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#815 Retrocausalidade quântica em perspectiva teológica

January 02, 2023
Q

O que exatamente é a “retrocausalidade” quântica, e existe alguma perspectiva teológica ou resposta que lhe possa ser dada? Agradeço a sua atenção.

Adrian

Canada

Dr. Craig responde


A

Retrocausalidade tem a ver com causação retroativa, em que o efeito se dá, cronologicamente, antes da causa. Há, ao menos, algumas situações na mecânica quântica nas quais a retrocausalidade supostamente desempenha sua função.

Primeiramente, a criação do par eléctron-pósitron pode ser modelada matematicamente como um único eléctron a voltar e avançar no tempo. O mero modelamento matemática, porém, não traz consigo implicações ontológicas. Em segundo lugar, mais seriamente, a não-localidade quântica implicada pelo Teorema de Bell parece implicar que, em alguns quadros de referência, sinais causais voltam no tempo, com todos os paradoxos da causalidade que isto implica. A melhor maneira de evitar esta implicação, defendida pelo próprio Bell, é retornar à teoria da relatividade como era antes de Einstein e afirmar relações de simultaneidade absoluta, excluindo, pois, a sinalização retroativa.

Pois bem, a sua pergunta, Adrian, diz respeito ao modo em que devemos enxergar a possibilidade da retrocausalidade, não científica ou filosoficamente, mas teologicamente. A retrocausalidade parece pressupor uma teoria aflexiva do tempo, segundo a qual todos os momentos no tempo, quer no passado, presente ou futuro, são igualmente reais e existentes. Isto porque, somente se todos os momentos no tempo forem igualmente reais, pode haver relações causais retroativas entre eventos futuros e passados. A resposta à sua pergunta, portanto, dependerá da existência ou não de objeções teológicas à teoria aflexiva do tempo.

Creio que elas existem. Segundo a teoria aflexiva do tempo, o mal não é jamais erradicado da criação. Mesmo que ele chegue ao fim na volta de Cristo, a mancha do mal em momentos anteriores da criação nunca será eliminada. O que isto implica para a crucificação e a ressurreição de Jesus é muito desconcertante. Jesus está pendurado permanentemente na cruz no ano 30 d.C., e a sua ressurreição é apenas a animação de seções posteriores tridimensionais do seu corpo estendido espaço-temporalmente. Parece-me, portanto, que o teólogo cristão deve comprometer-se com uma teoria flexiva do tempo e com a realidade do devir temporal, o que exclui a retrocausalidade.

- William Lane Craig