apenas uma possibilidade, para que seja possível saber como a criatura usaria o seu livre-arbítrio.) Assim, não acho em nenhuma hipótese que Deus seja “autor intelectual do crime” — antes, ele tem feito a única coisa logicamente possível, uma vez que havia uma criação real.

De qualquer forma, Dr. Craig, obrigado novamente por tudo quanto o senhor está fazendo. Se algum dia pretender vir à Austrália para palestras ou debates, por favor, avise-me!

Tudo de bom,

Jonathan

Pergunta 2:

Li recentemente um debate entre o senhor e o Dr. Ray Bradley (que pode ser encontrado neste site) sobre a possibilidade de um Deus amoroso lançar pessoas no inferno. Nesse debate, Dr. Bradley argumentava que as duas proposições seguintes são inconsistentes com a lógica: (1) Existe um Deus onipotente, onisciente, perfeitamente bom, justo, reto, misericordioso e amoroso; e (2) Deus lança algumas pessoas no inferno. Ao defender essa posição, o Dr. Bradley apresentou as seguintes proposições para mostrar que (1) e (2) são inconsistentes com a lógica:

P1: Para que um conceito descritivo tenha alguma aplicação significativa, deve ser possível haver circunstâncias em que ele não se aplique.

P2: Um ser perfeitamente bom jamais torturaria alguém durante algum tempo, por mais breve que fosse.

P3: Um ser justo não puniria ninguém eternamente pelos pecados cometidos numa vida breve, mas adequaria a punição proporcionalmente ao delito.

P4: Um ser reto não puniria ninguém eternamente pela incredulidade inevitável.

P5: Um ser misericordioso não permaneceria eternamente sem perdoar quem tivesse pecado contra ele.

P6: Um ser amoroso não causa nem perpetua os sofrimentos daqueles a quem ele ama.

Ora, embora o debate tenha dado devida oportunidade ao senhor e ao dr. Bradley, em razão da falta de tempo o senhor não conseguiu falar muito sobre essas proposições, e eu fiquei coçando a cabeça a respeito delas. Seria possível agora o senhor revisar essas proposições e explicar por que as rejeita?

Obrigado,

Charles

United States

Dr. Craig responde


A

Essas perguntas evocam boas lembranças do meu debate com Ray Bradley! Embora ele seja um excelente especialista em lógica, parece-me que os argumentos que apresentou se fundamentam em erros basilares acerca dos mundos possíveis. Em termos básicos, um mundo possível é a descrição máxima do modo como a realidade poderia ser; nada ficou de fora da descrição. Uma frase é possivelmente verdadeira se for verdadeira em pelo menos um mundo possível, e é necessariamente verdadeira se for verdadeira em todo mundo possível.

Portanto, Jonathan, considere o primeiro argumento que você mencionou. É evidente logo de cara, contrário à ideia de Bradley, que o céu não é um mundo possível! Pois o céu não é o máximo; é parte de um mundo, a saber, a parte na qual as pessoas são abençoadas em razão da resposta que deram ao Evangelho antes da morte. Assim, o céu implica que houve uma vida anterior à morte. Entretanto, alguém poderia dizer: “Certo, mas do mesmo modo Deus poderia simplesmente criar uma espécie de existência celestial com as mesmas pessoas nela sem nenhuma vida anterior à morte”. Façamos essa concessão. Todavia, dessa maneira, estamos lidando com um mundo possível novo em folha; e, nesse caso, pode não fazer sentido o fato de que todas essas pessoas creriam em Deus por livre vontade, caso fossem criadas em tal estado. Conforme expliquei ao responder a pergunta “Por que Deus permite que o sofrimento continue? [Pergunta 34]”, com respeito ao trigo e o joio, Deus simplesmente não pode arrancar as pessoas de um mundo possível (como este) e garantir que todas elas serão crentes nesse mundo diferente.

Atente também que eu não disse: “Não existe um mundo possível habitado por criaturas dotadas de livre-arbítrio no qual todas as pessoas recebam a Cristo por livre escolha”. Esse mundo existe de fato. O que eu disse foi que tal mundo pode não ser factível à criação de Deus. Afinal, a existência desse mundo não depende somente da vontade de Deus; também depende crucialmente do livre-arbítrio das pessoas que há nele. E não é possível garantir que elas cooperarão. Se Deus tentasse tornar esse mundo em realidade, talvez as pessoas que há nele não concordassem com Deus e frustrassem a intenção dele ao escolherem não crer livremente.

Essa é a distinção à qual você está chegando quando diferencia entre um mundo possível e um mundo real. Aquilo que você entende como “real” é na realidade “factível”. Na terminologia da semântica dos mundos possíveis, há apenas um único mundo real, ou seja, o mundo que vivenciamos, o mundo tangível. Os outros mundos são possíveis, mas não reais. O que você quer dizer é que nem todo mundo possível é um mundo factível à criação de Deus. Logo, conquanto num mundo possível puramente teórico seja possível supor que todas as criaturas receberão a Cristo por livre vontade, é altamente possível que a qualidade do livre-arbítrio torne qualquer mundo factível, no qual as criaturas recebem a Cristo livremente, também em um mundo factível, no qual algumas criaturas não o recebam assim.

