#322 Perguntas Críticas
February 10, 2017Caro Dr. Craig,
Eu sou um ateu nativo e vivendo no Reino Unido, um lugar onde o cristianismo está em declínio bastante acentuado no momento. Tenho visto alguns de seus debates online com alguma curiosidade. Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas críticas.
1) Você não concorda que todo o formato de debate com limite de tempo é uma maneira extremamente pobre de determinar a verdade? Existem numerosos defeitos. Por exemplo, o fato de que um debate pode ser "ganho" por táticas e retórica apenas, não faz isso parecer um uso muito construtivo do tempo. Além disso, o fato de que o tempo é um fator tão importante, significa que certas questões levantadas não são respondidas por um adversário, não porque ele não sabe respondê-las, mas porque ele não tem tempo para fazê-lo, o que dá ao público uma impressão enganosa. Além disso, quem pensa que uma questão como a "existência de Deus" pode ser respondida em apenas 2 horas parece auto-confiante demais para mim!
2) Você não é um pouco arrogante demais em sua abordagem com o ateísmo e não-cristãos? Eu vi você descrever seguidores de Dawkins e Hitchens como "ignorantes e arrogantes" (um pouco irônico, já que alguns de seus acólitos não seriam exatamente qualificados para a adesão à Mensa), eu ouvi você descartar argumentos ateus como "decepcionantes", e eu acho que eu também ouvi você afirmar que "não há boas razões para não acreditar em Deus". Para mim, isso soa como extremo excesso de confiança. Se tudo isso é verdade, então por que tantas pessoas perfeitamente inteligentes e razoáveis não creem na existência de Deus? A arrogância é um luxo que você não pode ter se você quiser que sua religião sobreviva nos dias de hoje, dado o enorme aumento de ceticismo intelectual sobre o teísmo na Europa e em outros lugares. Eu acho que você poderia se beneficiar sendo um pouco mais civilizado e cortês em seu discurso, às vezes.
3) Será que a filosofia não é, em última instância, uma perda de tempo? Eu ouvi você dizer que, mesmo se todos os argumentos para a existência de Deus falharem, Deus pode ainda existir. Isso é perfeitamente correto, e também o contrário é verdade; todos eles podem ser perfeitamente lógicos e Deus pode ainda não existir. Então, por que se preocupar com argumentos filosóficos se é tão inconclusivo? Por que não ficar com os fatos da ciência?
4) Será que o alegado aumento dos cristãos na filosofia é tão significativo quanto você pensa que é? Os sem religião estão em ascensão na população como um todo, e as estatísticas indicam que o ateísmo e agnosticismo são o ponto de vista majoritário na ciência, não esqueçamos.
Faço essas perguntas, não por hostilidade pura, mas por preocupação e um desejo genuíno de entender de onde você está vindo. Só me preocupo que a sua abordagem irá criar mais divisão e raiva ao invés de uma discussão construtiva.
Com os melhores cumprimentos,
Adam
Reino Unido
United Kingdom
Dr. Craig responde
A
Tenho sido profundamente perturbado e entristecido pelo declínio da fé cristã no Reino Unido. É tão difícil imaginar que esta terra que deu ao mundo gigantes cristãos, tais como Wesley e Wilberforce, Butler e Paley, Lightfoot e Westcott, e tantos, tantos outros, numerosos demais para mencionar, declinou a tal estado. Alguns anos atrás, eu perguntei ao diretor do Tyndale House em Cambridge por que, em sua opinião, o cristianismo estava em um declínio tão sério na Grã-Bretanha, apesar do fato de que a Grã-Bretanha se vangloriou com alguns dos maiores intelectuais cristãos do nosso tempo. "Oh, não é entre os intelectuais que o cristianismo é mal representado", ele respondeu. "É entre a classe trabalhadora que a incredulidade é abundante." Devemos ponderar nesta resposta. Tenho notado na minha experiência que o incrédulo médio no Reino Unido parece ainda mais desinformado, se possível, do que o seu homólogo norte-americano. Eles não parecem ter lido muita coisa sobre a existência de Deus ou da historicidade dos Evangelhos, e seus argumentos são geralmente terríveis (ver Pergunta # 318, por exemplo). Eu me pergunto se a incredulidade tornou-se tão comum no Reino Unido, que é simplesmente encarada de forma impensada por muitos britânicos hoje.
Agora, em resposta às suas perguntas:
1. Eu acho que o formato formal de debate é uma excelente maneira para ambos os lados de uma questão polêmica serem exibidos, se não resolvidos, em um tempo razoável. O objetivo não é resolver a questão em duas horas, mas de forma justa apresentar os melhores argumentos a favor e contra. Estou incomodado com o fato de que os palestrantes seculares raramente dão oportunidade para que o ponto de vista oposto seja dado. Eles simplesmente apresentam o seu discurso preparado ou tem uma conversa entre eles, em vez de arriscar a crítica por alguém com um ponto de vista diferente. Eles se envolvem em monólogo, em vez de diálogo. Os debates em que eu me envolvo são realmente notáveis quando você pensa neles. Aos melhores representantes do lado oposto é dada a oportunidade, não só de apresentar, ininterruptos, seu próprio ponto de vista, mas de sujeitar o meu a críticas fulminantes. Debate acadêmico (em contraste com o tipo de debate político que se passa no Parlamento) é um fórum fantástico para familiarizar estudantes que, provavelmente, não seriam de outra forma expostos a esse material, com os principais argumentos.
