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#216 Tudo que Começa a Existir Precisa Ter uma Causa Material?

October 28, 2014
Q

Após a sua refutação recente de outra objeção sem esperança, o autor, TheoreticalBS, no youtube, alegou que você tomou o seu argumento fora de contexto e que tens feito isso para muitos de seus críticos no passado. A minha pergunta é se você acredita que não há qualquer validade na declaração de TBS, e se você planeja refutar seu argumento completo em sua totalidade. (Isso serve como uma pergunta legítima, porque eu estou intrigado para ouvir sua resposta completa e espero que tenha um diálogo contínuo entre vocês dois)

Daniel

United States

Dr. Craig responde


A

A julgar pelo número de perguntas que surgiram nesta semana sobre essa troca, Reasonable Faith deveria talvez estar olhando para TBS para conselho de marketing!

A história por trás dessa polêmica é que há algumas semanas uma Pergunta da Semana chegou, me perguntando o que eu achava do seguinte argumento:

O Argumento Kalam CONTRA Deus:

P1: Nada que exista pode causar algo que não existe para começar a existir.

P2: Dado (1), qualquer coisa que começa a existir não foi causado a fazê-lo por algo que existe.

P3: O universo começou a existir.

P4: Dado (2) e (3), o universo não foi causado a existir por qualquer coisa que existe.

P5: Deus causou o universo começar a existir.

C1: Considerando (4) e (5), Deus não existe.

Nenhum contexto foi fornecido. Enquanto eu refletia sobre essas premissas, pareceu-me que temos aqui uma outra escolha de candidato para o meu próximo artigo "Objections So Bad I Couldnt Have Them Up” [Objeções Tão Ruins que eu não Poderia Ter Inventado] (ou, as Dez Piores Objeções do Mundo para o Argumento Cosmológico Kalam)!" Porque como expliquei na Pergunta da Semana #214, o argumento não só assume que há objetos que não existem, mas conclui que Deus é como tal objeto e fez com que o universo viesse a existir. (Isso poderia levar a uma nova marca de ateísmo, uma que sustenta que Deus não existe e que a adoração e serviço é devido a este ser inexistente!)

Achando o argumento tão ridiculamente ruim, eu imaginei que não merecia discussão como uma Pergunta da Semana; mas, depois de ter investido algum tempo dissecando este ninho de vespa, eu decidi ir em frente e postar minhas reflexões sobre ela como uma Nota em minha página do Facebook. Mas quando comecei a receber mais perguntas como #214 de John, achei que talvez fosse importante ressaltar as deficiências desta linha de argumentação em um Pergunta da Semana afinal. Parece que muitas pessoas compreendem mal a criação como um objeto inexistente, trocando a propriedade de não-existência para a de existência, e, portanto, uma impossibilidade.

Infelizmente, parece que agora que, segundo TBS, o argumento que foi me enviado não se destinava a ser sério, mas era uma espécie de piada (sobre isso, pelo menos, podemos concordar!). Embora TBS tente comparar seu argumento jocoso às simples premissas do argumento cosmológico kalam, a analogia é totalmente carente. As premissas do argumento kalam são coerentes, esperando apenas para serem defendidas. O argumento de TBS é uma bagunça e vai necessitar, para a sua defesa, todos os tipos de retrações sobre o que as premissas afirmam. Na verdade, TBS agora oferece uma reformulação de seu argumento, mas, infelizmente, ainda mantém as suposições equivocadas do original.

Por exemplo, ele diz: "Nunca vimos uma coisa que não existe sendo causada a começar a existir. Coisas que não existem não podem ser causadas a ‘fazer’ nada, já que não estão *lá* para serem influenciadas por uma causa." Sua primeira afirmação é claramente falsa. Como uma vez no passado você não existia, seguiria do princípio de TBS que (1) você passou a existir sem uma causa ou (2) você não existe, sendo que ambos são absurdos. (Sim, sim, eu sei que TBS diz que os constituintes materiais de uma coisa interagem causalmente um com o outro, mas em sua visão eles não estão em qualquer relação de causalidade com a coisa em si, o que, portanto, começa a existir sem causa.) Você deve ter sido causado para começar a existir (talvez justamente pela interação prévia de seus constituintes materiais!). O argumento de TBS contra esta alternativa não é nada além de um ensaio de seu mesmo argumento falacioso baseado no pressuposto de que, causando algo a começar a existir envolve agir sobre um objeto inexistente.

Certa vez, expressei perplexidade que pessoas como TBS poderiam ser levadas por tal pensamento desleixado. Eu acho que sei parte da razão agora: tais pessoas estão lutando com questões filosóficas importantes e difíceis, mas não têm as habilidades para fazê-lo rigorosamente. Elas não têm a formação metafísica e lógica para formular suas ideias e argumentos corretamente. Infelizmente, em vez de fazer perguntas de sondagem, elas presumem se pronunciar com confiança, mesmo presunçosamente, sobre estes assuntos.

