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#706

March 23, 2021
Q

Dr. Craig,

Todas as indicações parecem sugerir uma profunda admiração, respeito e amizade sua com o saudoso Ravi Zacharias. Queria saber se poderia aconselhar um cristão como eu que parece culpado da prática não muito saudável de colocar outro cristão num pedestal, o que leva a cultuar aquele indivíduo de modo idólatra e pecaminoso. Especificamente, só esta semana soube das acusações surpreendentes de falha moral do saudoso Zacharias. É óbvio que não queria ficar por aí especulando sobre a situação moral de alguém em comparação com outros, ou sentenciar um juízo ou conclusões sobre o que alguém fez ou não, em especial quando essa pessoa não está mais viva para falar por si.

Dito isto, essas notícias liberaram um maremoto de emoções em mim. Para começar, estou profundamente triste. Além disso, receio que tinha uma percepção nem um pouco saudável de como um cristão espiritualmente regenerado deveria ser. Quando comparo as suas palestras visivelmente afáveis e humildes e o seu coração tão dedicado às pessoas com as quais ele entrava em contato, em relação ao que pode muito bem ser pecado sexual escandaloso naquele mesmo momento, eu me pego matutando: “o que eu pensava ser alguém espiritualmente vibrante, na verdade, não é algo possível”. Sinto um desânimo espiritual no que agora me parece a impossibilidade de crescimento e maturidade espirituais.

Claro que posso ler os seus argumentos aqui no site para reforçar a verdade do cristianismo, verdade que não depende em nada do caráter moral de nenhum homem, incluindo Ravi. No entanto, o que o senhor sugeriria a quem agora talvez sinta que temos ao nosso redor um deserto espiritual, pois alguém cujos livros temos em nossas estantes e cujos programas de rádios ouvimos — seja Ravi ou qualquer outro — pode muito bem ser alguém que, um dia, será exposto como nada parecido com aquela personalidade, temperamento e caráter que acabamos associando com a vida cristã ideal? Será que poderia partilhar a sua sabedoria sobre algo como essa traição emocional, ou sobre como persistir na fé quando essa visão de regeneração espiritual é traída?

Muito obrigado por seu ministério e atenção.

Jeremy

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Pelo que entendi, Jeremy, a sua pergunta não diz respeito às sérias alegações feitas contra Ravi, sobre as quais sei tão pouco quanto você; na verdade, você quer saber como lidar com a devastação emocional depois de ver a queda de um de seus ídolos tão queridos. A sua tristeza é totalmente compreensível e vai levar algum tempo para passar. Nesse ínterim, permita-me fazer alguns comentários que talvez ajudem.

Primeiramente, reconheça que você estava errado ao idolatrar outro ser humano. Histórias assim são como um tapa na cara, lembrando-nos da nossa idolatria indevida de outro ser humano falho. Fico preocupado, Jeremy, quando o vejo falar da traição da sua “visão de regeneração espiritual”. O quê? Ravi Zacharias era a sua visão de regeneração espiritual? Isso é descabido, Jeremy, e só pode levá-lo à decepção. Você deveria ter apenas um ídolo: Jesus de Nazaré. Ele jamais o decepcionará ou frustrará. Concentre-se nele como exemplo do que seja alguém “espiritualmente vibrante”. Você tinha mesmo “uma percepção nem um pouco saudável”, mas não, como você diz, “de como um cristão espiritualmente regenerado deveria ser”. Essa percepção estava provavelmente correta, sendo algo que Jesus exemplificou e ao qual devemos aspirar. Antes, você tinha uma percepção não muito saudável de outro ser humano como se estivesse acima da falha e do pecado. Você o associou com “a vida cristã ideal”. Era uma forma, por mais compreensível que fosse, de idolatria.

Em segundo lugar, reflita na doutrina cristã do pecado. Meu receio é que muitos de nós não temos uma doutrina do pecado tão séria assim. Quando leio o que a Bíblia diz sobre seres humanos decaídos e o pecado que nos assola, mesmo como cristãos regenerados, não fico completamente chocado com os relatos de falha moral nas vidas de cristãos aparentemente impecáveis do ponto de vista moral. Pense em alguém como Davi, no Antigo Testamento: ele claramente amava a Deus e se dedicava a ele, e ainda assim caiu nos pecados mais horríveis e hediondos de adultério e homicídio. Se pode acontecer com ele...! Uma das manifestações da nossa pecaminosidade é a nossa capacidade excepcional de racionalizar. Mesmo ao continuarmos no nosso pecado secreto, podemos nos envolver em serviço afável e humilde, com toda sinceridade. Isso é parte do embuste do pecado.

Em terceiro lugar, não faça inferências inválidas. Ver a falha moral de alguém que admiramos pode trazer profunda decepção e angústia. Porém, de tal falha não se segue de forma alguma que “o que eu pensava ser alguém espiritualmente vibrante, na verdade, não é algo possível”. Daí se segue, no máximo, que alguém que você pensava ser alguém espiritualmente vibrante, na verdade, não o era. No entanto, isso não mostra de modo algum que não há multidões de pessoas espiritualmente vibrantes que vieram antes de nós e estão ao nosso redor. Sei que existem; eu as conheço. Sim, posso estar errado em muitos casos, mas não quer dizer que ninguém assim existe, muito menos que seja algo impossível. Fico surpreso com a sua declaração de que você sente “um desânimo espiritual no que agora me parece a impossibilidade de crescimento e maturidade espirituais”. Por quê? Você mesmo não experimenta crescimento e maturidade espirituais? Você não consegue olhar para trás e ver como cresceu? Será que a sua própria experiência não contradiz essa afirmação radical? (Se não, a destruição desse ídolo talvez lhe seja muito saudável, alertando-o para a sua própria falta de crescimento e maturidade.)

Em quarto, aproveite esta situação para o auto-exame. Esses tipos de incidentes devem ser sérios lembretes do que pode acontecer conosco. Nenhum de nós está imune. O pecado que derrubou os discípulos na noite da prisão de Jesus foi a presunção: “‘Ainda que seja necessário morrer contigo, de modo nenhum te negarei’. E todos os discípulos disseram o mesmo” (Mateus 26.35). Paulo nos lembra a examinar a nós mesmos para ver se estamos firmes na fé (2 Coríntios 13.5). “Assim, aquele que pensa estar em pé, cuidado para que não caia” (1 Coríntios 10.12). Nossa impressão primordial nessas situações não deve ser a fraqueza de alguém que falhou, mas, sim, a nossa própria fraqueza e risco de cair.

- William Lane Craig