#111 Simplicidade Divina
January 14, 2015Olá, Dr. Craig.
Muito obrigado por seu trabalho esclarecedor em filosofia da religião. Estou escrevendo da Malásia para que você saiba que seu trabalho tem alcançado muitas pessoas globalmente.
Sou um aluno de ciência da computação apenas lendo a respeito da apologética cristã. Minha pergunta é a respeito da doutrina da simplicidade divina. Não li nenhum artigo que você tenha escrito sobre a simplicidade divina, então não sei da sua posição sobre esta doutrina.
Porém, alguém cita você e J.P. Moreland como sendo basicamente contra a doutrina:
Além disso, a doutrina [simplicidade divina] é suscetível a fortes objeções. Por exemplo, dizer que Deus não tem propriedades distintas parece obviamente falso: onipotência não é a mesma propriedade que bondade, pois um ser pode ter uma e não ter a outra.
Minhas perguntas, portanto, são:
1. Você é a favor ou contra a SD?
2. Seria correto afirmar que sua compreensão da doutrina da simplicidade divina como caracterizada pela citação dada acima (se ela for de fato sua) é errada já que Nicholas Wolterstorff, professor emérito Noah Porter de teologia filosófica e membro do Berkeley College na Universidade Yale, acha que pensadores cristãos medievais como São Tomás de Aquino concebem a predicação em termos de sujeitos que possuem constituintes, enquanto que filósofos contemporâneos pensam na predicação em termos de sujeitos exemplificando propriedades.
Isso faz toda a diferença na forma como alguém pensa sobre a SD.
Em vez de Deus meramente exemplificar, por exemplo, a onipotência, nós podemos dizer que a onipotência é um constituinte metafísico de Deus. E, portanto, não é distinta de Deus. O mesmo se aplica à onibenevolência. Em vez de Deus simplesmente exemplificar a bondade, nós podemos dizer que a bondade é parte da natureza de Deus, e, portanto, não distinto dele.
Assim, será que não podemos ser acusados de reduzir Deus a uma propriedade abstrata? Eu acredito que não. Pois nós claramente indicamos que nós estamos falando da bondade de Deus, que é um constituinte metafísico de Deus. Se a bondade de Deus é parte da natureza de Deus, então a natureza de Deus é certamente idêntica ou igual a Deus, a natureza de Deus é simplesmente o mesmo que Deus.
Uma objeção pode ser levantada: nós sabemos que existe uma diferença conceitual entre a natureza de Deus e, por exemplo, a justiça de Deus. Pois a natureza de Deus é o que faz Dele Deus, e a justiça de Deus é o que faz ele justo. Portanto, isso parece refutar a doutrina da SD.
Para mim, isso não parece derrotar a SD já que ela não afirma que as propriedades de Deus são conceitualmente parecidas. Ela afirma que elas são metafisicamente similares. Assim, por exemplo, a afirmação de que Deus é idêntico com Sua natureza se torna a afirmação de que Deus é idêntico com aquele constituinte que o torna divino, isto é, com seu constituinte que o faz divino. E a afirmação de que Deus é idêntico com sua justiça levará a afirmação de que Deus é idêntico com aquele constituinte que o faz justo (constituinte da justiça).
Eu sei que este tópico pode tornar-se bastante longo, e peço desculpas por escrever um post tão longo. Eu adoraria ouvir sua visão sobre as questões que eu levantei.
Ernest
United States
Dr. Craig responde
A
Obrigado, Ernest, por uma pergunta tão estimulante e profunda a respeito da simplicidade divina! Eu abordei esta doutrina brevemente em meu segundo capítulo sobre “A Coerência do Teísmo” no livro “Philosophical Foundations for a Christian Worldview” [Filosofia e Cosmovisão Cristã (Vida Nova, 2005)] que J. P. Moreland e eu escrevemos. A passagem que você cita aparece na p. 524.
Como eu explico no livro, a clássica doutrina da simplicidade divina defende que Deus é uma unidade absolutamente indiferenciada que não tem atributos distintos, não participa em nenhuma relação real, cuja essência não é distinta de Sua existência, e que simplesmente é o puro ato de subsistir. Como tal, a doutrina da simplicidade divina é uma doutrina que não tem qualquer suporte bíblico e, em minha opinião, não tem bons argumentos filosóficos a seu favor. Além disso, a doutrina enfrenta objeções formidáveis. Assim, em resposta à sua primeira pergunta, eu rejeito a doutrina tradicional que afirma que Deus é absolutamente simples.