Agora, com relação ao segundo argumento que você menciona, Jonathan, precisamos distinguir entre a presciência de Deus e o seu conhecimento médio. A presciência é o conhecimento daquilo que será. Conhecimento médio é o conhecimento daquilo que poderia ser em tais e tais circunstâncias. Uma grande ilustração da diferença entre eles, especialmente apropriada no período do Natal, diz respeito às revelações do futuro feitas a Scrooge pelo Espírito do Natal no conto de Dickens The Christmas Carol [Cântico de Natal]. Scrooge exige saber do espírito se as revelações são sombras do que acontecerá ou sombras do que poderia acontecer se ele ficasse sem se arrepender. Conforme você observa acertadamente, se o que está em jogo é a presciência, então é “tarde demais”, por assim dizer, para Scrooge fazer algo a respeito. Não é possível “descriar” o futuro, como diz você, porque, então, não seria o futuro de jeito nenhum! Mas se o que está em jogo é o conhecimento médio, então Scrooge ainda pode evitar esse destino, arrependendo-se e assim mudando as circunstâncias.

Pois bem, embora Bradley se refira (incorretamente) à presciência de Deus, ele na verdade está falando do conhecimento médio de Deus, pois comenta que Deus sabe “o que os não salvos fariam” [observe, não o que eles farão]. Assim, nesse caso, a sua resposta, Jonathan, não serve. Deus, mediante seu conhecimento médio, pode examinar a variedade de mundos factíveis de serem criados por ele e, então, escolhe uma quando nenhum deles é ainda real. No entanto, por não encontrar nenhum mundo de salvação universal sem o predomínio de insuficiências, Deus, sem dúvida, um tanto entristecido, decide por um mundo em que algumas pessoas, ao contrário de sua vontade para elas e de seu próprio esforço para salvá-las, desdenham de sua graça, apartam-se dele irrevogavelmente e condenam a si mesmas para sempre. É praticamente impossível chamar Deus de autor intelectual dos crimes delas, uma vez que ele tentou impedir o caminho de autodestruição escolhido pela livre vontade delas, mas elas não lhe deram ouvidos.

Ora, isso leva-nos às seis proposições que você mencionou, Charles. Quase nenhuma delas me impacta como verdade evidente.

P1: Para que um conceito descritivo tenha alguma aplicação significativa, deve ser possível haver circunstâncias em que ele não se aplique. Isso parece obviamente falso. Ponham-se sob consideração as proposições verdadeiras em todos os mundos possíveis, por exemplo: “Os ângulos de um triângulo euclidiano totalizam 180 graus”. Não há circunstâncias possíveis nas quais essa descrição não se aplique, mas será que Bradley diria que a geometria euclidiana não tem aplicações importantes? E claro que não!

P2: Um ser perfeitamente bom jamais torturaria alguém durante algum tempo, por mais breve que fosse. O verbo “torturar” é pejorativo; a pergunta é se um ser perfeitamente bom puniria alguém por algum tempo. A resposta é: claro que puniria! Caso contrário, ele não seria perfeitamente bom, pois não seria perfeitamente justo.

P3: Um ser justo não puniria ninguém eternamente pelos pecados cometidos numa vida breve, mas adequaria a punição proporcionalmente ao delito. Respondo a isso no próprio debate. O curto tempo que ele leva para cometer o delito é irrelevante; o que importa é a gravidade do crime. A punição seria proporcional à gravidade do delito. Sugeri que, mesmo que Deus aplicasse punição finita para cada crime, ainda assim, uma vez que os habitantes do inferno continuam a odiar e a rejeitar a Deus, eles continuariam a pecar e, portanto, a acumular sobre si mesmos mais punição, de sorte que tanto o ato de pecar como o de punir prosseguem para sempre. Por outro lado, o pecado de rejeitar o próprio Deus é de gravidade e proporções infinitas e, logo, é merecedor de punição infinita.

P4: Um ser reto não puniria ninguém eternamente pela incredulidade inevitável. Concordo, mas a incredulidade é sempre evitável. Deus deu uma revelação geral de si mesmo no mundo e, pelo seu Espírito Santo, procura atrair todos à salvação. Ele julga as pessoas com base na resposta delas à luz que têm. A Bíblia diz que nenhum homem é escusável por não crer num Deus Criador, uma vez que a incredulidade não se deve à falta de informação, mas à vontade perversa que suprime a verdade (Rm 1.19-21).

P5: Um ser misericordioso não permaneceria eternamente sem perdoar quem tivesse pecado contra ele. Vamos supor que o perdão tenha sido oferecido, mas foi rejeitado. De quem é o erro? A parte ofendida tem uma atitude perdoadora, mas a perpetradora rejeita a reconciliação — até os habitantes do inferno persistem em seu ódio e rejeição a Deus. Assim, Deus é perdoador, mas seu perdão não tem valor legal se for rejeitado. Se as pessoas rejeitam o pagamento de Cristo pelos pecados delas, a única pessoa que resta para sofrer a pena do pecado é ela mesmo.

P6: Um ser amoroso não causa nem perpetua os sofrimentos daqueles a quem ele ama. Isso é obviamente falso. Acaso os pais odeiam os filhos quando lhes aplicam disciplina dolorosa? Será que juízes e jurados odeiam os réus quando os consideram culpados e os condenam à prisão e mesmo à morte? Isso é absurdo. É claro que é possível amar a parte culpada merecedora de punição!

A partir dessas proposições e dos argumentos em que se baseiam, é doloroso e por demais notório que Bradley não tem nenhuma compreensão real do Evangelho. Quanto me entristece ver as pessoas rejeitarem ao Deus que as ama com base nessas caricaturas espalhafatosas! Quanto mais devem entristecer ao próprio Deus!

 

 Notas

A transcrição do “Craig-Bradley Debate: Can a Loving God Send People to Hell?” [Debate Craig-Bradley: Um Deus amoroso pode lançar as pessoas no inferno?] está disponível aqui e a gravação do debate em áudio está disponível neste (É necessário cadastrar-se — Registre-se aqui para ter acesso gratuito total a ReasonableFaith.org).

- William Lane Craig