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#704

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Gostaria de perguntar se tem uma resposta à visão de Jordan Peterson segundo a qual o cristianismo é manifestação de determinados arquétipos psicológicos. Por exemplo, ele afirma que o conceito de Deus como juiz surgiu porque é benéfico agir como se estivéssemos para ser julgados. O conceito de Deus é, simplesmente, um símbolo para o futuro, uma vez que, na verdade, é o futuro que nos julga por nossas ações no presente. Cristo, ao levar os pecados do mundo, é outro desses temas arquetípicos que refletem a forma mais elevada de vida: voluntariamente aceitar responsabilidade por aqueles que estão ao nosso redor. Recentemente, graduei-me num instituto bíblico, mas perdi completamente a confiança que tive ao longo da vida de que Deus existe, o cristianismo é verdadeiro etc. As teorias de Peterson parecem explicar plenamente por que a cosmovisão cristã soa verdadeira para tantas pessoas — até agora, foi a mais bem sucedida em representar esses arquétipos evoluídos. Nunca encontrei nem um pensador cristão que aborde esta ideia e, por isso, espero que o senhor comente algo a esse respeito. (Coloquei meu nome como anônimo porque ainda não disse à minha esposa e família sobre meu provável abandono do cristianismo.)

Anônimo

Canadá

Dr. Craig responde


A

Anônimo, fico sentido por você, porque, evidentemente, você foi muito mal preparado com uma educação terrivelmente inadequada no instituto bíblico. O fato de que você tenha sido persuadido por um argumento tão visivelmente falacioso e pareça tão desprovido de qualquer argumento contrário a favor do teísmo cristão me leva a crer que, a menos que você tenha dormido nas aulas, você foi muito mal instruído em filosofia e apologética.

A análise de Peterson, no máximo, ajuda a lançar luz no motivo por que o evangelho fala a nossas necessidades mais profundas, assim como Deus o pretendeu. Inferir daí que a crença em Deus seja falsa, porque tal crença surgiu de determinados arquétipos psicológicos, é exemplo clássico da falácia genética. É a falácia de tentar invalidar um ponto de vista explicando como a pessoa veio a ter tal visão. É falacioso porque a verdade ou falsidade de um ponto de vista é independente de como a pessoa veio a ter tal ponto de vista. Mesmo que as teorias psicológicas de Peterson fossem corretas, nada dizem acerca da verdade da proposição de que Deus existe ou que Cristo morreu pelos meus pecados. De fato, no meu diálogo com Jordan Peterson sobre “A vida tem sentido?” (“Is There Meaning in Life?”), percebi que ele é muito aberto à verdade do teísmo e até do cristianismo.

Deveras, os arquétipos de Peterson poderiam se inserir muito facilmente no teísmo cristão. Deus nos criou com determinadas ideias arquetípicas inatas que tornam natural e fácil crer na verdade que ele nos revela. De fato, pode-se muito facilmente entender tal aparato psicológico como parte da imagem de Deus no homem (Gênesis 1.26-27). O fato de que você não tenha encontrado “nem um pensador cristão que aborde esta ideia” é mais um testemunho da educação ruim que o seu instituto bíblico lhe deu, já que justamente essa ênfase foi uma característica do pensamento de C. S. Lewis. Como professor de literatura, e não de psicologia, Lewis formulou a ideia a partir de determinados mitos arquetípicos expressos em diversas religiões no mundo, mas encontrados na sua mais verdadeira expressão no cristianismo. Por isso, Lewis pôde falar do cristianismo como o mito verdadeiro, assim como Peterson pôde falar do cristianismo como tema arquetípico verdadeiro.

Ora, digo isto pressupondo que as especulações de Peterson sejam verdadeiras. Mas duvido que muitos psicólogos sejam persuadidos por suas teorias mais do que o são pela teoria de ideias arquetípicas segundo Carl Jung. Estas teorias não passam de conjecturas, com nenhuma prova científica baseada em estudos clínicos. Na verdade, se temas como Deus como juiz ou Cristo como aceitação voluntária de responsabilidade por aqueles que estão ao nosso redor fossem, de fato, arquétipos psicológicos profundamente enraizados, por que não encontramos esses temas em todas as religiões do mundo? Religiões não-teístas, como o taoísmo ou confucionismo, bem como religiões que não inculcam nenhuma aceitação voluntária de responsabilidade pelos demais, como o budismo, contradizem a afirmação de que esses sejam arquétipos da psiquê humana. Os indícios, portanto, põem em prova a conjectura de Peterson.

De todo modo, totalmente independente da questão de quais sejam as forças psicológicas que nos levam a nossas crenças religiosas, o mais importante é que há bons argumentos para o teísmo e provas para Cristo. Se você tivesse sido instruído nesses argumentos e provas, a confiança que você teve por toda a vida no cristianismo não teria sido abalada tão facilmente por um argumento falacioso do ponto de vista lógico. Insisto com você que, antes de você largar a sua fé cristã, arruinando o seu casamento e alienando-se da sua família, pegue um livro como Em guarda e realmente estude (não só leia) os argumentos e provas a favor do teísmo cristão. Isso pode ajudá-lo a não sucumbir à força emocional de um argumento falacioso do ponto de vista lógico.

- William Lane Craig