Agora, quanto a sua segunda pergunta, eu presumo que você está se referindo ao artigo interessantíssimo de Nicholas Wolterstorff “Simplicidade Divina,” na Philosophical Perspectives 5: Philosophy of Religion [Perspectivas Filosóficas 5: Filosofia da Religião] (Atascadero, Calif.: Ridgeview Publishing, 1991), pp. 531-52. Nele, Wolterstorff argumenta que a doutrina da simplicidade divina tem sido construída erroneamente por modernos porque nós falhamos em entender o pano de fundo metafísico medieval daquela doutrina. O problema, ele argumenta, é que nós modernos trabalhamos com uma “ontologia relacional”, de acordo com a qual a natureza ou essência de alguma coisa é um tipo de objeto abstrato com o qual essa coisa participa em uma relação de exemplificação. Por exemplo, um gato é visto como exemplificando a propriedade ser felino, que é uma entidade abstrata com a qual o gato está relacionado. Mas pensadores medievais estavam trabalhando com uma “ontologia constituinte,” de acordo com a qual naturezas eram, elas mesmas, constituintes das coisas. Na verdade, uma natureza individual era mais como um objeto concreto do que um objeto abstrato. Assim, a humanidade de Platão não era, neste sentido, a mesma humanidade de Aristóteles; cada um tinha sua própria natureza humana individual que foi individualizada pela matéria pela qual cada homem foi composto. (Eu acho que Wolterstorff subestima seriamente o quanto os medievais também reconheciam a natureza comum compartilhada por todas as coisas de certo tipo, mas vamos deixar isto passar). Claro que, para entidades que são imateriais, como anjos, por exemplo, não há matéria para individualizar sua natureza. Desta forma, cada um simplesmente é sua natureza. Cada anjo é, portanto, literalmente único! Além disso, coisas criadas têm, além de sua natureza, certas propriedades adicionais que são chamadas de acidentes. Por exemplo: ser marrom, ser inteligente, ser bom, e assim por diante.
No caso de Deus, Deus é imaterial, então Ele simplesmente é Sua natureza. Além do mais, a afirmação da doutrina da simplicidade divina é que Deus não tem acidentes; Ele tem apenas Sua essência. Finalmente, apenas no caso de Deus, Sua natureza envolve existência. Ele existe por Sua própria natureza. Entendida desta forma, a doutrina da simplicidade divina não compromete alguém com a noção absurda de que Deus é uma propriedade e, portanto, um objeto abstrato, como críticos modernos da doutrina às vezes têm alegado.
A correção de Wolterstorff da leitura moderna da simplicidade divina é bem vinda. Certamente os medievais não teriam pensado que a identidade de Deus com Sua natureza significa que Ele é um objeto abstrato. Mas esta crítica errônea não é a que eu ofereço no livro Filosofia e Cosmovisão Cristã.
Na verdade, Wolterstorff realmente diluiu a doutrina clássica da simplicidade divina. Em sua explicação Deus poderia ter uma natureza muito complexa e ainda ser considerado um ser simples. A doutrina tradicional é muito mais radical. Ela faz quatro afirmações quanto à identidade:
i. Deus não é distinto de Sua natureza.
ii. As propriedades de Deus não são distintas uma da outra.
iii. A natureza de Deus não é distinta de Sua existência.
iv. Deus não tem propriedades distintas de Sua natureza.
A afirmação (i) não é unicamente aplicada a Deus. Anjos também são idênticos a sua natureza. Assim, esta afirmação não é problemática quando entendida dentro do pano de fundo metafísico medieval.
A afirmação (ii), porém, continua sendo problemática. Existência é parte da natureza de Deus. Mas existência não é a mesma propriedade que, digamos, onipotência, pois muitas coisas têm existência mas não onipotência. Permanece muito obscuro, portanto, como a natureza ou essência de Deus pode ser simples e todas as suas propriedades serem idênticas.
A afirmação (iii) é representada de forma errada por Wolterstorff, eu acredito. A leitura dele é o que acadêmicos Tomistas chamam de leitura “essencialista” da doutrina de Tomás de Aquino: existência é uma propriedade que é incluída na essência divina. Mas muitos Tomistas insistem que a leitura correta de Tomás é uma leitura “existencialista”: existência não é uma propriedade, mas é o ato de ser que instancia uma essência. Todas as coisas, exceto Deus, são compostas de uma essência para a qual um ato de ser é unido para fazê-la existir como uma coisa concreta particular. Mas, de certa forma, Deus não tem essência nesta visão; ao invés disso, ele é simplesmente o puro ato de ser, não limitado por qualquer essência. Ele é, como Tomás disse, o puro ato de ser que subsiste. O problema é: esta doutrina é simplesmente ininteligível.
Finalmente, a afirmação (iv) depara-se com o sério problema de que Deus parece ter propriedade acidentais além de Suas propriedades essenciais. Por exemplo, no mundo real, Ele sabe, ama, e deseja certas coisas que Ele não saberia, desejaria ou amaria se Ele tivesse decidido criar um universo diferente ou mesmo se tivesse decidido não criar nenhum universo. Na doutrina da simplicidade divina Deus é absolutamente similar em todos os mundos possíveis; mas então se torna inexplicável a razão pela qual esses mundos variam se, em cada um deles, Deus sabe, ama e deseja as mesmas coisas.
Isso não quer dizer que a doutrina da simplicidade divina não tem nenhum valor. Pelo contrário, em outros textos eu defendi a posição que afirma que a cognição de Deus é simples. Mas eu acho que a doutrina completa em toda sua glória é filosoficamente e teologicamente inaceitável.
- William Lane Craig