Sim, o fato de que um debate pode ser ganho por táticas e retórica, por si só, é um inconveniente e um grande risco ao entrar em um desses eventos. Um dos debates mais frustrantes em que eu já estive, foi com um filósofo na Universidade de Leeds, que, em vez de apresentar argumentos para a sua posição, apenas usou cinismo britânico seco e ridículo para ganhar os estudantes para o seu lado. Aqui o que Aristóteles disse sobre o ethos do palestrante é importante. Um homem de caráter não recorre a sofismas para vencer debates, mas baseia-se na força de seus argumentos, claramente apresentados, para persuadir.
Ter limite de tempo para os discursos é característica de debate formal assegura que uma pessoa não domine o processo, e que o tempo de atenção do público não seja sobrecarregado. Então, saber administrar o relógio é uma habilidade importante de debate. O noviço gasta uma quantidade desproporcional de tempo no primeiro argumento e nunca chega ao resto. Se você tem 12 minutos para cobrir cinco argumentos, então você sabe que é melhor não gastar mais do que dois minutos em cada um! Dito isso, eu acho que as audiências são muito perdoadoras com um debatedor que é incapaz de chegar a todos os pontos. Elas percebem que ele não tem tempo para cobrir todos os argumentos e, assim, elas pesam o que ele tinha a dizer sobre os argumentos que discutiu.
É claro que essas preocupações são evitadas uma vez que o debate é transcrito e transformado em forma de livro, como vários dos meus debates já foram. Aqui, as respostas têm meses para serem elaboradas e aperfeiçoadas nos ensaios em resposta aos argumentos. Convido-o, Adam, a dar uma olhada em alguns desses livros, por exemplo, o meu debate Deus Existe? com o falecido Antony Flew, um dos ateus mais proeminentes do século vinte. [1] Julgue por si mesmo como meus argumentos se sustentam.
2. A arrogância é uma falha moral terrível, e se eu achasse que fosse culpado dela deveria ter vergonha de falar por Cristo em público. As citações que você dá fora de contexto foram ditas de pessoas específicas, como o autor da Pergunta # 193. Algumas pessoas realmente são arrogantes e ignorantes, e não é errado apontar isso (assim como você fez para mim!).
Eu tentei o meu melhor para modelar caridade, civilidade e cortesia para com aqueles com quem interajo, mesmo em face de ataques pessoais. Tenho certeza de que eu nem sempre sou bem-sucedido, mas como alguém que aspira a ser um cavalheiro cristão, esses valores são muito importantes para mim, e eu tento exemplificá-los.
Não iguale excesso de confiança em seus próprios argumentos com arrogância. Arrogância tem a ver com ser orgulhoso, vaidoso, e sobre-impressionado consigo mesmo. Pensar que um argumento é realmente poderoso não é arrogância. Agora, certamente, eu poderia ter uma confiança equivocada nos argumentos que defendo. (Embora minhas declarações em nome desses argumentos sejam realmente relativamente modestas: que eles são "bons argumentos" para Deus e que não há comparavelmente bons argumentos para o ateísmo. Eu acho que, às vezes, as pessoas confundem a ousadia e zelo com que eu apresento os argumentos com excesso de confiança em si.) Mas, em qualquer caso, se a minha confiança nos argumentos é exagerada, então isso precisa ser mostrado ao refutar os argumentos. Não há como fugir disso. Não vai adiantar citar fora de contexto a minha declaração sobre objeções ao argumento cosmológico: "Eu já tentei interagir de forma responsável com seus argumentos proferidos e achei a maioria deles bastante inexpressivos e o resto não são insuperáveis" (Pergunta # 319). Nesse mesmo lugar dirijo-me a sua pergunta: "Se tudo isso é verdade, então por que tantas pessoas perfeitamente inteligentes e razoáveis não creem na existência de Deus?" Estas são perguntas difíceis em que pessoas inteligentes e de outra forma razoáveis discordam. Sim, eu acho que não há bons argumentos para o ateísmo e tenho defendido esta afirmação em debates numerosos demais para lembrar. Se você não concorda, então basta apresentar seu argumento, e eu vou ter que lidar com ele.