Não estou sendo caridoso em dizer isso? De modo nenhum! Não há avaliações de colegas na internet, e incompetentes estão em toda parte, prontos para atrair os desavisados. Sam Harris, alertou, "quanto menos uma pessoa é competente em um determinado domínio, mais ela tende a superestimar suas habilidades. Isso muitas vezes produz um péssimo casamento entre confiança e ignorância que é muito difícil de corrigir." Infelizmente, ele se queixa," qualquer pessoa com um computador e muito tempo em suas mãos pode transmitir o seu ponto de vista e, muitas vezes, encontrar um público." [1]

Portanto, permitam-me deixar de lado TBS e chegar ao ponto realmente sério por trás de sua objeção, que eu acredito que ele esteja lutando para expressar. O que ele realmente parece estar afirmando é que

1. Tudo que começa a existir tem uma causa material.

ou talvez

1*. Toda coisa física que começa a existir tem uma causa material.

Esta é uma pergunta metafísica substantiva—tão importante, na verdade, que eu a abordo em quase todas as defesas publicada do argumento cosmológico kalam que já escrevi! Isso mesmo! Em outras palavras, o que estou dizendo é que, quando você vai direto ao ponto, a pergunta realmente séria levantada pela objeção de TBS é uma com que eu lidei muitas e muitas vezes (por exemplo, Blackwell Companion to Natural Theology, p. 189.; Reasonable Faith, p. 152; Pergunta # 215, etc).

Então, por que TBS, e aparentemente muitos dos nossos leitores, desconhecem este fato? Suponho que a razão é que, como eu já lamentei no passado, as pessoas conhecem o meu trabalho principalmente por meio de vídeos de debates, onde objeções substantivas raramente são levantadas pelos opositores, e não conhecem o meu trabalho publicado, onde eu rotineiramente lido com questões como esta (incluindo explicações rigorosas de locuções como "começa a existir"). Se, como alega TBS, eu fizesse um hobby de responder aos ateus de internet, então eu fiz carreira respondendo às críticas profundas de filósofos como Quentin Smith, Adolf Grünbaum, Graham Oppy, J. Howard Sobel, Wes Morriston, et al. em revistas e periódicos profissionais. Lá você vai encontrar discussão substantiva das objeções ao argumento cosmológico kalam, incluindo a presente objeção.

Resumidamente, a premissa causal do argumento cosmológico kalam, ou seja,

1'. Tudo que começa a existir tem uma causa.

deixa em aberto a pergunta se esta causa é eficiente ou material e, portanto, é uma premissa muito mais modesta do que (1) ou (1*). Então, o opositor é quem tem o ônus de provar que todos os casos de causalidade eficiente de um objeto (físico) deve ser coincidente com uma instância de causalidade material também. O argumento coxo de TBS contra a possibilidade de influenciar objetos inexistentes era uma tal tentativa.

Observe os três argumentos para (1') que apresento, ou seja,

(i) Algo não pode vir a existir a partir do nada.

(ii) Se algo pode vir a existir a partir do nada, então se torna inexplicável por que qualquer coisa ou todas as coisas não vieram a existir a partir do nada.

(iii) A experiência comum e as evidências científicas confirmam a verdade da premissa 1'.

só o terceiro é um argumento indutivo a partir da experiência que se poderia pensar ser comparada com a evidência indutiva em apoio a (1) ou (1*)—embora as evidências da cosmologia contemporânea, indicada abaixo, forneçam um contraexemplo aparentemente poderoso para (1 ) e (1*). O ponto é que os principais motivos para (1') são metafísicos, não indutivos, e não são correspondidos por razões metafísicas comparáveis a (1) ou (1*).

Assim que chegamos a conclusão do argumento cosmológico kalam, isto é,

3. Portanto, o universo tem uma causa.

agora podemos indagar sobre a natureza dessa causa. É, ou pode ser, um objeto material? Ambos os argumentos filosóficos e confirmações científicas da premissa

2. O universo começou a existir.

excluem que a causa do universo seja um objeto material, já que, se não pode haver uma regressão infinita de eventos, é fisicamente impossível que a causa do universo seja um objeto (ou objetos) material; da mesma forma a evidência científica apóia a conclusão de que a origem do universo foi absoluta no sentido de que toda matéria e energia, até mesmo o espaço físico e o tempo, surgiram há um tempo finito atrás. Portanto, temos muito boas razões para afirmar a imaterialidade da Primeira Causa. Então, a origem do universo requer uma causa eficiente de enorme poder que criou o tempo físico, espaço, matéria e energia. É um exemplo de causa eficiente, mas não material. Se pensamos que isso deve ser metafisicamente impossível, então algum argumento convincente e primordial deve ser dado para essa conclusão. Eu ainda estou para encontrar tal argumento.

Acredito que esteja claro que eu tenho, desde o início do meu trabalho sobre o argumento cosmológico kalam, me engajado com a objeção real que está por trás da recente e desajeitada expressão da TBS dele. Fiquei um pouco surpreso, pois, com o tom de muitas das perguntas e comentários que tenho recebido sobre este assunto. (o comentário de Daniel era um dos agradáveis!) Parece que há pessoas lá fora, que eu nunca sequer conheci, que não gostam de mim intensamente e estão muito prontos a acreditar no pior sobre mim. Como um filósofo profissional, dificilmente eu deturparia os argumentos dos meus interlocutores ouergueria homens de palha, e tampouco tal trabalho seria aceito para publicação em revistas profissionais revisadas por colegas. O problema é que os ateus de internet, muitas vezes de forma inepta, deturpam suas próprias objeções ou preocupações. Eu comento sobre o seu trabalho apenas ao você trazê-lo a minha atenção e quando acho que é interessante ou instrutivo.

  • [1]

    Sam Harris, The Moral Landscape (New York: Free Press, 2010), p. 123.

- William Lane Craig