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#578 “Seria eu a mesma pessoa que entrou aqui?”

January 13, 2019
Q

Sei que o senhor se especializou em filosofia do tempo e, por isso, achei que fosse a melhor pessoa para eu apresentar esta questão. Recentemente tive uma discussão em que dei minhas razões para crer que a teoria A do tempo é verdadeira e que a teoria B do tempo tem sérios problemas. Meu maior problema com a teoria B era a persistência da identidade ao longo do tempo. Como, segundo a teoria B, a pessoa é a mesma pessoa no almoço como é no jantar, sendo que as duas seriam igualmente reais e existentes? Pensava que fosse uma objeção muito boa, mas então me fizeram a seguinte pergunta: “Segundo a teoria A, como sua identidade persiste ao longo do tempo? Como a teoria A oferece uma explicação melhor para a persistência da identidade?” Não tenho certeza se não estou pensando sobre a questão da maneira certa ou se estou pensando demais nela, mas não consigo achar uma resposta. Continuo a me indagar: “Como, segundo a teoria A, sou a mesma pessoa hoje que serei amanhã?” Se puder ajudar dando sua melhor explicação, seria incrível. Obrigado!

Atenciosamente,

Austincole

United States

Dr. Craig responde


A

Em benefício daqueles que não têm o contexto para entender a pergunta de Austincole, devo explicar que, de acordo com a chamada teoria A do tempo, o devir temporal é característica objetiva da realidade, de modo que o passado, o presente e o futuro não estão em paridade ontológica, ao passo que, para a chamada teoria B, o devir temporal é ilusão da consciência humana, e o passado, o presente e o futuro são igualmente reais.

Pois bem, a questão não é que a teoria A forneça “uma explicação melhor” da identidade pessoal através do tempo. Talvez nem sequer haja algo que explique a identidade da pessoa ao longo do tempo. Antes, a questão é que a teoria A afirma a identidade pessoal através do tempo, enquanto a teoria B a nega.

Segundo a teoria A, as coisas persistem através do tempo. A pessoa que existe à 1 da manhã simplesmente não desaparece, mas continua a existir e existirá à 1 hora e 1 minuto, desde que tudo lhe vá bem. Isto responde a “como, segundo a teoria A, sou a mesma pessoa hoje que serei amanhã?

Em contraste, para a teoria B, as coisas perduram ao longo do tempo. Isto é, algo temporalmente extenso tem uma parte ou estágio que existe à 1 hora e uma parte diferente que existe à 1 hora e 1 minuto. Nenhuma dessas partes persiste através do tempo: cada uma é fixada em suas coordenadas espaço-temporais. Assim, a teoria B é incompatível com a identidade pessoal através do tempo, na medida em que pensamos que uma pessoa é um sujeito autoconsciente, e não objeto inconsciente quadridimensional.

Isto é importante porque a teoria B não explica de forma alguma a honra e a culpa morais, uma vez que a pessoa que praticou o ato heroico ou cometeu o crime não são a mesma pessoa diante de nós agora. Seria injusto recompensar ou punir a pessoa por atos praticados por outra. Caso se diga que alguém está recompensando ou punindo uma parte temporal que inclui ambos estágios, o problema continua sem solução, pois, ao recompensar ou punir, está-se também recompensando ou punindo um número infinito de outros estágios pessoais que não incluem a parte que praticou a ação, o que seria injusto.

- William Lane Craig