3. É claro que a filosofia não é um desperdício de tempo! Na verdade, é essencial. Alvin Plantinga observou que a filosofia é apenas pensar muito sobre algo. Há muito de verdade nesta caracterização simples. Pensar muito em ciência é filosofia da ciência, pensar muito sobre a moralidade é ética; pensar muito sobre o que é saber alguma coisa é epistemologia, e assim por diante. Cada disciplina na universidade tem um componente filosófico que examina os pressupostos e as ramificações daquela disciplina e tenta esclarecer seus conceitos-chave. Assim, nós ignoramos filosofia com nossa conta em risco.
Na verdade, a sua própria pergunta, Adam, mostra mal-entendidos e pressupostos filosóficos. Sim, Deus ainda pode existir se todos os argumentos para Deus não são sólidos; mas se há um argumento sólido para a existência de Deus, então Deus deve existir. Da mesma forma, a não-solidez de todos os argumentos para o ateísmo não prova que Deus existe; mas se há um argumento sólido para o ateísmo, então Deus não pode existir. Assim, os argumentos a favor e contra são tudo, menos irrelevantes. E a pergunta "Por que não ficar com os fatos da ciência?" trai um cientificismo ingênuo que é uma epistemologia demasiado restritita para ser plausível ou mesmo prática e é, em última análise, auto-refutável (ver o meu debate com Alex Rosenberg).
4. O renascimento da filosofia cristã em nosso tempo é extremamente significativo, Adam. Eu não quero exagerar o número ou a influência de filósofos cristãos hoje, mas você tem que dar um passo para trás e comparar a situação atual com a de uma geração anterior, quando a filosofia dominante era que falar de Deus é sem sentido e não havia quase nenhum filósofo cristão. (Na verdade, eu me pergunto se a secularização da cultura britânica não pode ser em grande parte devido à influência de pensadores como Russell, Ayer, e Flew. Os chamados neo ateus como Richard Dawkins certamente parecem ser os herdeiros inconscientes de suas ideias agora mortas.) Plantinga estimou que entre os estudantes de doutorado em filosofia, o número de cristãos é 50% maior do que o número de filósofos cristãos hoje, o que sugere que a revolução vai continuar.
A razão pela qual isso é tão significativo, Adam, é que as perguntas mais importantes sobre a existência de Deus não são científicas, mas filosóficas. Por essa razão eu não estou particularmente impressionado com as pesquisas mostrando que a maioria dos cientistas são incrédulos. Os cientistas naturais não são mais qualificados para abordar estas questões filosóficas do que os cientistas políticos. Você pode imaginar ser impressionado por uma pesquisa mostrando que a maioria dos cientistas políticos são descrentes? Ninguém daria muita atenção. Mas por causa do enorme respeito dado em nossa cultura modernista para a ciência natural, cientistas naturais são tidos como autoridades sobre questões bastante fora do seu campo.
Além disso, estudos científicos sociais mostram que os cientistas incrédulos tipicamente formaram suas visões sobre Deus antes de se tornarem cientistas, e não como resultado de sua ciência. Sua incredulidade é tipicamente enraizada nos mesmos fatores que produzem descrença entre outros leigos: educação, experiências negativas com a religião, e assim por diante. Ironicamente, aqueles que justificariam incredulidade apelando para as pesquisas, mostrando que a maioria dos cientistas é incrédula, têm caído em uma espécie de falácia post hoc propter hoc (ou seja, depois disto, portanto, por causa disso).
De onde eu estou vindo? Eu acredito que o Evangelho cristão do amor salvador de Deus é a maior notícia já anunciada, a única esperança para um mundo doente e morrendo. Eu não acredito, nem por um segundo, que o que eu faço cria divisão e raiva. Acho que muitas pessoas já estão com raiva, independentemente de mim e um apelo à razão para resolver estas questões importantes promove o diálogo construtivo entre pessoas de boa vontade. Se algumas pessoas reagem aos meus argumentos com raiva e ódio, isso é problema delas, não meu. Quanto à preocupação com a criação de divisão, isto se torna muito facilmente uma desculpa para o pensamento das massas e para uma conformidade. Os cristãos são chamados para não se conformar com este mundo, para ter a coragem de se levantar e ser diferente. Estou muito mais preocupado com uma igreja que seja intimidada por secularistas a manter silêncio e aquiescência cultural porque estou com medo de ser divisivo por me levantar pela verdade do Evangelho. Eu considero que é um enorme privilégio estar vivo e estar trabalhando neste momento de um renascimento da filosofia cristã. Ela oferece uma esperança verdadeira de mudança cultural para melhor à medida que sua influência se infiltrar na cultura popular nas próximas gerações.
-
[1]
Does God Exist? Com Antony Flew. Respostas de K. Yandell, P. Moser, D. Geivett, M. Martin, D. Yandell, W. Rowe, K. Parsons, e Wm. Wainwright. Ed. Stan Wallace. Aldershot: Ashgate, 2003.
Does God Exist? Com Antony Flew. Respostas de K. Yandell, P. Moser, D. Geivett, M. Martin, D. Yandell, W. Rowe, K. Parsons, e Wm. Wainwright. Ed. Stan Wallace. Aldershot: Ashgate, 2003.
- William Lane Craig